Seca, crise e busca por renovação: o Milan que pode receber Paquetá

Milan pode ser o novo destino de Lucas Paquetá Staff Images / Flamengo

Cinco títulos da Liga dos Campeões, jogadores históricos que vestiram sua camisa e referência no futebol italiano: tradição é algo que não falta ao Milan, provável destino de Lucas Paquetá, do Flamengo. Seu último grande título de expressão, porém, foi a conquista do Campeonato Italiano de 2010/11. Desde então, um dos maiores clubes europeus entrou em uma crise financeira sem precedentes em sua história, potencializada por administrações ruins e trocas de comando.

O momento atual, porém, é de reestruturação. Com um novo fundo de investimento e novas condutas administrativas, o Milan olha para o futuro ao mirar suas atenções na joia do rubro-negro carioca, e busca, no presente, retomar as glórias do passado.

A maior crise da história

Li Yonghong é uma figura polêmica no cenário econômico e empresarial mundial. Para entender a profunda crise financeira que o Milan entrou, o chinês é uma peça fundamental da história. Sucessor do magnata e ex-primeiro ministro da Itália, Silvio Berlusconi (que foi dono do Milan por 31 anos), Li comprou o clube italiano em abril de 2017, por 740 milhões de euros (R$ 2,4 bilhões).

O chinês, porém, para comprar o Milan, firmou uma parceria com o fundo de investimentos americanos Elliot, que empregou 303 milhões de euros (R$ 1 bilhão) ao chinês para que a compra fosse realizada. A relação com a Elliot foi nebulosa e foi primordial na saída de Li e derrocada do Milan. Com dificuldades de manter a saúde financeira da equipe, o Milan de Li passou a ser alvo de investigações da Uefa.

A entidade pedia explicações sobre o dinheiro usado na contratação do atacante português André Gomes, por 38 milhões de euros (R$ 140 milhões), mas Li não prestou as devidas considerações e, com isso, o Milan foi excluído e impedido de disputar, até então, qualquer competição européia por dois anos.

Em meio a esse turbilhão financeiro, o chinês pediu, novamente, mais um empréstimo para Elliot, dessa vez de 32 milhões de euros (R$ 144,2 milhões), com o intuito de aumentar o capital do clube italiano. O fundo americano concordou mediante um prazo para a realização do pagamento (10 de julho), em caso do pagamento não ser efetuado, o fundo executaria a penhora das ações do clube. Como previsto, Li não pagou e a Elliot assumiu, em julho de 2018, o comando do Milan. Estipula-se que, em um ano, Li Yonghong tenha perdido cerca de 500 milhões de euros (R$ 2,3 bilhões).

– Eu esperava que a Elliot fosse diferente, mas, no final, acabaram sendo a clássica Fundo Hedge. Eu botei muita fé neles. Eu gostaria de lembrar aos torcedores do Milan que eu sempre respeitei os pagamentos durante minha estadia no clube e eu estou pronto para lutar pelos meus direitos – escreveu Li Yonghong, em carta aberta, após sua saída do clube

O começo da reestruturação

Sem Li Yonghong, a Elliot assumiu as rédeas do clube e manteve um discurso de transparência e reestruturação. Fundada em 1997, em Nova York, por Paul Singer, considerado pela Bloomberg, empresa americana de informação e tecnologia voltada para o mercado financeiro, como “o investidor mais destemido do mundo”.

– Suporte financeiro, estabilidade e supervisão adequada são pré-requisitos necessários para o sucesso em campo e uma experiência de torcedores de classe mundial. A Elliott aguarda com expectativa o desafio de realizar o potencial do clube e devolvê-lo ao grupo dos principais clubes de futebol da Europa, onde ele, com razão, pertence – disse Paul Singer, em comunicado oficial, após a oficialização da compra

O fundo possuí mais de 30 bilhões de dólares (R$ 123 bilhões) em ativos e tem participação ativa em grandes empresas, como a TIM e a mineradora australiana BHP Biliton. Entre as primeiras medidas da nova investidora, a recuperação do direito de disputar competições europeias.

A Elliot entrou com um recurso no Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) e conseguiu anular a suspensão imposta pela Uefa. Além disso, trouxe de volta Leonardo como diretor esportivo do clube, fazendo com que o brasileiro passasse a controlar o futebol da equipe.

A importância de Leonardo

Nesse período de reestruturação do Milan, Leonardo é fundamental. Ex-jogador do clube, o brasileiro teve uma importante passagem, no passado, como diretor esportivo. Foi um dos responsáveis pela transferência de Kaká (em 2003) para o Milan, além de ter participação direta nas contratações de Thiago Silva e Ronaldo Fenômeno.

Leonardo também já demonstrou saber lidar com crises, fator fundamental no atual momento, ainda instável, do clube. No escândalo de manipulações de resultados que assolou o futebol italiano em 2006, que ficou conhecido como ‘Calciopoli’, o Milan perdeu oito pontos no Italiano e a vaga para a Liga dos Campeões. Com desenvoltura e tato com os jogadores, Leonardo uniu a equipe e o Milan conseguiu um bom posicionamento na Serie A e a vaga para a primeira fase da Champions.

Seu histórico e ligações com jogadores brasileiros podem ser um dos trunfos para o bom desenvolvimento de Paquetá no clube italiano. Na sua passagem atual, o brasileiro foi importante na contratação de Gonzalo Higuaín, a estrela que melhor ilustra a reconquista do Milan no cenário futebolístico.

– É um orgulho ter sido escolhido para levar o Milan de volta ao nível que estava acostumado. Foi algo que me tocou profundamente. Passou um filme em minha cabeça, e tenho que agradecer. Penso que é um grande privilégio ter uma oportunidade como essa – declarou Leonardo em sua apresentação

Bons resultados, nova geração e Higuaín

Atualmente, o Milan vive um bom momento nas competições em que disputa. No Campeonato Italiano, ocupa a 10ª posição com 12 pontos e soma três vitórias, uma derrota e três empates. Apesar de ainda estar longe da liderança, a equipe demonstra evolução, com um bom futebol. Na última rodada, venceu o Chievo por 3 a 1, com dois gols de Higuaín.

Na Liga Europa, que por causa de Li Yonghong, quase não disputou, o Milan é o líder do Grupo F. Na estreia, venceu o Dudelange por 1 a 0, fora de casa, e sacramentou a liderança com uma imponente vitória sobre o Olympiakos, no San Siro, por 3 a 1. Na próxima rodada enfrenta o Bétis, fora, no próximo dia 25

– Eu vi os movimentos recentes do Milan no mercado e os torcedores podem ficar otimistas. O pior momento da história do clube já passou. Mas, é claro, vai ser no campo que poderemos julgar – disse ao ‘The Guardian’, o jornalista e sociólogo italiano Pippo Rossi

Entre os jogadores de destaque, dois fazem parte da renovação da seleção italiana. O goleiro Donnarumma, de apenas 19 anos, já deixou de ser uma revelação e se consolidou como herdeiro de Buffon na Azzurra. O atacante Patrick Cutrone, de 20 anos, e o zagueiro Caldara também simbolizam a nova geração de jogadores.

Além de juventude, a equipe conta com os zagueiros experientes Abate e Bonucci (contratado nesta temporada). A principal estrela, o atacante argentino Higuaín, chegou cercado de expectativas e tem correspondido. Em seus sete primeiros jogos, já marcou seis gols e deu uma assistência.

Paquetá e o rubro-negro… italiano

?O Milan atual costuma jogar no 4-3-3, com um meio composto por volantes marcadores (Biglia e Kesslé) e um mais técnico (Bonaventura). O trio de ataque é formado por Calhanoglu, Higuaín e Suso, com Cutrone como opção. Paquetá, no Flamengo, joga próximo do ataque, centralizado, armando a equipe e com boa infiltração na área.

No Milan, pode jogar da mesma forma, munindo Higuaín ou dando mais mobilidade e talento na linha de três do meio campo. Em sua melhor temporada no Milan, Kaká jogava na linha de três, mais aberto na ponta e se deslocando para o meio, junto com Seedorf e Inzaghi (estilo parecido de Higuaín) no comando de ataque.

A linha de três no meio era composta por Ambrosini e Gattuso, dois marcadores e Pirlo, mais técnico. Um esquema bem parecido com o atual. Gattuso, ex-jogador dessa equipe, é o atual treinador do Milan. Dessa forma, o italiano conhece bem o esquema glorioso do passado e pode vir a utilizar, tendo em vista a versatilidade de Paquetá, o brasileiro da mesma forma em que Kaká atuava.

Leonardo, costume de bons jogadores brasileiros, esquema favorável: as vantagens para Paquetá são muito boas e o jogador tem tudo para continuar brilhando com a camisa rubro-negra. Só que agora, o vermelho e preto italiano.

Fonte: LANCE!