O Flamengo não é a Boate Kiss

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ANDRÉ ROCHA: O caso do incêndio no CT do Flamengo chega ao momento que costuma ser o mais dramático depois da tragédia em si: a hora em que a vida que se perdeu será valorada em cifras. Quando algo tão delicado e ao mesmo tempo intangível entra em negociação.

Nesta terça-feira, dia 19, a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, o Ministério Público Estadual e o Ministério Público do Trabalho informaram que não houve acordo com o clube sobre valores de indenização às vítimas e familiares. Algo que devia ser evitado para não gerar mais desgaste à imagem da instituição.

Em seguida, o Flamengo emitiu uma nota oficial com duas colocações infelizes, para dizer o mínimo. Mesmo considerando a dificuldade de encontrar os termos mais adequados para situação tão desconfortável.

Primeiro ao dizer que “ofereceu um valor que está acima dos padrões que são adotados pela Justiça Brasileira”. Como uma empresa que oferece salário ao trabalhador superior ao “valor de mercado”. Não pode haver lógica de mercado quando dez meninos sob a responsabilidade do clube faleceram e as investigações já apontam várias inadequações no local.

Usar a brevidade na busca de negociação como defesa ou atenuante é legítimo. Pode ser interpretada, sim, como elogiável presteza na assistência às famílias. Mas também como uma questionável rapidez para que o valor não fique maior depois da conclusão do caso. Tudo depende do ponto de vista. Considerando a visão “mercadológica” do Flamengo expressa nas entrelinhas da nota…

A segunda colocação, porém, foi a mais lamentável. Comparar o caso com o da Boate Kiss em 2013, sob qualquer aspecto, é absurdo. Não por pesar o valor das pessoas vitimadas – foram 239 mortos em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Mas porque os garotos eram menores, estavam longe de suas famílias, lutando por um futuro melhor. Na prática, era um local de trabalho.

Principalmente pela função social da instituição, que não é uma casa de diversão que, em tese, deveria receber apenas maiores de idade e menores com seus responsáveis. Na nota ainda havia a seguinte afirmação: “Até hoje, vale lembrar, famílias não receberam indenizações”.

O Flamengo não pode tomar como referência um exemplo negativo, de desfecho reprovável. O Flamengo não é boate. Os garotos não estavam lá trocando dinheiro por entretenimento. O clube de futebol não é, ou não deveria ser, uma empresa visando o custo mínimo e o lucro máximo. Nunca botar na ponta do lápis a conta com o valor de uma vida. Que dirá de dez jovens que só queriam viver um sonho e morreram por ele.

É óbvio que, em qualquer tragédia semelhante, o cálculo deste tipo de indenização sempre será subjetivo. No caso em si, estipular valores como se todos fossem se tornar profissionais bem sucedidos com altos salários soa injusto. É complexo, mas para um clube que vem gastando milhões em reforços e estrutura, a sensibilidade e o bom senso têm que prevalecer. Para piorar, já se passaram 12 dias e ninguém da direção apareceu para dar satisfações à sociedade respondendo as perguntas da imprensa.

O pesadelo não acaba e parece que reserva capítulos ainda mais dolorosos. Uma tristeza que não tem fim.

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