domingo, setembro 27, 2020
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A autodestruição do Carioca.

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

ESPORTE
FINAL
: Pergunte a um torcedor de um clube carioca sobre uma memória que lhe
arranque um sorriso em segundos. Logo surgirá um tricolor narrando a epopeia da
barriga de Renato, o Gaúcho. Sorridente, o rubro-negro puxará de primeira a
falta de Petkovic aos 43 minutos do segundo tempo contra o Vasco. O vascaíno,
por sua vez, rebate com o cruzamento de letra de Léo Lima para o gol de (quem
mesmo?) Souza. O botafoguense, com um sorriso debochado, descreve a cavadinha
de Loco Abreu diante do Flamengo em um Maracanã lotado. Histórias de vida,
histórias de torcedor, histórias de um Estadual. Um campeonato que parece não
respeitar as próprias memórias e impede o surgimento de novas ao trilhar o
caminho da autodestruição.

É
inegável que a importância dos Estaduais no passado era maior. Bem maior. Nas
décadas de 70 e 80 talvez fosse mais importante conquistá-los do que levantar
um Brasileiro ou uma Libertadores. Mas o mundo, não só o da bola, mudou. As
distâncias encurtaram. Um rubro-negro provocar um corintiano em tempos de redes
sociais é quase o mesmo do que cutucar um vascaíno no passado. O Estadual deve
encolher no calendário e fazer dignamente a passagem para torneios que
amadureceram e, hoje, têm preferência entre os torcedores. O Estadual do Rio, o
Carioca, no entanto prefere o embate que o leva à autodestruição.
Até
2010, o Campeonato Carioca contava com grande badalação. Curiosamente, o último
ano do velho Maracanã. A fórmula estabelecida em 2004 era decantada não apenas
pelos torcedores do Rio. Todo o Brasil sabia: dois grupos, dois turnos, a Taça
Guanabara e a Taça Rio. Em caso de campeões distintos, ambos lotariam o
Maracanã nas partidas decisivas para definir o dono da faixa. Enquanto outros
Estaduais contavam com fórmula mais arrastada, no Rio de Janeiro dois clubes,
geralmente, já tinham levantado taças de turno e justicado a existência do
torneio.
A
disputa pelo poder político pavimentou o caminho da destruição. O número de
participantes inchou de 12 para 16. Antes concentrados em poucos times
pequenos, os jogadores com um mínimo de competitividade se espalharam. Viraram
brilharecos solitários em vez de um conjunto que incomodava como fizeram
Americano, Volta Redonda, Cabofriense, Resende. O Carioca caiu no óbvio dos
quatro grandes, a chance de surpresa diminuiu, o nível técnico também. O
interesse, naturalmente, minguou. A crise é de identidade. O caminho, do fim.
Acrescente
nessa receita do caos o embate entre clubes, destacamente Flamengo e
Fluminense, contra chefões do futebol local, como Eurico Miranda, presidente do
Vasco, e Rubens Lopes, presidente da Ferj. O trabalho não é pela recuperação de
uma competição que, atualmente, é extremamente deficitária. As partidas dão
prejuízo e contribuem para arranhar a imagem dos clubes, com distorções como o
caso de o Flamengo, dono da maior torcida nacional, jogar para 300 pessoas numa
noite em Volta Redonda ou Jefferson, goleiro do Botafogo, utilizar um
esparadrapo no lugar de número na camisa. Em 2016, a fórmula composta por três
confusas fases e jogos sem grande interesse, contribuiu para levar o Estadual
do Rio a um ponto emblemático. Sem acerto entre as partes, clássicos pelo
Campeonato Carioca, como o charmoso Fla-Flu, são levados para São Paulo ou
Brasília. Irreal. E enche de argumentos quem questiona a existência da
competição.
Extinguir
o Carioca seria pouco inteligente. Não se pode jogar fora o passado. As
memórias estão vivas e há espaço para novas. É justamente em um Estadual que a
democratização da vitória atinge os torcedores. O cultivo da hábito da
arquibancada pode ser ali encorajado. Seja no Maracanã, na Rua Bariri ou em
Conselheiro Galvão, o torcedor do grande clube que tem até grandes dificuldades
em nível nacional pode ali comemorar vitórias, uma volta olímpica, uma taça.
Vale pouco? Não, vale muito. Como dizer a um moleque de dez anos que foi a
vários jogos do time e comemorou o título que aquilo não vale nada? Claro que
vale. Mas com disputa de poder, jogos deficitários, clubes pequenos a pão e
água, fórmula longa e desgastante, o interesse pode se dissipar. É o que ocorre
com o Carioca. Ainda há espaço, mesmo que em dois meses de disputa no modelo de
Copa das Confederações, com dois grupos, semifinal e final. Maracanã cheio. Um
esquenta para o restante da temporada.
Clubes
e, principalmente, Federação deveriam levantar a bandeira branca e pedir um
tempo. Sentar em uma mesa e repensar. Fórmula, estrutura, divisão de cotas,
legitimidade, atrativos para o torcedor. Ainda há tempo de impedir a
autodestruição. E permitir que Gol de Barriga, Cavada do Loco Abreu, Letra do
Léo Lima, Gol do Pet tenham sequências dignas de arrancar um sorriso em
segundos do torcedor.
Pedro
Henrique Torre

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