terça-feira, setembro 22, 2020
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Arquivo: A história da polêmica Copa União de 1987.

TRIVELA
– O arquivo que resgatamos nesta quarta-feira no Medium traz a história da
polêmica da Copa União de 1987, uma disputa que se tornou uma enrolação sem
tamanho. A revista Trivela contou detalhes de como surgiu essa polêmica, com
episódios pouco conhecidos por muitos. A reportagem é assinada por Ubiratan
Leal e é da edição número 15, de maio de 2007. Aproveite!

Com o
testemunho de 122.001 torcedores que lotavam o Maracanã no fim da tarde de 19
de julho de 1992, o Flamengo empatou em 2 a 2 com o Botafogo e conquistou o
Brasileirão. Para o clube, era seu quinto campeonato nacional. Por isso, o
capitão rubro-negro Júnior ergueu a Copa Brasil como se tomasse posse
definitiva do troféu. Para a CBF, porém, era apenas o quarto título
flamenguista e a taça continuaria à espera do primeiro pentacampeão nacional.
Diante do impasse, a famosa peça de bolinhas criada pelo artista Maurício
Salgueiro foi tirada de circulação e até hoje não tem dono.
A
falta de um destino para esse troféu parece uma questão menor, mas dá um bom
sinal de como as autoridades até hoje não equacionaram a disputa entre Flamengo
e Sport para definir o campeão brasileiro de 1987. Uma história que muitas
vezes é reduzida à validade de um cruzamento entre os melhores do Módulo Verde
(formado pelos grandes clubes) com o do Amarelo, mas que envolveu briga
política, mudança de regulamentos e até traição.
Capítulo 1: CBF em crise institucional
Na
metade da década de 1980, já não havia mais condições de manter os Brasileirões
inchados, com até 94 participantes. A própria CBF determinou que, em 1987, o
campeonato seria reduzido para 24 clubes, definidos pelas posições na segunda
fase do torneio no ano anterior. Seria simples, se os problemas não começassem
ainda na Copa Brasil 1986.
No
final da primeira fase, o Joinville pediu os pontos do empate em 1 a 1 com o
Sergipe alegando que um jogador do adversário foi pego no exame antidoping. O
CND (Conselho Nacional de Desportos) contrariou a CBF e determinou que os
catarinenses tinham a vitória, o que agradou ao então ministro da educação
Jorge Bornhausen. A decisão, porém, tiraria da segunda fase o Vasco. A
confederação ainda envolveu a Portuguesa na discussão e, para agradar a todos,
nenhum desses três clube foi eliminado. Pior, sob influência do chefe da Casa
Civil, o pernambucano Marco Maciel, foram abertas mais três vagas na segunda
fase, o que beneficiou Náutico, Santa Cruz e Sobradinho-DF.
A
falta de autoridade da CBF para impor suas decisões não era gratuita. A
entidade vivia grande confusão administrativa desde a eleição à presidência da
entidade no início de 1986. Nabi Abi Chedid e Medrado Dias eram os candidatos e
havia a expectativa de empate. Se isso ocorresse, Dias seria eleito pelo
critério de idade. Assim, momentos antes da votação, Nabi inverteu a chapa com
seu vice Octávio Pinto Guimarães, mais velho que o concorrente. Guimarães
venceu por um voto e assumiu a presidência da CBF.
Esperava-se
que Guimarães fosse presidente apenas formalmente, pois o comando seria de
Nabi. “Cheguei a participar de uma reunião que discutiu se Guimarães deveria
renunciar meses depois de assumir”, revela Carlos Miguel Aidar, presidente do
São Paulo na época, em entrevista à Trivela. Isso não ocorreu e o presidente
eleito resolveu fazer valer seu poder, o que desagradou o vice. Sem comando
forte, o poder da CBF se deteriorou rapidamente. Os reveses se
acumulavam — incluindo a derrota para Estados Unidos e Marrocos na concorrência
para sediar a Copa de 1994 — e até a situação financeira da entidade era
delicada.
Capítulo 2: nasce o Clube dos 13
Enquanto
a CBF estava à deriva, os clubes já se organizavam para fazerem valer seus
interesses. No caso, a maior preocupação era fazer lobby para incluir na pauta
da Assembléia Constituinte — que se formaria em 1988 — um artigo que lhes desse
autonomia de organização e funcionamento. A campanha foi bem sucedida e a união
de clubes ganhou força. Em abril, Flamengo e São Paulo se negaram a ceder seus
jogadores para uma excursão da Seleção Brasileira à Europa e tiveram respaldo
do CND. Márcio Braga, presidente do Flamengo na época, saiu da reunião que
anulou a convocação da Seleção dizendo, triunfante, que era o “fim do
autoritarismo no futebol brasileiro”.
Em
junho de 1987, Octávio Pinto Guimarães anunciou: “a CBF não tem condições de
organizar o Campeonato Brasileiro deste ano”. O motivo era a falta de dinheiro
para arcar com as viagens dos times e outras despesas da competição. Sob o
risco de ficar sem a competição que já era a mais importante do calendário, os
grandes clubes resolveram tomar as rédeas da situação. “Liguei para o Nabi e
perguntei se era sério o que o Octávio falava. Ele disse que era e ‘deu a
bênção’ para que organizássemos o campeonato se quiséssemos”, conta Aidar.
O
dirigente são-paulino propôs a comandantes de outros times tradicionais a
formação de uma associação de clubes para organizar o Brasileirão. Foram
convidadas as equipes mais tradicionais de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio
Grande do Sul e Minas Gerais. Para evitar o rótulo de elitista, também foi convidado
um representante do Nordeste, o Bahia. Assim, surgiu a União dos Grandes Clubes
Brasileiros, conhecida como Clube dos 13. O presidente são-paulino passou a
comandar também a associação.
Capítulo 3: a Copa União ganha forma
Quando
foi formatado o novo Campeonato Brasileiro, a intenção foi transfornar a
competição em um grande produto para o mercado. O principal atrativo era haver
apenas confrontos entre clubes de grande torcida. Por isso, não houve critérios
técnicos para a definição dos participantes. Guarani e América-RJ, pela ordem,
vice-campeão e semifinalista no ano anterior, foram preteridos. “Nossa idéia
era romper os vínculos com modelo antigo do torneio, começar uma nova
história”, comenta Márcio Braga, presidente do Flamengo. “Priorizamos os clubes
que viabilizariam financeiramente uma competição à beira da falência”,
acrescenta.
Ainda
assim, o Clube dos 13 contava com o apoio da CBF. “A única exigência da
entidade para oficializar nosso Campeonato Brasileiro foi a inclusão de mais
três clubes de outros Estados”, comenta Aidar. Assim, foram chamados Coritiba,
Santa Cruz e Goiás, clubes mais populares e donos de melhor histórico nacional
entre paranaenses, pernambucanos e goianos na época. Novamente, não se podia
falar em critérios técnicos, pois o Coritiba não era campeão paranaense
(perdera o título para o Pinheiros) e fora 43º na Copa Brasil de 1986.
Com
participantes definidos, o Clube dos 13 correu atrás de apoio financeiro. João
Henrique Areias e Celso Grellet, diretores de marketing de Flamengo e São
Paulo, comandaram o projeto comercial. O torneio foi batizado de “Copa União”
para ter uma marca que enfatizasse a nova fase do futebol brasileiro e pudesse
ser licenciada por diversas empresas. Além disso, a organização obteve o
patrocínio oficial de Rede Globo, Coca-Cola e Varig.
A
Coca-Cola colocou seu logotipo nas camisas de todos os clubes que não tivessem
patrocinadores (apenas Flamengo, Palmeiras e Corinthians tinham contratos a
cumprir) e no círculo central do gramado (depois, a Fifa vetou essa idéia e a
marca ficou dentro dos gols). A Rede Globo transmitiu o campeonato com
exclusividade, com a permissão de passar as partidas na cidade em que eram
realizadas. A condição era que, minutos antes de a rodada começar, a emissora
fizesse um sorteio de qual jogo seria visto por todo o país (o que gerou a
curiosa situação de, em uma tarde com São Paulo x Corinthians e Flamengo x
Fluminense, o Brasil inteiro viu Bahia x Goiás, que acabou sendo a despedida de
Mário Sérgio).
Capítulo 4: traição, e a CBF volta à cena
A
forma como surgia a Copa União deixou vários clubes descontentes. Os líderes do
movimento eram América-RJ, Guarani e Portuguesa se sentiam injustiçados, pois
teriam direito de estar na elite pelo desempenho no Brasileirão de 1986. “Não dá
para aceitar um Campeonato Brasileiro em que os clubes grandes viram a mesa só
porque não querem dividir o torneio com ninguém”, brada Homero Lacerda, diretor
de futebol do Sport e presidente do clube em 1987. “Os dirigentes de todos os
outros clubes sempre foram contra essa atitude autoritária do Clube dos 13 na
época.”
O
sucesso comercial da competição organizada pelo Clube dos 13 também saltou aos
olhos da CBF. Desse modo, a entidade decidiu organizar uma competição com 16
clubes que estavam de fora da Copa União. Usou como critério a classificação do
Brasileirão de 1986, apesar de deixar de lado a Ponte Preta em favor do Sport,
e conseguiu o apoio do SBT. A CBF mudou seu discurso e deixou de considerar a
Copa União como o Brasileirão. Naquele momento, o torneio dos grandes seria o
Módulo Verde e o outro, o Amarelo. Os dois melhores de cada módulo se
enfrentariam para definir o campeão nacional.
O
Clube dos 13 decidiu boicotar o cruzamento. No entanto, a CBF contou com um
apoio de dentro da união de clubes. “O Eurico Miranda era vice-presidente de
futebol do Vasco e ficou como nosso interlocutor na CBF”, comenta Aidar. “Ele
nos traiu e deu sinal verde para a CBF virar a mesa, mesmo contra a
determinação dos outros 12 clubes de não fazer cruzamento com o Módulo
Amarelo.” O Clube dos 13 não assinou o regulamento proposto pela confederação,
mas já estava aberta a brecha para a confusão.
Os
dois torneios caminharam e não se falava em cruzamento. Para a mídia, o título
brasileiro se decidia na Copa União. O Flamengo conquistou o torneio ao
surpreender o invicto Atlético-MG de Telê Santana na semifinal e ao bater o
Internacional na decisão. O Módulo Amarelo teve percalços. Nem a possibilidade
de cruzamento contentou América-RJ e Portuguesa, que decidiram boicotar o
torneio. A Lusa voltou atrás posteriormente, mas os rubros, de fato, não
jogaram uma partida sequer. No final, Guarani e Sport dividiram o título após
empate em 11 a 11 na disputa de pênaltis.
Em
janeiro daquele ano, a CBF impôs seu regulamento e determinou que seria
realizado um quadrangular entre Flamengo, Internacional, Sport e Guarani.
Flamenguistas e colorados confirmaram a decisão de boicotar o cruzamento e não
compareceram às semifinais. Assim, Sport e Guarani fizeram a final, vencida
pelos pernambucanos. As duas equipes representaram o Brasil na Copa
Libertadores e foram oficializadas pela CBF como campeão e vice do país em
1987. O CND tinha outra visão e deu o título ao Flamengo. Anos depois, o
Rubro-Negro de Recife ganhou o campeonato na Justiça.
Capítulo 5: legado
Não
demorou para o Clube dos 13 se aliar à CBF e o movimento não teve continuidade.
“Não chegamos a tomar o poder na época por falta de continuidade do caráter
político do movimento”, avalia Carlos Miguel Aidar. Hoje, a associação de clubes
tem como principal função negociar os direitos de transmissão do Brasileirão.
A
confederação voltou a organizar o Brasileirão, apesar de o nome Copa União ter
sido mantido em 1988. “A Globo apoiou com força o torneio de 1987 e se sentiu
traída pelos clubes no ano seguinte”, afirma o jornalista Juca Kfouri,
comentarista da emissora carioca na época e notório entusiasta da Copa União de
1987.
Ainda
assim, não se pode dizer que o torneio não deixou seus rastros. A competição
organizada pelos grandes clubes teve público médio de 20.877 pagantes, o
segundo maior da história do campeonato nacional. Com o dinheiro vindo de
patrocinadores, os clubes arrecadaram o equivalente a uma média de público de
cerca de 40 mil pagantes. Ficou evidente a demonstração de força dos clubes,
que ganharam mais voz nas discussões sobre o destino do futebol brasileiro.
Desde
então, o principal torneio de clubes do país passou a prever sistema de
promoção e rebaixamento (as exceções foram em 1993, com uma virada de mesa para
resgatar o Grêmio, e em 2000, com a criação da Copa João Havelange após a
batalha jurídica entre Gama e CBF). “O que era para ser uma revolução se
transformou em uma transição, mas não deixou de ter sua importância histórica”,
comenta o jornalista Celso Unzelte, pesquisador da história do futebol
brasileiro.
O fato
de sempre haver um asterisco quando se fala no campeão brasileiro de 1987 não
abala o Sport, detentor de direito do título. “Essa confusão toda até foi boa
para a gente, pois todos se lembram que somos os campeões de 1987. Ninguém fala
no título do Bahia em 1988”, ironiza Lacerda. Para o jornalista Roberto Assaf,
autor de três livros sobre a história do Flamengo, o fim da polêmica depende da
CBF. “Enquanto a CBF não determinar que o Flamengo também é campeão de 1987,
sempre vai se discutir a legimitidade da conquista do Sport.”
E o
troféu Copa Brasil? Bem, quando foi criado, em 1975, ele teria posse definitiva
do primeiro clube que conquistasse três Brasileirões consecutivos ou cinco
alternados. Pelos critérios da CBF, até hoje a peça não tem dono. Pelo Clube
dos 13, é do Flamengo. Para não aumentar a confusão, a confederação desistiu da
taça, esquecida em um cofre da Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro.
OS ATORES DA PEÇA
Clubes grandes
Estavam
dispostos a se unirem para ganhar autonomia e mudar a estrutura do futebol de
modo que explorassem melhor seu potencial econômico. Aproveitaram a desistência
da CBF em organizar o Brasileirão de 1987 e criaram o Clube dos 13.
Clubes pequenos
Alguns,
como América-RJ, Guarani e Portuguesa, se sentiram prejudicados pela falta de
critério técnico na definição dos participantes da Copa União e muitos falaram
que era uma “virada de mesa”.
CBF
Com
presidente e vice que não se entendiam, a entidade estava desgovernada, sem
força política e em crise financeira. Não tinha mais condições de segurar a
vontade dos clubes de se organizarem por conta própria.

CND
O Conselho Nacional de Desportos foi
criado por Getúlio Vargas para regular os esportes de competição
no Brasil. Era o meio de o governo interferir no esporte, mas, na metade da
década de 1980, o CND era presidido por Manuel Tubino e tinha uma visão mais progressista,
incentivando o aumento de autonomia dos clubes. O órgão foi extinto em 1993, no
governo de Itamar Franco.
Patrocinadores
Globo,
Coca-Cola e Varig viram na Copa União o primeiro Campeonato Brasileiro em torno
do qual haveria uma grande mobilização nacional. Assim, apoiaram o Clube dos 13
e criaram diversas ações de marketing específicas para a competição.

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