quarta-feira, setembro 23, 2020
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Apesar de rentável e utilizado, Maracanã acumula prejuízos.

Foto: Buda Mendes / Getty Images

EPOCA
EC
: Questionado por repórteres em 3 de setembro de 2013 sobre a possibilidade
de o estado do Rio de Janeiro voltar a administrar o Maracanã, Sérgio Cabral
(PMDB), então governador fluminense, cravou. “Isso é um equívoco absoluto que
se cometeu no passado, é um erro grave de concepção de gestão, não tem
cabimento isso”. Não tem mesmo. O estádio gera prejuízos desde a reabertura. Só
em 2015 foram perdidos R$ 22,5 milhões. Concedido para a Odebrecht por 35 anos,
o prejuízo é um problema da construtora. Se voltasse a ser público, seria
bancado com dinheiro de impostos. O problema é que, apesar da certeza de Cabral
de que a hipótese é negativa, esse é o risco que o Rio corre por opção do
próprio ex-governador.

Quando
o Rio assinou o contrato do Maracanã com a Odebrecht, concedeu à construtora
não só a operação do estádio, mas do entorno. O parque aquático Julio de Lamare
e o estádio de atletismo Célio de Barros seriam demolidos e tornados em
empreendimentos imobiliários mais rentáveis. Os planos mudaram quando,
assustado com as manifestações populares de junho de 2013, Cabral voltou atrás
e proibiu a Odebrecht de tocar as demolições. A empreiteira alegou
desequilíbrio do contrato de concessão, e o governo admitiu ter errado. A
renegociação dos termos se arrasta até hoje. O governo do sucessor Luiz
Fernando Pezão (PMDB), que esteve ao lado de Cabral como vice-governador
durante toda a reforma e a concessão do estádio, tem de desatar vários nós para
evitar que o legado deficitário da Copa do Mundo seja bancado com dinheiro
público.
A
Odebrecht não assume publicamente, mas quer vender a concessão do Maracanã para
outra empresa. A brasileira BWA e a francesa Lagardére, que juntas operam o
Castelão (Fortaleza) e o Independência (Belo Horizonte), estão no páreo. O
Flamengo, mais estável financeiramente do que há quatro anos, decidiu que quer
ele mesmo assumir a administração e já anunciou que não jogará no estádio se
não participar da gestão. Isso gera uma série de nós. Um deles é político,
porque o Flamengo não se dá com a federação de futebol do Rio, a FFERJ,
possível aliada da BWA e da Lagardére. Outro é jurídico. A concessão de Cabral
proibia, desde o edital, a participação de clubes da administração. Não sem porquê:
os times raramente são geridos de modo responsável. Além disso, o contrato do
Fluminense com a Odebrecht ainda está vigente e precisa ser equacionado. O
futuro do Maracanã virou um jogo de xadrez.
O
Maracanã ainda precisa provar sua viabilidade econômica. O estádio teve a maior
receita entre novas arenas brasileiras em 2015, R$ 60,6 milhões, e teve a maior
atividade, 66 jogos de futebol. O fato de estar numa cidade com quatro clubes
que disputam regularmente a primeira divisão ajuda a arrecadar mais do que
outras praças. Só que, do lado das despesas, o gigantismo atrapalha. Os 78.838
lugares e os 66 jogos levam os gastos às alturas. Por isso, a despeito da
receita recorde, houve prejuízo de R$ 22,5 milhões em 2015. A solução passa
necessariamente por aumentar a média de público, ainda baixa, suficiente para
encher apenas 30% das arquibancadas. Ainda que o dinheiro das bilheterias vá
quase todo para os clubes, não para a administradora do estádio, o fluxo de
visitantes destrava outras receitas com alimentação, estacionamento, camarotes
e patrocínios.
A
operação deficitária do Maracanã complica o xadrez. Qualquer nova
concessionária precisa ter caixa para resistir aos primeiros anos no vermelho e
relação amistosa com o Flamengo, cuja torcida, a maior do Rio, é indispensável
para fazer o estádio lucrar. O Flamengo, ainda em meio a uma longa jornada de
redução das dívidas feitas por cartolas do passado, precisa ter cautela para
não se fragilizar além da conta para ter o comando da arena. O Fluminense
precisa participar do processo para que a disputa não seja levada à Justiça,
afinal os tricolores têm um longo contrato assinado vigente. E o estado do Rio
de Janeiro precisa conciliar os interesses de todas as partes sem que o
dinheiro do cidadão entre no jogo. Afinal o Maracanã já custou caro demais para
ser construído, mais de R$ 1,2 bilhão, um dinheiro público que dificilmente
será recuperado.

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