quarta-feira, setembro 23, 2020
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Balanço 2014 – Análise do Caixa do Flamengo.

Pedro
Migão – Após a divulgação dos Demonstrativos Financeiros do Flamengo, diversas
matérias foram escritas enaltecendo os bons resultados e o lucro recorde. Sim,
são mesmo motivos para se comemorar, como nós mesmos fizemos por ocasião da
publicação de nossa análise.
Na
cabeça de todos, uma pergunta: se o clube agora é “rico” e produz tanto lucro,
caramba, onde foi parar essa dinheirama? E por que tendo lucro ainda
continuamos a pedir empréstimos?
Nós já
abordamos esses pontos no artigo Balanço 2014 – Que Flamengo é Esse? e
sugerimos a releitura. Porém, o tema é tão intrigante que resolvemos detalhar
melhor outro instrumento das demonstrações financeiras, para mostrar que ter
lucro não é exatamente a mesma coisa do que ter dinheiro sobrando.

As
demonstrações financeiras, como dissemos no artigo anterior, obedecem uma
lógica conhecida como princípio da competência. Isso quer dizer que os
lançamentos são registrados no momento da ocorrência de seu fato gerador, que
não necessariamente coincide com o momento da entrada ou saída do dinheiro.
Porém, para efeito de apuração do resultado, receitas e despesas são incluídas
nesse instante (em obediência às normas que regem à contabilidade) e pode haver
descasamento entre o caixa que sobra (ou que falta) e o lucro (ou o prejuízo).
Ou seja, o resultado financeiro não se equivale ao resultado contábil.
Parece
surreal, mas é possível ter prejuízo com dinheiro no caixa ou ter lucro sem
nada na mão. É incrível, mas na prática isso acontece. Afinal, a melhor
analogia de um balanço patrimonial é uma fotografia: a imagem estática capta
apenas aquele momento específico, sem revelar por inteiro os movimentos que
aconteceram antes ou que acontecerão depois.

Para
facilitar a compreensão, imagine a situação hipotética descrita no quadro
acima. As despesas de salários de dezembro só são pagas em janeiro do ano
subsequente. Contabilmente, elas devem ser lançadas em dezembro, mesmo que o
dinheiro ainda continue com o empregador. Por outro lado, um aluguel a receber
em dezembro, mas cujo pagamento só ocorra em janeiro seguinte, gera uma receita
em dezembro, embora o caixa só veja a cor desse dinheiro no outro ano. Agora,
imagine isso com várias operações ao longo de vários anos, com receitas sendo
adiantadas e despesas não sendo pagas.
Dessa
forma, o resultado (lucro ou prejuízo) não necessariamente irá refletir o dinheiro
que entrou e saiu efetivamente do caixa do clube naquele exercício. Mas isso
não significa que a gente não tenha como descobrir, além do resultado, o que
teve de dinheiro vivo circulando. Para saber o que realmente teve impacto na
disponibilidade em um exercício, o melhor demonstrativo é o DFC – Demonstração
dos Fluxos de Caixa – que possibilita conhecer o fluxo de caixa ocorrido ao
longo do ano.
Esse
demonstrativo, ao contrário dos demais adota o regime de caixa e não o de
competência para sua elaboração e inclui a movimentação de todas as operações
que tiveram impacto no caixa, na conta corrente e nas aplicações financeiras
com elevada liquidez. E, no caso do Flamengo, o panorama encontrado ainda é um
tanto sombrio.

A
figura acima mostra as alterações do regime de caixa para o de competência sob
o ponto de vista das operações do clube. Assim, partindo-se do lucro de R$ 64
milhões retira-se no primeiro grupo todos os lançamentos escriturais, ou seja,
que não envolvem movimentação de dinheiro, tais como depreciação (perda linear
de um bem pelos desgastes esperados por causa de sua utilização), amortização
(uma espécie de “depreciação” aplicada em bens intangíveis – não confundir com
amortização de financiamentos, que envolvem pagamentos de dívida) e provisões
(reservas para pagar obrigações no futuro, caso elas venham a ser
exigidas).  Essas contas são meramente
contábeis.
No
bloco seguinte temos a abertura da variação do ativo pelo método indireto, o
que demonstra o aumento no fluxo de cada conta. O valor negativo (aumento)
representa que o dinheiro deixou de ir pro caixa e foi para uma outra conta do
ativo que possui uma liquidez menor. Por exemplo, o clube aumentou suas contas
a receber em quase R$ 15 mil. O que sigifica que a venda a prazo foi maior do
que em 2013. É dinheiro que só entrará no caixa no futuro.
No
passivo temos o mesmo conceito, porém com sentido matemático inverso: a redução
é que é demonstrada com valor negativo. Os valores demonstram que reduzimos
sensivelmente os impostos que estavam pendentes de recolhimento e que o caixa
foi bastante afetado pelo pagamento de indenizações e contingências. Ou seja,
estamos honrando compromissos com o fisco e com a Justiça.
Após
esse novo arranjo, o fluxo de caixa líquido das atividades operacionais reduziu
o resultado para menos da metade (mas, ainda bastante significativo, como pode
ser comparado com 2013). Em outras palavras, a operação do Flamengo gerou um
caixa de quase R$ 32 milhões, o que é muito bom.

Acima
temos os ajustes efetuados nas atividades de investimento (aquisição e venda de
ativos permanentes – tangíveis e intangíveis) e de financiamento (mudança no
tamanho e na composição do capital próprio e de terceiros).
As
atividades de investimento mostram uma queda no caixa, basicamente pela aquisição
de jogadores, que consumiu o caixa operacional gerado. Essa é uma informação
muito relevante, porque contraria a percepção do senso comum. O que o Flamengo
conseguiu gerar de caixa foi gasto com jogadores!
No
grupo de financiamento podemos observar um caixa positivo, o que não exatamente
é uma boa notícia. Afinal, isso mostra apenas que se contraiu mais empréstimos
do que se pagou. Portanto, mais um dado para ratificar o que temos falado em
várias análises: embora esteja havendo geração de superávit, o fluxo de caixa
no curto prazo ainda é deficitário e o clube tem precisado se financiar.
Em
resumo, após toda rearrumação, constata-se que no ano de 2014 o Flamengo gerou
um caixa de aproximadamente R$ 6 milhões. E que esse caixa é inferior ao saldo
das atividades financeiras. Em outras palavras, o caixa gerado no ano de 2014,
apesar do clube ter registrado um superávit recorde, foi oriundo de novos
financiamentos – ou seja, sem novos empréstimos o clube simplesmente não teria
como fechar suas contas.
Para
piorar, pela análise que fizemos do orçamento deste ano, 2015 não será muito
diferente. O clube, portanto, continua não tendo dinheiro disponível no
dia-a-dia, embora os resultados operacionais que vêm sendo gerados nos permitam
sonhar com um futuro melhor.
O
cofre ainda está vazio, mas a fotografia é bonita e inspiradora. De mais a
mais, 2018 é logo ali.
JEFF
Jorge E F Farah

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