Aidar cita Eurico e afirma que Flamengo foi o campeão de 1987.

Foto: Reprodução

ESPN: Criado
há 30 anos para revolucionar o futebol brasileiro, o Clube dos 13 não conseguiu
chegar vivo em 2017. Após romper com a CBF e organizar de forma pioneira a Copa
União em 1987, a entidade mudou sua vocação ao longo do tempo e se transformou
em mera representante dos clubes na discussão de contratos. Sucumbiu em 2011,
quando um racha na negociação dos direitos de transmissão dos nacionais de 2012
a 2014 para a TV provocou uma debandada. Foi o fim do C13. Fim? Não é bem
assim.

Passados
seis anos desde a implosão, o Clube dos 13 continua existindo, com o CNPJ ativo
na Justiça, mesmo sem ter nenhum representante e sede. Foi o que constatou a
reportagem do ESPN.com.br.
O
motivo? Uma dívida milionária com a Franco Associados, empresa de Jaime Franco,
ex-diretor de marketing do C13. O montante inicial era de R$ 20 milhões, e
hoje, com correções, já passa de R$ 40 milhões.
Franco
chegou ao Clube dos 13 na era Fábio Koff, presidente da entidade de 1996 até o
seu fim. O executivo foi responsável pelos contratos milionários de transmissão
dos jogos do Campeonato Brasileiro, o que permitia à empresa uma comissão como
pagamento. Ele deixou o C13 alguns anos antes de o órgão implodir, mas a
empresa dele não recebeu todos as remunerações devidas. Então, Franco recorreu
à Justiça e ganhou.
“Ao
invés de trabalhar com [comissão de] 20%, 15%, fizemos um contrato em que minha
empresa recebia 0,5% sobre contratos de televisão fechados por mim. Fazia mais
do marketing. Eu era quase um diretor executivo. Tínhamos uma série de
contratos vigentes e achamos que tínhamos direito sobre esses contratos feitos
e fechados por nós. Recorremos à Justiça e ela deu ganho de causa para
nós”, explicou o executivo.
De
acordo com Franco, uma dificuldade para executar a cobrança é que o Clube dos
13 não tem mais representantes legais nem patrimônio. O mesmo foi explicado
pelo advogado do executivo, Mário Masagao Filho.
“Tiramos
uma certidão em Porto Alegre, onde é a sede do Clube dos 13, comprovando que
ele ainda existe como Pessoa Jurídica. O problema é que não houve por parte do
C13 a formalização da última administração após a realização da eleição [em
2010]. Assim não podemos citar Fábio Koff para que ele se apresente e preste
contas”, explicou Masagao Filho, por telefone.
A
reportagem tentou falar com Koff na última semana. Fez ligações e enviou um
e-mail para uma pessoa próxima ao ex-mandatário. Ele preferiu não se
pronunciar.
“A
Justiça já decidiu. E eu estou aguardando o pagamento. O Clube dos 13 não tem
patrimônio e, se realmente isso for provado, me parece que a responsabilidade
será partilhada com os clubes que eram membros”, disse Franco.
“Nos
autos o Fábio Koff conseguiu não ser citado como representante, embora tenha
sido o último presidente. Caso o Clube dos 13 não tenha como pagar a dívida nem
tenha bens para serem penhorados, vamos cobrar a dívida dos clubes que eram
membros da entidade. Essa é a etapa atual do caso”, confirmou o advogado.
Franco,
que entrou com a ação antes de 2011, crê que receberá. Conselheiro do São
Paulo, atualmente ele é diretor de relações institucionais da Federação
Paulista.
Pontapé inicial
Trinta
anos depois, pode parecer irônico afirmar que a motivação dos cartolas para a
criação do Clube dos 13 foi a própria CBF. Afinal, guardada as proporções, a
entidade máxima do futebol no país tinha naquela época o mesmo desejo que a
atual diretoria tem em ver as agremiações no comando da modalidade: zero.
A
motivação surgiu a partir de uma entrevista dada pelo então presidente da CBF,
Octávio Pinto Guimarães, na qual ele afirmava para toda a mídia que a entidade
não tinha recursos para organizar o Campeonato Brasileiro de 1987.
“No
ano passado [1986], o campeonato custou 35 milhões de cruzeiros, dos quais 28
milhões de cruzeiros vieram da Loteria. Só que, de lá para cá, tivemos vários
aumento nos preços das passagens aéreas e nos hotéis”, justificou o então
presidente da CBF, segundo registro feito pelo caderno de Esporte da
“Folha de S.Paulo”.
Criado
há 30 anos para revolucionar o futebol brasileiro, o Clube dos 13 não conseguiu
chegar vivo em 2017. Após romper com a CBF e organizar de forma pioneira a Copa
União em 1987, a entidade mudou sua vocação ao longo do tempo e se transformou
em mera representante dos clubes na discussão de contratos. Sucumbiu em 2011,
quando um racha na negociação dos direitos de transmissão dos nacionais de 2012
a 2014 para a TV provocou uma debandada. Foi o fim do C13. Fim? Não é bem
assim.
Passados
seis anos desde a implosão, o Clube dos 13 continua existindo, com o CNPJ ativo
na Justiça, mesmo sem ter nenhum representante e sede. Foi o que constatou a
reportagem do ESPN.com.br.
O
motivo? Uma dívida milionária com a Franco Associados, empresa de Jaime Franco,
ex-diretor de marketing do C13. O montante inicial era de R$ 20 milhões, e
hoje, com correções, já passa de R$ 40 milhões.
Franco
chegou ao Clube dos 13 na era Fábio Koff, presidente da entidade de 1996 até o
seu fim. O executivo foi responsável pelos contratos milionários de transmissão
dos jogos do Campeonato Brasileiro, o que permitia à empresa uma comissão como
pagamento. Ele deixou o C13 alguns anos antes de o órgão implodir, mas a
empresa dele não recebeu todos as remunerações devidas. Então, Franco recorreu
à Justiça e ganhou.
“Ao
invés de trabalhar com [comissão de] 20%, 15%, fizemos um contrato em que minha
empresa recebia 0,5% sobre contratos de televisão fechados por mim. Fazia mais
do marketing. Eu era quase um diretor executivo. Tínhamos uma série de
contratos vigentes e achamos que tínhamos direito sobre esses contratos feitos
e fechados por nós. Recorremos à Justiça e ela deu ganho de causa para nós”,
explicou o executivo.
De
acordo com Franco, uma dificuldade para executar a cobrança é que o Clube dos
13 não tem mais representantes legais nem patrimônio. O mesmo foi explicado
pelo advogado do executivo, Mário Masagao Filho.
“Tiramos
uma certidão em Porto Alegre, onde é a sede do Clube dos 13, comprovando que
ele ainda existe como Pessoa Jurídica. O problema é que não houve por parte do
C13 a formalização da última administração após a realização da eleição [em
2010]. Assim não podemos citar Fábio Koff para que ele se apresente e preste
contas”, explicou Masagao Filho, por telefone.
A
reportagem tentou falar com Koff na última semana. Fez ligações e enviou um
e-mail para uma pessoa próxima ao ex-mandatário. Ele preferiu não se
pronunciar.
“A
Justiça já decidiu. E eu estou aguardando o pagamento. O Clube dos 13 não tem
patrimônio e, se realmente isso for provado, me parece que a responsabilidade
será partilhada com os clubes que eram membros”, disse Franco.
“Nos
autos o Fábio Koff conseguiu não ser citado como representante, embora tenha
sido o último presidente. Caso o Clube dos 13 não tenha como pagar a dívida nem
tenha bens para serem penhorados, vamos cobrar a dívida dos clubes que eram
membros da entidade. Essa é a etapa atual do caso”, confirmou o advogado.
Franco,
que entrou com a ação antes de 2011, crê que receberá. Conselheiro do São
Paulo, atualmente ele é diretor de relações institucionais da Federação
Paulista.
Crise,
revolução e deslealdade: conheça a história da polêmica Copa União de 1987
    Pontapé inicial
Trinta
anos depois, pode parecer irônico afirmar que a motivação dos cartolas para a
criação do Clube dos 13 foi a própria CBF. Afinal, guardada as proporções, a
entidade máxima do futebol no país tinha naquela época o mesmo desejo que a
atual diretoria tem em ver as agremiações no comando da modalidade: zero.
A
motivação surgiu a partir de uma entrevista dada pelo então presidente da CBF,
Octávio Pinto Guimarães, na qual ele afirmava para toda a mídia que a entidade
não tinha recursos para organizar o Campeonato Brasileiro de 1987.
“No
ano passado [1986], o campeonato custou 35 milhões de cruzeiros, dos quais 28
milhões de cruzeiros vieram da Loteria. Só que, de lá para cá, tivemos vários
aumento nos preços das passagens aéreas e nos hotéis”, justificou o então
presidente da CBF, segundo registro feito pelo caderno de Esporte da
“Folha de S.Paulo”.
Os
presidentes do Flamengo, Márcio Braga, e do São Paulo, Carlos Miguel Aidar,
viram na declaração um sinal de fraqueza e a possibilidade de uma mudança.
“Nós
já vínhamos discutindo a situação do futebol brasileiro. Discutíamos que era
preciso retomar as rédeas. Quando a CBF anunciou que não teria condições de
organizar o campeonato, eu liguei para o Carlos Miguel e disse: ‘Está na hora
de agirmos. Está na hora da revolução. O poder está na rua’. Ele conversou com
os clubes de São Paulo. Eu falei com os do Rio. Convocamos mais os mineiros e
os gaúchos”, relatou Márcio Braga.
A
versão de Aidar sobre o pontapé inicial do Clube dos 13 tem algumas diferenças.
“Recordo
que estava no aeroporto indo para Brasília, onde haveria uma reunião com uma
entidade que reunia os presidentes dos clubes de futebol profissional. Era um
órgão antigo, com 78 ou 88 equipes, e as reuniões eram altamente improdutivas.
Não havia foco. No embarque, ouvi a entrevista do Octávio Pinto de Guimarães na
Jovem Pan. Foi ali que meu deu a ideia de fazer os clubes tomaram a
dianteira”, disse.
“Tinham
duas cabeças muito boas naquela época. O Márcio Braga e o Paulo Odone, que
presidia o Grêmio. Cheguei em Brasília e procurei os dois. Me reuni com eles e
chamei os outros presidentes. Falei: ‘O que acham de sairmos dessa entidade e
fundarmos uma nossa? Somos clubes grandes. Temos as maiores torcidas. Temos os
títulos, disputamos os títulos e não podemos ficar numa associação de forma
figurativa'”, recordou Aidar.
A fundação do Clube dos 13
A
partir daquele primeiro encontro muita coisa avançou em pouco tempo. De volta a
São Paulo, Aidar recordou que redigiu um estatuto para a nova associação em
alguns dias. Depois, convocou todos para uma reunião no Morumbi.
Trinta
anos depois, o ex-presidente do São Paulo crê que o encontro foi em um sábado 4
de julho, mesma data da Independência dos Estados Unidos, mas a imprensa
paulista registrou que a fundação ocorreu em um sábado 11 de julho.
Reuniram-se
representantes de Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro,
Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e
Vasco.
“O
encontro iniciou às 10h, na antiga sala da presidência, no Morumbi. Eu estava
com o estatuto pronto. Já havia mandado para os demais por presidentes Todos
vieram. Todos gostaram da ideia, das bases que norteariam nossa associação. Mas
o Márcio Braga achou o nome escolhido por muito grande. De fato, era: ‘União
dos Grandes Clubes do Futebol Brasileiro’. Ele resolveu dar um apelido: ‘Clube
dos 13’. E assim ficou”, disse Aidar.
“Fui
eleito o primeiro presidente do Clube dos 13 porque os demais entendiam que eu
estava à frente, vendo as coisas. Eu era o mais jovem presidente entre eles
[tinha 40 anos]. E eu estava no pique. Eu queria ver aquilo pegar fogo. Queria
ver um futebol profissional produtivo. E não mais jogar só para
testemunhas”, completou.
Para
ajustar a nova entidade, foram escolhidos ainda Celso Grellet, vice de
marketing do São Paulo, e João Henrique Areias, que tinha o mesmo cargo no
Flamengo, para cuidarem do marketing do C13, buscarem patrocinadores e bolarem
a fórmula de disputa do campeonato, que naquele momento envolveria somente 13
clubes.
Bahia e mais três
A
entrada do Bahia não faz parte dos planos. As versões para isso têm algumas
diferenças.
Aidar
relatou que ela ocorreu após uma consulta ao então presidente do Conselho
Nacional de Desportos, Manoel Tubino, sobre a revolução que aconteceria.
“‘É uma ideia muito boa, mas seria bom ter algum clube do Nordeste’, ele
me disse. Não recordo o critério que fez escolhermos o Bahia. Podia ter sido o
Vitória”.

Grellet citou que a inclusão do Bahia foi sugestão de Braga.
“Ele
argumentava que era preciso ter um clube do Nordeste senão o torneio não iria
para frente. Assim foi feito. Por isso virou Clube dos 13. Eu torci um pouco o
nariz. O Márcio tinha uma visão mais política. Dizia que a praça da Bahia era
boa para o futebol. Eu tinha uma visão de business e achava que enfraquecia
nosso argumento”, disse.
O
Bahia entrou como um dos clubes fundadores. O que não ocorreu com Coritiba,
Goiás e Santa Cruz, trio que foi convidado poucos meses depois para integrar a
Copa União e assim deixar o torneio com 16 participantes. A vinda dos três foi
uma forma de “aprovar” a realização do torneio perante a CBF (leia
mais abaixo) e “aumentar o alcance”.
“Márcio
Braga defendeu essa ideia. Fui ao Rio e ele me disse: ‘Não dá para fazer um
torneio como você planejou, com 13 times. Até dá, mas vai ser muito complicado.
Temos de chamar para o primeiro torneio clubes de outras regiões do Brasil
senão não vamos conseguir segurar politicamente’. O Márcio tinha um faro
político. Estava pensando em como diminuir a chiadeira que havia. A grande
crítica que sofríamos é que era uma coisa elitista, que só ia beneficiar os
grandes do futebol brasileiro”, relembrou Grellet.
Coca-Cola, Varig e TV Globo
Não
bastava apenas reunir e criar uma associação de clubes para ter um campeonato.
Era preciso dinheiro. E a situação no país não era nada fácil em 1987. A
inflação chegava a bater 70% ou mais ao mês. Os preços dos produtos mudavam a
cada instante. E a economia não dava sinais de melhora. Viajar então era para
poucos, pois os valores das passagens aéreas subiam com muita facilidade e sem
qualquer previsão.
Vale
citar também que até 1987 os clubes recebiam uma ajuda de custo da CBF para
disputar o Campeonato Brasileiro. A entidade pagava as passagens aéreas e ainda
auxiliava nas hospedagens. Também vale citar que o número de equipes nos
torneios da entidade não seguia um padrão. Em 1979, por exemplo, foram 94
clubes.
Portanto,
o C13 sabia que precisava de dinheiro para fazer o campeonato.
“Lembro
que me perguntaram se eu conseguiria 
arrumar patrocínio para o campeonato. Eu disse: ‘Olha, se vocês
conseguirem colocar de pé os 12 grandes do Brasil – ainda não tinha o Bahia -,
um campeonato só com clássicos, tudo organizado, eu arrumo dinheiro
tranquilamente’. De fato, foi muito fácil”, recordou Grellet.
O
primeiro passo foi acertar com um patrocinador grande. Procuraram a Coca-Cola.
“Um
colega em São Paulo me disse que tinha um contato com o Celso Grellet e que
alguns clubes estavam querendo fazer um movimento para profissionalizar a
gestão do futebol. Aquilo não interessava a Coca-Cola. Mas me reuni com ele, o
Aidar e esse amigo. Eu achei a ideia muito louca, mas ao mesmo tempo muito
interessante”, relembrou o argentino Jorge Giganti, presidente da
Coca-Cola no Brasil.
“Na
época, a Coca-Cola patrocinava as seleções argentina e brasileira e a Copa do
Mundo. Não estava envolvida em torneios locais. Eles resumiram a ideia e
pediram muita grana. Eu disse que tudo dependeria de mídia. Eles me disseram
que a Coca-Cola teria de ajudar a conseguir a mídia porque sem patrocinador
forte nenhuma mídia iria se interessar. Bom, eu tinha um bom relacionamento com
a TV Globo. Ali foi  armado o triângulo
que chamo de projeto de marketing: 
evento, mídia que faça dele ter alcance massivo e uma empresa que possa
arcar com os custos”, prosseguiu.
Foi
assim que a Coca-Cola disse sim ao projeto dos C13 e, de quebra, trouxe a TV
Globo.
“Fizemos
uma reunião posterior e eu disse quais eram as minhas limitações orçamentárias.
Ao final, chegamos ao valor de patrocínio de 735 milhões de cruzeiros. Fizemos
até um cheque de papelão para ser exibido no dia de assinatura do contrato e
estava combinado que haveria entrada ao vivo na Globo”, disse Grellet.
O
aceite da Globo foi relativamente fácil apontam Grellet e Aidar. Mas o
ex-presidente do São Paulo recordou que houve uma crise de ciúmes com a TV
Bandeirantes.
“A
Globo e a Bandeirantes adoraram a ideia. Mas tínhamos de dar exclusividade para
alguém. Um tempo depois fui interpelado pelo João Saad e pelo Luciano do Valle
porque não fechamos com eles, que tinham maior tradição no esporte. Eu fugi da
resposta óbvia. Naquele momento a Bandeirantes estava devendo para todo
mundo”, disse Aidar.
Com a
transmissão garantida e o patrocinador também, faltava o transporte.
“Naquela
época de inflação, a gente conseguiu que a Varig estabelecesse um preço de
passagem e o fixasse durante todo o campeonato. Na época, chegamos ter inflação
de 70% ao mês. Fizemos um baita negócio. E para conseguir isso aconteceu algo
inédito. Diretor da Globo, o Armando Nogueira batalhou e conseguiu aprovar com
o Boni [diretor da Globo] uma vinheta para aparecer nas transmissões. A vinheta
era: ‘Os craques da Copa União viajam pela nossa Varig’. ‘Nossa Varig’ era a
expressão de publicidade da empresa. Para a Globo aceitar aquilo, sem receber
dinheiro, foi algo que nunca houve. Armando Nogueira foi muito importante para
tudo acontecer”, disse Grellet.
Assim,
a Varig forneceu passagens e  ajudou a
custear as hospedagens.
Estava
tudo pronto. Tudo?
Briga por Renatinho e Grenal quase
atrapalham
Foi
combinado que seria feita uma reunião com todos os dirigentes dos clubes para
assinar o contrato com a Coca-Cola. Ao final da reunião seria apresentado um
cheque no valor combinado (735 milhões de cruzeiros) e a Globo noticiaria o
acontecimento ao vivo, de preferência no Jornal Nacional. Mas as rivalidades
quase cancelaram tudo…
Primeiro
foi o presidente do Corinthians, Vicente Matheus, que se recusou a assinar o
contrato. O acordo era claro: se um não assinasse, tudo seria desfeito. O
argumento dele era um só: “Se é bom para o São Paulo, é ruim para o
Corinthians”.
“Cheguei
a me ajoelhar aos pés dele, implorando para ele assinar. Disse: ‘Vicente, eu
não tenho dinheiro para pagar a folha de pagamento. Preciso desse patrocínio.
Assina, pelo amor de Deus’. Ele recusou-se. Depois confessou que não queria
assinar porque o São Paulo não liberava o Renatinho…”, disse Márcio
Braga.
“Eu
achava o Matheus um grande filho da p… Ele queria o Renatinho, que era da
base do São Paulo. Eu e o Carlos Miguel não tínhamos ideia de quem era o
jogador. Quando soubemos que era aquilo, ligamos para o diretor de futebol e
autorizamos a liberação por empréstimo. Matheus faz essa chantagem. Estava
olhando o próprio umbigo. Era muito difícil. As cabeças são muito ruins no futebol
brasileiro”, disse Grellet.
Outro
problema foi relacionado ao Grêmio e (indiretamente) por causa do rival
Internacional. A equipe tricolor recusou-se a assinar o contrato porque as
cores da Coca-Cola eram branco e vermelha. Trinta anos depois, Jorge Giganti
recordou o diálogo com o presidente do clube gaúcho, Paulo Odone, e se
divertiu.
Odone: Jorge, tu sabe que
não posso botar logomarca vermelha na camisa. O estatuto do Grêmio proíbe essa
cor na camisa. Tu tem de mudar a logomarca da Coca!
Giganti: Como mudar? Eu
trabalho numa companhia que tem um padrão de logomarca. Por ser uma logomarca
muito conhecida no mundo, o rigor no uso dela é muito grande.
Odone: Então, fodeu, tchê!
Não gostaria de estar no seu lugar, mas você tem de fazer algo.
Giganti: Você vai pagar a
indenização da Coca-Cola? Porque vou ser demitido sumariamente.
Odone: Eu pago, eu pago!
“A
solução foi tomada na hora. Assinei um documento autorizando que o Grêmio
estampasse a logomarca em um fundo preto, mantendo Coca-Cola em letras brancas.
Entreguei o papel para ele. Ninguém na matriz soube daquilo até depois de
acontecer. Depois, o assunto chegou ao conhecimento da matriz por minha boca.
Levei a camisa do Grêmio autografada por todos os jogadores para o presidente
da Companhia. Ele disse que não sabia se chorava ou se me matava. Além da
camisa, levei toda a coleção de mídia em razão do acordo com o Clube dos 13.
Olhando hoje, fiz uma cagada, mas uma cagada que deu certo. E a Coca-Cola
aprovou”, completou Giganti.
Guerra com a CBF
De
imediato a CBF não aceitou a criação do Clube dos 13. Tinha o apoio de clubes
excluídos, como o Guarani, campeão brasileiro em 1978 e vice em 1986, e
América-RJ, quarto colocado no ano anterior, só para citar dois exemplos.
Houve
tentativas de impedir que o C13 fizesse um torneio. Uma delas foi declarar a
competição clandestina, mas não funcionou porque o Conselho Nacional de
Desportes aprovou a novidade. A outra foi tentar derrubar os patrocinadores.
“Para
ser vantajoso para a Coca-Cola, eu tive a ideia de colocar a logomarca dela no
círculo central do gramado. Me inspirei no que vi no estádio Azteca, no México.
Aí o João Havelange [presidente da Fifa], sogro do Ricardo Teixeira [que viria
a ser presidente da CBF], já contrário a esse movimento dos clubes, baixou uma
portaria na Fifa proibindo qualquer anúncio dentro do campo. Foi uma forma de
matar a gente. O grande apelo que vendi para a Coca-Cola foi aquele. O
pensamento foi: ‘Vamos quebrar eles. Eles não vão conseguir o patrocínio e
vamos quebrar eles'”, relembrou Grellet.
“Mas
não foi nada perdido porque foi neste momento que eu tive bastante ajuda do
Jorge Giganti e da Globo. Eles entenderam o movimento, a revolução. Trocamos a
propaganda no círculo central pelo anúncio na camisa dos clubes. Não só durante
o Campeonato Brasileiro, mas durante o ano inteiro. A Coca-Cola topou continuar
com os valores acordados por temporada, mantendo o contrato”, completou
Grellet.
Apenas
os clubes que já tinham patrocínio na camisa é que não estamparam a logomarca da
Coca-Cola. Foram os casos de Corinthians/Kalunga e FlamengoLubrax.
Mas a
CBF não iria desistir, asseguraram os entrevistados.
“Aí
o Armando Nogueira, da Globo, mandou um recado, não oficialmente, é claro, mas
um recado bem claro para o Nabi Abi Chedid, que era vice da CBF e na prática
era quem mandava. ‘Se não autorizar esse torneio, nós vamos fazer um Globo
Repórter contando a história da tua vida’. Aí ele foi obrigado a autorizar. Ele
tinha um rabo de palha tremendo. A CBF quando recebeu o recado ‘pipocou'”,
recordou Grellet.
“Se
não tivesse o poder político da Globo ajudando a gente, não sairia. A Globo
entendeu que os campeonatos eram muito mal feitos. Tinha a famosa frase: ‘Onde
a Arena [partido político] vai mal, mas um time no Nacional’. Chegou um ano em
que foram quase cem clubes no nacional. E a Globo era obrigada a fazer os
jogos. E ela ajudou a fazer o nosso campeonato. Embora pagando mais, mas ciente
de que seriam só clássicos para transmitir”, acrescentou Grellet.
A traição
Sem
poder barrar a Copa União, a CBF decidiu tentar se aliar aos clubes. Ainda mais
ao ver que eles tinham conseguido o mais difícil: dinheiro para bancar a
competição.
“A
CBF então elaborou uma segunda divisão com 15 clubes. Não teve esse nome. Foi
chamado de Módulo Amarelo. E ao final do torneio ela incluiu os cruzamentos com
o Módulo Verde, que era o nosso torneio”, relembrou Aidar.
“A
gente já tinha aceitado incluir Coritiba, Goiás e Santa Cruz na Copa União. Mas
não tinha cabimento aceitar o cruzamento com os clubes da segunda divisão. A
posição do Clube dos 13 foi recusar”, reforçou Grellet.
Mas
numa reunião no Rio de Janeiro a história mudou. Eurico Miranda, que era vice
do Vasco, foi nomeado para representar o C13 e discutir esse assunto.
“Ele
assinou a morte do Clube dos 13. Aceitou os cruzamentos do nosso torneio com a
segunda divisão. Ele traiu o movimento. Traiu no seguinte sentido: era um
movimento elitista mesmo. Temos uma elite no futebol brasileiro, como ocorre na
Inglaterra, na Alemanha, na França… Haveria no futuro acesso e descenso, mas
o início seria com essa elite do Brasil. Mas ele assinou..”, lamentou
Grellet.
“Nós
tínhamos engolido a CBF com o Clube dos 13, mas a grande traição do Eurico foi
um golpe na união. Nos anos seguintes, a entidade se enfraqueceria”, disse
Márcio Braga.
A
confusão deu ensejo para que o Sport fosse proclamado pela CBF – e hoje pela
Justiça – o autêntico campeão do Brasileiro de 1987. Isso porque o Flamengo,
vencedor da Copa União, e o Internacional, vice, não entraram em campo para
enfrentar Sport e Guarani, que tinham dividido o título do Módulo Amarelo após
uma confusa disputa por pênaltis.
“Sinceramente,
fosse quem fosse o vencedor da Copa União, não haveria o cruzamento. Após a
cagada do Eurico, nós nos reunimos e decidimos que o cruzamento seria
boicotado. E todos nós reconheceríamos o vencedor da Copa União como o campeão
brasileiro de 1987, ainda que essa posição tenha mudado ao longo dos
anos”, disse Aidar.
O
próprio Eurico Miranda mudou de posição. Ao final de 1987, ele admitia que o Flamengo
era o campeão autêntico. Nos últimos anos, defende que o Sport foi campeão e o
Guarani foi o vice – times que a CBF indicou para disputar a Copa Libertadores
de 1988, ignorando Flamengo e Internacional.
Quando a bola rolou…
Todos
os entrevistados são unânimes ao afirmar que a maioria dos dirigentes da época
não conseguia pensar coletivamente e isso ficou provado quando a bola rolou.
“O
primeiro jogo foi Palmeiras e Cruzeiro, no Pacaembu, em baixo de uma chuva, com
transmissão ao vivo, árbitro sorteado no meio da semana no Jornal Nacional.
Teve um lance polêmico. E o presidente do Cruzeiro criou um problema com o
presidente do Palmeiras. Começou a discutir um lance de pênalti. Aquilo mostrou
bem para mim que o dirigente brasileiro não tinha nenhuma preparação
profissional”, relatou Aidar.
Celso
Grellet lembrou outro caso.
“Havia
um sorteio na véspera das rodadas para decidir qual jogo seria televisionado ao
vivo. Assim não afugentaria tanto o público. Era um sorteio meio dirigido. Teve
uma rodada que jogavam Atlético-MG x Flamengo e Cruzeiro e mais alguém.  Carlos Miguel Aidar me ligou e falou: ‘Celso,
você que inventou esse troço se vira. O Benito Masci, do Cruzeiro, está me
ligando, me ameaçando. Ele estava irritado porque soube que a Globo ia
televisionar o jogo do Atlético. Ele me disse: ‘Estou avisando que vou sair
desse acordo, vou botar Pepsi-Cola na minha camisa e melar tudo'”,
recordou Grellet.
Fim do sonho
Os
rachas fizeram o ano terminar sem a mesma união vista em julho. Os
entrevistados apontaram que a CBF soube tirar proveito da situação, mudando o
cenário já em 1988.
“Foi
uma divisão organizada em conjunto por Clube dos 13 e CBF. Existe um ditado
árabe que diz que, se você não consegue derrubar seu adversário, é melhor se
aliar a ele. O C13 era um adversário para a CBF. Ela se aliou. Começou a
acariciar, se aproximar. E dominou”, disse Aidar.
Se a
edição de 1988 foi organizada em conjunto, os anos seguintes seriam ainda
piores. O Clube dos 13 passou a ser um mero intermediário nos contratos de
patrocínio e na discussão dos direitos de transmissão da TV. Voltariam a
organizar o Brasileiro em 2000, mas por razões totalmente diferentes. Uma ação
do Gama na Justiça comum impediu a CBF de iniciar o Nacional. Assim o C13 foi o
responsável pela Copa João Havelange.
“O
Clube dos 13 virou uma sucursal da TV Globo. Quando colocamos o Fábio Koff na
presidência da entidade, ele transformou aquilo numa federação, com a mesma
feição política, na forma de agir. Ali acabou tudo”, disse Márcio Braga.
A evolução do Clube dos 13
Inicialmente
seriam apenas 12 integrantes, mas que acabaram se transformando em 13 com o
convite ao Bahia. Essa quantidade permaneceu inalterada até 1997, quando Fábio
Koff viu a necessidade de aumentar o número de clubes para ter mais poder para
negociar com os contratos de transmissão dos campeonatos com a Rede Globo.
Assim,
em 9 de junho, no rio, Coritiba, Goiás e Sport foram convidados para integrar a
associação. Foram escolhidos clubes das mesmas cidades contempladas em 1987,
com uma diferença. Na Copa União o escolhido foi o Santa Cruz e não o Sport. A
entrada do time rubro-negro foi mediante a um acordo em que a equipe teria de
reconhecer o Flamengo como campeão brasileiro de 1987, deixando de lado as
rusgas e a polêmico. Isso foi aceito e registrado em ata.
Em
1999, o Clube dos 13 teve outro acréscimo de equipes. Entraram Atlético-PR,
Guarani, Portuguesa e Vitória, totalizando assim 20 equipes. O interesse era
claro: aumentar o poderio na hora de discutir os contratos.
A
mudança representou mesmo um salto nas negociações. O contrato que venceu ao
final de 1996 estabelecia R$ 12 milhões ao ano aos Clube dos 13 pela
transmissão de jogos do Brasileiro. Em 1997, os clubes chegaram a um novo
acordo, dessa vez R$ 50 milhões por ano pela três edições seguintes, até 1999.
E os valores só aumentariam…
A fatia do bolo
Foi
justamente a disputa pela maior fatia do bolo que colocou um ponto final no
C13. Já havia um desgaste até que em 23 de fevereiro de 2011 a entidade
implodiu.
Primeiro
os quatro grandes do Rio de Janeiro anunciaram que estavam optando por negociar
sozinhos os direitos de transmissão por não concordar com a filosofia do C13. No
mesmo dia, o Corinthians abandonou a entidade. Depois foi seguido por Santos,
Cruzeiro, Palmeiras, Grêmio… Não havia mais como sustentar o órgão com os que
permaneceram, casos de São Paulo , Atlético-MG, Atlético-PR, Internacional…
Não
deve se esquecer que a política teve um fato decisivo também. O Flamengo já
ameaçava deixar a entidade a partir do momento em que o São Paulo passou a
reconhecer o Sport e não mais o clube carioca como legítimo campeão de 1987.
O
motivo era a disputada da Taça das Bolinhas (troféu oferecido pela Caixa
Econômica ao primeiro clube que fosse tricampeão brasileiro de forma
consecutiva ou cinco vezes alternada). Os dirigentes tricolores queriam a taça.
O
apoio de clubes como Corinthians e Flamengo ao candidato Kleber Leite, que
estava próximo a CBF, enquanto outros estavam ao lado de Fábio Koff, como São
Paulo e Atlético-MG, que acabou vencendo o pleito em 2010, foi o golpe final
para fazer o C13 implodir de vez e sumir do mapa do futebol brasileiro.

Por: FlaHoje

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