terça-feira, setembro 29, 2020
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A camuflagem que define os comandantes.

ESPN
– A campanha de Cristóvão Borges no Flamengo não é boa. Há motivos para o
torcedor chiar. Ele tem 45% de aproveitamento no Brasileirão e não seria fácil
treinar a maior torcida do país nem mesmo se estivesse no topo da tabela. A
pressão na Gávea é enorme independentemente de quem ocupe a casamata.
Agora,
não há qualquer motivo para pensarmos que um treinador negro ficaria imune ao
racismo que ainda grassa no país, mesmo que muitas vezes velado. A própria
coluna de Renato Maurício Prado que reacendeu a discussão utiliza termos, no
mínimo, controversos, não apenas para se referir a Cristóvão como para falar de
seu “amigo” Bagá. Se num dos principais jornais do país este tipo de
texto tem trânsito, fica difícil imaginar que não aconteçam situações bem mais
ultrajantes cotidianamente no trabalho de um treinador.
Mas
quando falamos da discriminação que atinge técnicos negros é importante pensar
não no racismo explícito do insulto, mas em algo bem mais silencioso – ou
camuflado para ficarmos na expressão utilizada por Cristóvão em entrevista à
ESPN. Uma discriminação referente, por exemplo, à ocupação de postos de comando
numa sociedade forjada por quatro séculos de relações de trabalho com brancos
como chefes e negros ocupando as posições mais baixas na hierarquia de qualquer
instituição.
Uma
sociedade que se pretende harmônica na questão racial, e que, na verdade, tem
apenas uma suposta harmonia que poderia ser resumida pela frase do folclorista
sergipano Silvio Romero, que assinalou que “temos a África em nossas
cozinhas, como a América em nossas selvas, e a Europa em nossos salões”.
Ou seja, tudo muito bem, desde que cada um ocupe um lugar pré-determinado.
No
esporte não é diferente, embora as aparências mostrem o contrário. Os negros
brilham, têm o protagonismo, mas é raríssimo que ocupem cargo de chefia, seja
como treinadores ou como dirigentes.
Não
creio que esta discriminação seja deliberada, na maioria dos casos. Não consigo
imaginar a direção de um clube reunida e descartando a contratação do treinador
X por ser negro. Acredito que seja algo bem mais subjetivo. Um desconforto que
faz o jornalista e o torcedor cobrarem mais do treinador negro e que faz
dirigentes descartarem técnicos afrodescendentes, alegando outros motivos para
confartarem as próprias consciências: “não tem o perfil de
liderança”, “é muito tranquilo”, “tem pouca
experiência”, ou coisa parecida. Um racismo que subjaz nossos atos e
pensamentos sem que nós muitas vezes percebamos. É um estranhamento em ver
negros em posições de liderança, que vem desde a herança escravista e só pode
ser combatido com a devida inclusão.
Não
vejo outra razão que não este racismo, por exemplo, para o ocaso de Andrade.
Campeão brasileiro em 2009, três anos depois ele já estava no pequeno Boavista
e seu último trabalho, em 2015, foi no Jacobina, da Bahia, clube do qual foi
demitido em cinco rodadas. Andrade é um treinador perfeito? Evidentemente que
não. Mas ele teve todas as credenciais necessárias para entrar no circuito de
técnicos de primeiro escalão do futebol brasileiro.
Treinadores
brancos que tiveram arrancadas bem menos promissoras que a de Andrade depois
ficaram anos treinando diversos clubes grandes. Basta uma temporada razoável e
já ingressam no entra-e-sai constante de técnicos. Poderíamos pinçar aí Vagner
Mancini, Dorival Júnior e Enderson Moreira para ficarmos em apenas alguns
exemplos.
Mas
chamam ainda mais atenção do que exemplos como os de Andrade aquelas histórias
que nem existem. O que mais chama atenção é o nada, é a ausência de negros no
mercado de técnicos de alto nível. É uma conta que não fecha. Se temos tantos
ex-jogadores como técnicos e tantos ex-jogadores negros, como podem ser tão
poucos os técnicos negros?
Cristóvão
a muito custo conseguiu furar esse bloqueio. Mesmo depois do belíssimo trabalho
no Vasco, em 2011 e 2012, nunca assumiu um clube em início de temporada, sendo sempre
contratado com a carruagem andando. Mas com bom trabalho no Bahia e altos e
baixos no Fluminense conseguiu seu lugar – assim como Roger vem conquistando
seu espaço no Grêmio. E o futebol, como toda a sociedade, vai evoluindo em
direção à igualdade racial. Talvez num ritmo lento demais.
Felipe
Nascimento Prestes

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