segunda-feira, setembro 28, 2020
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Arthur Muhlenberg: “Facho de esperança”.

A esta altura do baile já não há muita coisa a dizer sobre o Flamengo. Foram 12 meses cornetando sem parar, avisando, admoestando, amaldiçoando e abençoando os ocupantes transitórios do Manto Invencível. E todo o latim gasto foi, de certa forma, inútil. Porque as coisas do futebol se resolvem lá no quadrilátero relvado e depois que a bola tá rolando toda a prosopopeia que a circunda não passa de agitprop. Muito mais longe de onde já estamos não poderemos ir. Finalmente a realidade é cristalina e não suporta qualquer relativização.

Faltam poucas horas para o ultimo jogo do ano. Jogo em que mais uma vez temos obrigação de vencer, se não pelo prazer fugaz da volta olímpica e da inútil bi-vaga na Libertadores, ao menos para evitar uma cava depressão de uma legião de eternos insatisfeitos que julgará ser 2017, sem uma Sulamericana na cristaleira, o pior ano da história rubro-negra presente, passada e futura.
Discrepo muito de tal visão. Talvez porque tenha ainda na memória temporadas do Flamengo indiscutivelmente mais infaustas que a presente. E não estou me referindo a um distante período pré-cambriano de treinos na Rua do Russel ou de campeonatos resolvidos com bicudas na bola em direção à Lagoa, mas de tenebrosas temporadas malogradas ainda neste tão jovem século. Quem diz que o tempo cura cicatrizes nunca perdeu uma final no Maracanã. Para esse tipo de ferida o único remédio é vencer.
Só mesmo a natural e compulsória empatia que surge sem controle entre os rubro-negros é capaz de me colocar sobre os altos saltos desses insatisfeitos para entender, sem crítica ou juízo de valor, o amargor de tantas expectativas frustradas como se fossem minhas também. Sorri pra mim/ Porque preciso enganar a dor/ Surpreender o mal interior/ Qualquer motivo pra me libertar. Me compadeço porque já aprendi que ficar puto é pior. Continuo convicto que o Flamengo ganhar a Sulamericana não o fará um milímetro sequer maior do que já é. Sou Campeão Mundial! Mas não abro mão de ver que mais uma taça, mero artefato material que simboliza conquistas imateriais, juntando poeira num canto qualquer da sede da Gávea.
Por isso é tão natural que muita gente esteja encarando o jogo de hoje como se fosse um four de ases na última rodada da mesa. E, num all-in meio suicida, empilhando todas as fichas do esporte, politica, religião, artes e comportamento no centro do pano verde, na esperança de remissão de um ano que termina muito mais complicado do que se poderia prever em janeiro. Ah, se eu pudesse a regra mudar/ Lavar as sujeiras do mal/ Flutuar em águas limpas/ Seria depressa o caminho ideal. Cada um com seu cada um, o que se vai apostar é uma questão de foro íntimo. Mas não custa nada avisar mais uma vez que racismo, desigualdade, concentração de renda, ideologia de gênero, legitimidade das cortes e justiça fiscal não estão em jogo. Isso aqui é Flamengo. E já é muita coisa.
Flamengo que tem tudo para cumprir sua missão e satisfazer a torcida. Menos a obrigação de resgatar o orgulho ferido do brasileiro de quem o governo, o deus mercado, os políticos e as igrejas parecem a cada dia querer tirar mais um pedaço. Porque preciso enganar a dor/ Surpreender o mal interior/ Qualquer motivo pra me libertar. Para aqueles que querem justiça não existe dia certo ou errado para lutar por ela. Hoje eu sou só Flamengo. Hoje eu só quero ver gol.
Reprodução: Arthur Muhlenberg / República Paz & Amor

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