Arthur Muhlenberg: “El fantasma de obdúlio”

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Demorou só duas rodadas para que o mais caro, não o mais valioso, elenco da história do Flamengo nos apresentasse sua contribuição para o Livro de Ouro dos Vacilos do Mengão na Liberta. A doída derrota para os uruguaios não surpreendeu nem decepcionou, seguiu um roteiro antigo, já conhecido por quase todo o público. A torcida lota o Maracanã, o time começa vibrante, não consegue transformar seu domínio em vantagem no placar, a massa ignara começa a se enfurecer, o time sente a pressão e vai se apagando aos poucos, até o blackout total no finalzinho da partida. Quem já tinha visto esse filme não gostou da reprise.

E olha que nem foi o único filme ruim da funesta soirée. Também fomos obrigados a assistir, pela enésima vez ao clássico de terror uruguaio El Fantasma de Obdúlio, tantas e tantas vezes reprisado no Maracanã. 69 anos depois de ter regido a Celeste no Maracanazo El Negro Jefe continua vagando pelos escombros gentrificados do finado estádio para assombrar brasileiros. Que continuam sucumbindo, ano após ano, com malemolente docilidade, à maior das qualidades do futebol jogado no paisito ao Sul do Prata, – a recusa categórica e inegociável a se entregar.

Os recentes resultados do Flamengo, e nossa predisposição genética para o oba-oba, nos fizeram crer que a o único resultado honrado e aceitável sobre os uruguaios seria a vitória. Um brutal erro de interpretação da realidade. Quais foram as proezas realizadas pelo Flamengo para que a soberba subisse tão rápido à 40 milhões de cabeças? Ganhou uma pelada e empatou outra de fregueses tradicionais pelo Carioca e ganhou, sem maravilhar a ninguém, de dois times muito fracos na Liberta que eram só a rapa da cocada, o bagaço da laranja. Bastou topar com o primeiro time com camisa pra toda nossa marra ser reduzida a pó.

Nosso pessoal parece que tinha esquecido que por pior que seja o Peñarol, e segundo os próprios peñarolenses esse Penãrol está entre os seus piores, eles sempre terão a camisa. Uma camisa feia, deselegante e provavelmente mal cheirosa, mas cheia de história, com cinco Libertadores nas costas. Nós sabemos que uma Libertadores já é muita coisa, ninguém ganha cinco à toa. Ainda que soe um pouco anticristão jamais que nessa vida empatar com esses arrombados no Maraca seria um mau resultado. Nem do ponto de vista moral, tampouco em termos de classificação. Mas qual de nós ousaria sequer pensar nessa possibilidade herética antes que a maionese já estivesse totalmente desandada? E ainda tivemos que passar a vergonha pelas cenas de barbárie no choque das torcidas em Copacabana. Muito primitivo.

Talvez agora seja um bom momento para que a Nação Rubro-Negra passe em revista alguns de seus mais caros mitos. Num passado distante o Flamengo até ostentou a merecida fama de ser imbatível quando coadjuvado por sua torcida no Maracanã. Mas quem está habituado a ir ao Maracanã torcer pelo Flamengo sabe que isso é uma lenda urbana, um mito, que como como todo mito desmorona diante dos números e dos fatos. As boas maneiras recomendam que não nos torturemos enumerando as sinistras ocorrências. Todos sabem que nos últimos anos o Maracanã lotado de flamenguistas tem sido um cenário muito mais fúnebre do que festivo. Provado está que o mito é uma fraude.

A incapacidade do Flamengo de fazer do Maracanã um alçapão, mesmo com o auxílio de uma torcida apaixonada é moléstia antiga, não é um defeito que nasceu com esse elenco. Mas esse elenco tem dado provas seguidas de que não será com ele que esse defeito vai ser consertado. Isso tem muito a ver com a liderança do grupo. Diego assumiu esse papel desde 2016 e já enfileira fracassos e derrotas em finais em número mais do que suficiente para que sua adequação à liderança, muito mais comportamental do que técnica, seja discutida à vera. Ser o patrão da resenha não é qualificação suficiente pra ocupar o cargo.

Diego é um grande profissional, sério, dedicado, articulado e palatável para o público. Mas sua altíssima tolerância à derrota é uma afronta ao rubro-negrismo raiz. Se ele não se importa em perder jogos como nós nos importamos deveria ao menos evitar essas entrevistas com futum de media-training que costuma dar à beira do gramado. Seu profissionalismo, ponderação e aparente indiferença ao resultado negativo só aumentam a raiva da massa. Para com essa porra. Saber perder é legal no esporte amador, no campeonato Carioca. Na Libertadores é o beijo da morte. É imperdoável que um jogador rodado como ele ainda não tenha aprendido que o flamenguista não gosta de futebol, flamenguista gosta de ganhar.

Mas Diego não se escala e nem pega a braçadeira de capitão na mão grande. Ele é o escolhido do treinador e não há jogador no mundo que recusasse tal convocação. Cornetar o Diego sem cornetar o Abel é desonestidade intelectual. E o Abel, conhecido pelo caráter rupestre da sua visão do futebol, chegou a surpreender ao tirar seu peixe Arão para entrada de Vitinho quando o time já começava a se lascar com um a menos. Não há quem não admire a coragem, mas naquele momento o que julgamos ser ousadia de Abel foi na verdade um erro primário. Ao apostar numa heroica vitória com um a menos em campo Abel entregou o Flamengo aos uruguaios como os aquemênidas entregaram Daniel aos leões. Vacilo típico de quem achava que ia ficar feio não ganhar do Peñarol em casa. Vanitas vanitatum et omnia vanitas*.

Para aumentar a dor e a raiva fomos castigados com mais um gol no final, assinatura distintiva de times  psicologicamente débeis. Tomar esse gol no finalzinho já se tornou um hábito desse time, mas na coletiva o Abel disse, entre outras groselhas jamais contestadas pela passapanagem esportiva, que o psicólogo não fazia falta à Comissão Técnica. Uma declaração que não disfarça uma auto suficiência injustificada e um desprezo pelo conhecimento teórico tão afinada com o discurso propagado atualmente pelo establishment-jumento que chega a dar medo. Nem vou falar do exílio de De Arrascaeta (um preso político) pra não arruinar com o resto da quinta-feira de vocês.

Perdemos outra, mas a vida continua. É preciso ter  alguma esperança. A minha é ver o Flamengo jogar três rodadas da Libertadores e não ficar puto. Uma experiência pela qual pretendo passar ainda nessa encarnação.

Por: Arthur Muhlenberg / República Paz e Amor

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