As dificuldades na transição da Base ao Profissional.

Por: Fla hoje

Vinícius Junior, do Flamengo, é outro atleta de grande potencial que despontou na Copinha deste ano – Foto: Gazeta Press

RENATO
RODRIGUES
: Reta final de Copa São Paulo e uma velha cobrança vêm à tona com
todas as forças. Os discursos por todos os lados são sempre muito parecidos:
“O que adianta ter a competição, chegar nas finais, se os caras não usam a
base? Tem que usar a base!”. Por vezes, no calor da emoção, em ver tantos
bons valores em campo, acabamos por abusar de um clichê que chega até a ser
simplista e perdemos a oportunidade de elevar o nível com discussões mais
profundas sobre este problema que vem prejudicando muito o futebol brasileiro
nos últimos anos.

É
óbvio que trabalhar as categorias de base com competência e apostar nelas para
desenvolver qualquer clube é algo mais que necessário. Quem não quer ver o
futebol brasileiro lançando novas promessas que ajudem a elevar a qualidade do
nosso esporte? A grande questão neste caso, no entanto, é entender um pouco
melhor as dificuldades destes garotos, principalmente nesta fase transição da
base para o profissional. A ideia é procurar analisar mais a fundo os motivos
para eles serem muitas vezes deixados de lado.
De
cara é mais que necessário observar com atenção o momento em que este jovem com
grande potencial deixa o Sub-20 para integrar o elenco profissional. Claro que
existem exceções, atletas com um nível técnico acima da média que tiram de
letra estes primeiros momentos e logo ocupam seu espaço até mesmo na equipe
titular. Mas, se olharmos de uma forma mais abrangente, muitos deles já iniciam
com dificuldades nos treinamentos. Sem ter uma maturação completa, mesmo que
saudáveis e cheios de energia para desempenhar suas atividades, muitos desses
meninos se deparam com obstáculos pela frente.
– Tem
atletas que apresentam um desenvolvimento mais tardio, isso é normal de se
deparar. Nós que trabalhamos com isso temos o dever de estarmos atentos para
não desperdiçar um talento. Quantos meninos ficam perdidos no meio do caminho?
Posso citar o Bernard (ex-Atlético-MG e atualmente na Shakhtar-UCR). Ele quase
não jogava nas categorias inferiores do Atlético. Mas fizemos por lá um
trabalho de verificação. A gente via que era um menino com um desenvolvimento
tardio, que era baixo, mas tinha qualidade… É importante ter corpo, mas a
gente também precisa ver a qualidade. Isso tem que ser acima de qualquer coisa.
E isso sem conhecimento, dificulta muito a subida de um jogador para equipe
principal. As pessoas querem resultado imediato, não estão dispostas a esperar
esse processo de um jogador tardio, que muitas vezes é talentoso, mas acaba se
queimando algumas etapas. O ideal é ir colocando o menino aos poucos, sabendo
que ele vai amadurecer no tempo dele, que vai passar pelas 10 mil horas e daqui
a pouco vai conseguir estar no nível do restante – explica Rogério Micale,
treinador da Seleção Brasileira Sub-20 e comandante da equipe que conquistou o
ouro olímpico pelo Brasil em 2016, em entrevista ao blog.
Muitas
vezes até por ainda não ter essa maturação física totalmente desenvolvida,
estes jogadores sofrem nas primeiras atividades que participam. O que é até
considerado normal dentro do ambiente do futebol profissional. Nesta hora é que
entra a paciência na adaptação deste jogador que, aos poucos, vai entrando no
ritmo e ganhando potencial físico para suportar com naturalidade a intensidade
e o nível competitivo que dele é exigido. É algo que vai muito além do
argumento do “mas ele é novo, aguenta correr…”.
– Eu
costumo sempre falar que, em qualquer área, em qualquer profissão, temos que
ter 10 mil horas de prática para exercer alguma função com plenitude. E hoje em
dia o processo formativo no futebol recuou. É muito pouco falado sobre isso.
Mas isso se veio muito em função de não termos mais tantos campos de várzea, da
insegurança nas ruas… Isso limitou muito a prática do futebol, algo que
tínhamos em abundância. Se jogava futebol em todos os lugares. Hoje os pais já
não deixam seus filhos jogando bola na rua, a não ser que seja um condomínio
fechado. E geralmente não é daí que surgem grandes jogadores. Normalmente os
talentos estão em regiões mais pobres – afirma Micale.
– Com
isso, o número de horas de prática no esporte diminuiu e o atleta chega ao
Sub-20 com menos horas que antigamente. Antes a gente formava jogador com 19 ou
20 anos. Atualmente essa média de maturação de um jogador subiu para 23 ou 24
anos. Isso gera consequências na hora de se lançar um jogador dentro de um
grupo profissional, onde já tem atletas maturados em toda sua constituição
física, psicológica e tática – completa o treinador.
Além
dessa avaliação de desempenho durante os treinamentos, que na maioria das vezes
não vemos, estes jogadores também são observados em outras vertentes que, por
vezes, acabam dificultando sua afirmação. A questão comportamental é algo que
faz a diferença. Se aparecem jogadores mais centrados e dispostos a desenvolver
sua carreira, também despontam casos de jovens que sofrem certo deslumbramento,
até normal pelas falhas de formação de cidadãos, coisa recorrente no Brasil.
Alguns até se rebelam quando não são relacionados para atuar pelo profissional
e solicitados no Sub-20, até para se manter em atividade. São casos que por
muitas vezes nem vem ao conhecimento da mídia e torcedores.
E os
problemas não param por aí. A cultura por resultados em curto prazo no país
também influencia a garotada. Ciente de que precisa vencer quase que a qualquer
custo para manter seu emprego, o treinador tende a arriscar menos. Na dúvida,
prefere sempre o atleta mais experiente, que já passou por situações de pressão
na carreira. Chega a ser uma situação até compreensível. Com isso, acaba por
não desenvolver como deveria o jovem potencial que tem no seu elenco.
Muito
por isso são muitos os treinadores no cenário nacional que defendem a criação
de equipes e campeonatos da categoria Sub-23. A ideia é dar espaço exatamente
para atletas que estão em meio essa transição da base para o profissional, que
ainda é muito mal feita em solo brasileiro.
– A
ideia de se trabalhar com equipes Sub-23 se dá justamente pelo fato de o atleta
ter um tempo maior de maturação. Seja ela emocional, física ou mesmo tática…
Além disso, ele tende a contar com uma convivência muito maior com o
Departamento de Futebol Profissional, já que esses jogadores fariam essa
transição tendo contato com o time de cima – afirma ao blog Osmar Loss,
treinador da categoria Sub-20 do Corinthians e finalista pela quarta vez
seguida da Copa São Paulo de Futebol Júnior.
Por
fim os dirigentes também têm sua parcela de culpa em todo esse sistema complexo
na formação de jogadores. Muitos dos grandes clubes sequer têm implantada uma
metodologia única de trabalho visando a ligação da base com o profissional. Não
sabem ao certo nem mesmo o tipo de futebol que se deseja jogar na equipe de
cima. Com isso também não tem definido o tipo de atleta que é preciso se formar
para estar incluso no modelo de jogo criado como norte dentro do
desenvolvimento de todo um trabalho.
– A
grande dificuldade é que muitos atletas são lançados de uma forma aleatória.
Não correspondem em um primeiro momento e são queimados. Nós temos vários
jogadores que passaram por isso. Às vezes que precisaram sair do clube, seja
emprestado ou não, para estourar e em outro momento, voltar a figurar em
equipes de maior expressão. Na verdade essa transição no futebol brasileiro
praticamente não existe. Pouquíssimos clubes levam isso a sério. Não existe um
planejamento pré-determinado. Não posso generalizar porque seria até injusto da
minha parte. Mas de uma maneira geral falta muito desse planejamento. Se gasta
muito dinheiro com a base mas sem metas pré-estabelecidas, sem colocar um
número de valores a ser aproveitados anualmente e sem esse processo transitório
– finaliza Rogério Micale.

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