quarta-feira, setembro 23, 2020
Início Notícias A prisão que salvou a vida de Bruno, ex-Flamengo.

A prisão que salvou a vida de Bruno, ex-Flamengo.

Foto: Divulgação

COSME
RIMOLI
: Bruno Fernandes das Dores de Souza é um dos 622.202 presidiários, de
acordo com o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias. A quarta
maior população de presos no mundo, só atrás dos Estados Unidos, China e
Rússia. Faltam mais 250 mil vagas no sistema penitenciária brasileiro.

A
ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, fez ontem uma
visita surpresa a três penitenciárias do Rio Grande do Norte. Saiu chocada.
Encontrou um quadro de horror. Celas muito piores do que jaulas.
Superpopulação, péssimas condições de higiene, latrinas cheias, presos doentes
sem atendimento médico ou odontológico, esperando julgamento, comida
lastimável. Pessoas dormindo no chão.
Enquanto
isso, em Porto Alegre, também ontem, a imprensa descobriu que suspeitos estão
trancados em viaturas policiais. Não há vagas em delegacias ou penitenciárias.
Estavam confinados como animais em quatro camburões. Estavam nesta situação há
dois dias.
O
sistema prisional do Brasil é medieval. Cadeias lembram navios negreiros,
masmorras. Estudos apontam que pelo menos 15% da população carcerária está
contaminada pelo vírus HIV. Transmitido por relações sexuais, muitas vezes
estupros, e também pelo uso de drogas injetáveis. Tuberculosos também são
comuns.
O
Complexo do Curado no Recife é um indigno exemplo. Embora tenha capacidade para
1.800 presos, abriga mais de sete mil. Condenados chegam a pagar para ficar em
celas com menos gente. Pagam para quem? Para chefes das facções, que dominam a
esmagadora maioria dos presídios deste país.
O
Brasil é constantemente citado como país que infringe os direitos humanos em
suas penitenciárias. E a situação só piora a cada ano. O descaso governamental
é inacreditável. Como no caso de uma menor, L.A.B. ter ficado 26 dias em uma
cela com 30 homens no Pará. Foi estuprada e torturada todos os dias. A Comissão
Nacional de Justiça levou quase dez anos para punir a juíza Clarice Maria de
Andrade que autorizou a ida da menor para a cadeia masculina. A punição: ficará
afastada por dois anos, mas recebendo integralmente seus salários.
Mesmo
nestas condições subumanas cada preso no país custa ao estado, em média, quatro
salários mínimos. Cerca de R$ 3.520,00 por mês. E cerca de 82% não se
recuperam. Voltam a cometer crimes.
Bruno
conseguiu, depois cinco anos de bom comportamento, escapar desse cenário
desolador. E foi designado para um outro tipo de prisão. Condenado a 22 anos e
três meses pela morte de Eliza Samúdio, em 2010, ele deixou as penitências
‘normais do país’ e foi cumprir pena na APAC de Santa Luzia, região
metropolitana de Belo Horizonte.
Bruno
já confessou em entrevistas que as penitenciárias pelas quais passou, Nelson
Hungria e Francisco Sá, o desesperaram. A ponto de tentar suicídio, ser
agredido, tomar facada. Mergulhou em profunda depressão. Mudou seu
comportamento profundamente no prisão modelo, ao se adequar aos métodos da
Associação de Proteção e Assistência aos Condenados.
Nas
entrevistas que Bruno deu desde que está preso, falou de sua vida, de Elisa, do
livro que está escrevendo para dar a ‘sua versão’ da morte da mulher com quem
teve o filho Bruno. Mas nunca se aprofunda no método que o fez abandonar a
depressão e acreditar que estará recuperado para a sociedade.
De uma
maneira geral, o Brasil também não. Mas não foi o caso do Papa Francisco. Na
homilia Angelus (pregação) do dia 11 de setembro, que fez na praça São Pedro,
no Vaticano, ele escolheu o tema “Ninguém é irrecuperável. Deus nos
regenera”.
“Ninguém
é irrecuperável” foi um dos livros que o Papa Francisco havia acabado de
receber. Ele foi escrito por Mario Ottoboni, responsável pela criação do método
APAC que está recuperando Bruno. O sistema prisional desenvolvido pelo
brasileiro Ottoboni e aplicado em prisões modelos precisa ser conhecido.
Infelizmente,
só existem algumas espalhadas no país. O método já foi exportado para a
Alemanha, Argentina, Bolívia, Bulgária, Chile, Cingapura, Costa Rica, El
Salvador, Equador, Eslováquia, Estados Unidos, Inglaterra, País de Gales,
México, Moldávia, Nova Zelândia e Noruega. O sistema foi reconhecido pelo
Prison Fellowship International.
O
método socializador da APAC espalhou-se por todo o território nacional
(aproximadamente 100 unidades em todo o Brasil) e no exterior. Já foram
implantadas APACs na Alemanha, Argentina, Bolívia, Bulgária, Chile, Cingapura,
Costa Rica, El Salvador, Equador, Eslováquia, Estados Unidos, Inglaterra e País
de Gales, Latvia, México, Moldovia, Nova Zelândia e Noruega. O modelo Apaqueano
foi reconhecido pelo Prison Fellowship International (PFI), organização
não-governamental que atua como órgão consultivo da Organização das Nações
Unidas (ONU) em assuntos penitenciários, como uma alternativa para humanizar a
execução penal e o tratamento penitenciário.
Cada
preso custa cerca de um salário mínimo e meio por mês neste método e o índice
de reincidência ao crime é de 8,62%. Charles Colson, que foi assessor jurídico
de Richard Nixon, e um dos incentivadores do Prison Fellowship International
chegou a cogitar o nome de Ottoboni para o Prêmio Nobel de Paz.
Ottoboni
nasceu em Barra Bonita, mora em São José dos Campos. Advogado, estudou ciências
sociais e políticas. Desenvolveu seu método de reintegração dos presos. Contou
com o apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Com o auxílio de dom
Paulo Evaristo Arns, dom Ivo Lorscheiter e dom Luciano Mendes de Almeida enfrentou
a Ditadura Militar para a implantação do seu método.
Ele
teve o seu grande amigo e parceiro na luta pelos direitos humanos, Franz de
Castro Holzwarth, metralhado em uma rebelião na cadeia pública de Jacareí.
Franz havia se oferecido para mediar o motim. Ficou como refém no lugar de um
dos guardas. Mario estava ao seu lado tentando resolver a rebelião.
Por
coincidência, Mario tem ligação com futebol. Foi presidente do São José Esporte
Clube. Descobriu vários atletas como Leão, Lance e Teodoro. Conhece os dois
mundos, o dos presos e o dos jogadores.
Aos 85
anos, mostra detalhes que fazem entender um pouco mais do país que vivemos.
Sua
entrevista foi verdadeira, corajosa.
Foi
muito além de Bruno, do futebol.
O
Brasil tem a obrigação de conhecer Mario Ottoboni.
O senhor acredita na recuperação de Bruno?
Ele assumiu ser o mentor do assassinato de Eliza Samudio. É justo que volte ao
futebol? À sociedade?
Eu sou
uma pessoa bem direta. No sistema prisional comum do Brasil, acreditaria ser
quase impossível. Dizem que no Brasil não há prisão perpétua ou pena de morte.
Mas há basta cair em uma dessas penitenciárias grandes, montadas para dar
lucro, que não há volta. Eu frequento cadeias desde 1972, ao contrário de
secretários da Justiça, governadores, ministros que nunca colocaram o pé em uma
cadeia. Quando vão, chegam cercado de jornalistas. Eu conheço o dia a dia.
Infelizmente entendo quando o Bruno disse que tentou suicídio. As presidiárias
do Brasil são masmorras nojentas. Não são escolas de crime. São faculdades. A
pessoa sai da cadeia revoltada, disposta a devolver ao sistema o que recebeu.
Se o país o fez passar por todo tipo de humilhação possível, devolverá na mesma
moeda. Até pior.
Bruno revelou que viveu no inferno nos
cinco anos que viveu em duas grandes penitenciárias. Por que existe esse
inferno? Quem se beneficia dele?
Olha,
esse inferno não é por acaso. Para os governantes, esses presos são um peso.
São agrupados e jogados aos milhares nestas masmorras esquecidas pelo mundo.
Superlotadas, sem higiene, sem camas suficientes, com epidemias de doenças.
Comida nojenta. Com pouquíssimos e funcionários mal remunerados. Lógico que há
quem se beneficie. O custo de cada preso nestas cadeias é absurdamente caro. Se
o dinheiro que o Estado gasta realmente chegasse ao preso, ele teria uma vida
de luxo. O que se paga aos fornecedores de comida, uniforme é absurdo. Sem
controle. Muita gente importante, que se beneficia do que acontece no sistema
carcerário brasileiro, não quer que mude. Ele movimenta muito dinheiro. É uma
vergonha!
Esse caos não favorece às facções
criminosas?
Lógico
que sim. O PCC que nasceu em São Paulo e o Comando Vermelho, que nasceu no Rio,
comandam as prisões do Brasil. Essas facções cumprem o papel do Estado. Elas
são organizadas. O sujeito quando é preso fica abandonado à própria sorte pelo
governo. Fica parado, de perna para o ar. Sem ter o que fazer, enjaulado,
abusado, humilhado. E aí, as facções oferecem proteção, dinheiro, droga,
mordomias na cadeia. Proteção à família que está fora. O sujeito aceita. Só que
vai ter de pagar por tudo isso. Vira um operário do crime organizado. Sai muito
pior do que entrou. Aprende tudo o que é ruim. E ainda completamente
comprometido com as facções. O governo finge que não sabe. Ou melhor, não quer
nem saber. As consequências recaem sobre a sociedade. O Brasil se torna a cada
dia um pais mais violento e nas mãos das facções. O sistema penitenciário tem
enorme responsabilidade sobre isso.
Diante de tudo isso que o senhor
desenvolveu as APACs?
Sim.
Em 1972, cheguei à conclusão que as prisões brasileiras não recuperavam
ninguém. E o ser humano é recuperável. Só que o detento precisa ser tratado de
maneira humana. Humana, mas firme. O primeiro passo é respeitar a vida. Buscar
uma religião, seja qual for. Considero a religião fundamental para a pessoa
respeitar e cuidar do semelhante, como gostaria de ser cuidado, ser respeitado.
Perceber que nossa vida é muito preciosa. Desenvolvi o método que os presos são
obrigados a trabalhar, a estudar, a se formar em uma profissão, os próprios
detentos são responsáveis pela segurança, plantam a comida que comem. Cada um
tem sua cama decente. Banho quente. As nossas cadeias respeitam a sua
capacidade. O método é eficiente. Há disciplina, hora para tudo. E muito respeito
pelo ser humano. O nosso grau de recuperação dos detentos é de quase 92%.
Qual o maior erro no sistema carcerário no
Brasil?
As
penitenciárias com milhares de pessoas. É impossível recuperar tanta gente
junta. O melhor seria pequenas cadeias, onde todo o trabalho de recuperação
poderia ser verdadeiramente feito. Não dá votos construir cadeias. Cidade
alguma quer. Porque não são só os presos. Há as pessoas que eles atraem. Do
jeito que as coisas estão, quando uma nova cadeia enorme é construída, chegam
inúmeros membros da família do detentos. E, lógico, membros da facção. O crime
no Brasil está muito organizado. E os governantes seguem de braços cruzados.
O Bruno estar em uma APAC é benéfico para
a ONG?
Sem
dúvida. Se não fosse por ele, você não estaria aqui me entrevistando. Mas é
muito melhor para ele. Há a real chance de sua recuperação como ser humano. E
eu tendo essa oportunidade de mostrar a importância do método. Eu já viajei o
mundo todo. Ganhei vários prêmios. Mas não me interessam premiações. Eu tenho
orgulho em ver que há recuperação para os presos. O Bruno mesmo, que foi um
jogador consagrado. Goleiro importante do Flamengo. Eu fui presidente do São
Jose e lancei o Leão, Teodoro, Lance, Ferretti e outros. Sei como jogador de
futebol se comporta. O mundo que o cerca. O Bruno tem o perfil típico de
jogador de futebol. Abandonado pelos pais, pobre, sem educação. Cometeu um
crime gravíssimo. Mas está pagando por ele. E está tendo a real oportunidade de
se recuperar para a sociedade. Graças a Deus as notícias que tenho dele são as
melhores possíveis. Está trabalhando (limpa a capela e é soldador). Cumprindo
suas obrigações. E até treinando futebol nas atividades esportivas obrigatórias
do presídio. Por enquanto está um recuperando exemplar.
O senhor desenvolveu um método onde os
próprios presos plantam e fazem sua comida. Eles mesmo são responsáveis pela
segurança. Lavam suas roupas. Enfim, custam muito menos ao estado. Por que este
método não é espalhado pelo país?
Olha,
sou bem sincero. Você acha que não tem gente poderosa perdendo dinheiro com os
presos fazendo quase tudo sozinhos? E mais, no nosso método, nenhum preso fica
sem assistência jurídica. Milhares de presos estão esperando julgamento por
anos. Fora os que já cumpriram suas penas e estão abandonados. Há quem se
beneficie disso. São soldados em potencial para o crime organizado. Em São
Paulo, o estado mais desenvolvido do país, chegamos a ter cerca de 30 APACs.
Sabe quantas existem hoje? Nenhuma. Mandaram fechar todas. E jogaram os presos
nestas penitenciárias gigantes, dominadas pelas facções, o que eu posso fazer,
eu faço. Mas este é o Brasil.
O senhor garante que o Bruno estará
recuperado?
Sinceramente,
melhor chance neste país ele não vai ter. E só está na APAC de Santa Luzia porque
teve cinco anos de bom comportamento. Se não tivesse, não iria para lá, não. Se
errar lá dentro, sai e não volta. Ele que aproveite a chance de trilhar um novo
caminho na sua vida. Continuo acreditando que ninguém é irrecuperável, não
tenho dúvida, nenhuma criança nasce com armas, ela opta pelo crime graças a uma
sociedade egoísta e desumana.

MAIS LIDOS

Del Valle leva goleada e flamenguistas tiram onda; veja

A noite de libertadores da América foi com muitas emoções. No Grupo do Flamengo, o Rubro-negro conseguiu fazer um bom primeiro tempo contra o...

Pedro titular: Torcedores pedem mudança no ataque do Fla

O Flamengo jogou nesta terça-feira diante do Barcelona de Guayaquil, vencendo o jogo por 2 a 1. O confronto mostrou mais uma vez a...

Torrent desabafa após vitória do Flamengo

O Flamengo atuou na noite desta terça-feira diante do Barcelona de Guayaquil, em jogo válido pela quarta rodada da fase de grupos da Libertadores...

Jogadores comemoram vitória do Flamengo nas redes sociais

O Flamengo venceu o Barcelona de Gayaquil, na noite desta terça-feira, em jogo válido pela Libertadores da América. O Rubro-negro não fez uma das suas...