Balanço Financeiro 2014 – Que Flamengo é esse?

Por: Fla hoje

Magia
Rubro-Negra – Em 31/12/2012, o Flamengo admitia um prejuízo de R$ 62 milhões. O
curioso é que não tinha sido um ano particularmente ruim na arrecadação,
principalmente quando comparado a outros que o antecederam. Em contraste com
2009, ano do título, o faturamento tinha quase dobrado (R$ 120 milhões x R$ 212
milhões). Mesmo com a ausência de um patrocinador máster, as receitas de marketing
saltaram de R$ 15 milhões para R$ 34 milhões. E os direitos de transmissão de
TV ficaram perto de triplicar, saindo de R$ 44 milhões para R$ 114 milhões.
Ou
seja, mesmo faturando muito mais naqueles que eram seus dois pilares de
sustentação (cotas de TV e patrocínio), o clube amargava um grande prejuízo em
2012. Não dava para dizer que era o maior de sua história, porque, 5 anos
antes, descontada a inflação, tinha sido ainda pior: em 2007, para uma minguada
receita de R$ 89 milhões, o clube conseguiu afundar um prejuízo de R$ 59
milhões.
2012,
contudo, sinalizava algo ainda pior. Dava a impressão de que não adiantava o
clube aumentar suas receitas de forma até surpreendente – justiça seja feita,
as receitas tinham crescido bastante e acompanharam o crescimento do futebol
brasileiro como um todo, o clube soube surfar naquela onda. Mas a sina do
Flamengo parecia ser mesmo um devedor contumaz, um perdedor de dinheiro, um
perdulário.
O
Flamengo, diga-se de passagem, não estava sozinho nesse atoleiro. Seus rivais,
via de regra, seguiam a mesma batida – quanto mais dinheiro ganhavam, mais
gastavam. Alguns tinham a sorte de fazer uma boa venda para um clube do
exterior, desfalcando o elenco, mas reforçando o caixa e assim sofriam menos. O
Flamengo, com seus neguebas e welintons, coitado, nem esse direito tinha.
Entrava
bastante dinheiro, mas saía mais rápido ainda. Por isso, em 31/12/2012, o
Flamengo fazia sua confissão pública de fracasso: ganhou R$ 212 milhões, mas
gastou tudo e ainda conseguiu gastar mais 1/3 disso. Eram mais de R$ 5 milhões
de saldo devedor a cada mês. Ou mais de R$ 172 mil por dia. Haja apetite para
tamanha prodigalidade.
Ao
longo de 2014, o clube foi divulgando seus balancetes, a gente foi olhando e
percebendo, mas ficamos quietinhos, esperando o fechamento do ano para soltar
os fogos.

Caramba,
que Flamengo é esse, que em apenas dois anos reverte um prejuízo de R$ 62
milhões para um LUCRO de R$ 64 milhões?
É isso
que nós vamos tentar explicar.
RESPONSABILIDADE FISCAL
Soa um
tanto ingênuo dizer o óbvio, mas quando se trata de futebol brasileiro, é
melhor dizer tudo tintim por tintim, como se o interlocutor tivesse 6 anos:
nada pode dar certo quando se gasta mais do que se arrecada. Esse axioma tão
simples ainda é uma exceção nos clubes brasileiros.
Esse
clima de profunda irresponsabilidade e gastança é um drama para quem resolve
seguir o manual das boas práticas de gestão. Em qualquer ambiente de competição
os players precisam obedecer ao padrão de comportamento ditado pelos líderes do
mercado. E, no futebol, a irresponsabilidade, a sonegação e a inadimplência
sempre foram marcas registradas. Como competir contra quem está muito mais
alavancado do que você? Como enfrentar times que se fortalecem com dinheiro que
ainda não existe senão fazendo o mesmo?
Dada
essa constatação, é um tanto severo atribuir aos dirigentes do passado a culpa
pela enrascada em que nos meteram. Na verdade, eles dançavam conforme a música,
obedecendo a segunda parte da sentença de Stanislaw Ponte Preta, aquela que
recomendava que ou bem se restaurava a moralidade, ou bem todos se
locupletavam.
O
Flamengo, maior – muito maior – que seus rivais invejosos, também padeceria de
outro ditado: quanto mais alto, maior o tombo. Ali, em 31/12/2012, o Flamengo
expunha suas entranhas. R$ 400 milhões de dívida com o Fisco, R$ 152 milhões em
processos na Justiça, R$ 88 milhões de receitas futuras adiantadas.
Para
piorar, a letargia dos credores chegara ao fim. O Fisco, os credores privados,
as reclamações trabalhistas, todos juntos avançando sem tréguas sobre as
receitas do Flamengo, que mesmo em tendência da alta, não conseguiriam dar
conta de tanta cobrança. Ou o Flamengo atuava com energia para acertar suas
finanças ou em pouco tempo perderia a gestão de suas arrecadações, que iriam
parar nas mãos dos exequentes em incontáveis penhoras.
O
Flamengo renegociou a dívida com seu credor principal – o Fisco – e até tomou
outras (como já comentamos em artigos anteriores), mas atingiu o objetivo
principal, que era deixar de ser ameaçado a cada dia por um oficial de justiça.
Com a dívida renegociada, o clube conseguiu emitir uma CND (Certidão Negativa
de Débitos, relativa aos tributos), que permite acesso às verbas oficiais.
CND é
igual dieta: perder peso pode ser um sacrifício, mas muito mais difícil é
manter a nova silhueta e mudar de hábitos de uma vez por todas. Outras vezes na
sua história o Flamengo teve CND, que logo perderam a validade. Desta vez,
entretanto, o clube se manteve firme. Já são mais de 2 anos com a CND na mão.
Mais
do que o documento em si, a simbologia que ele carrega é mais vistosa. O clube
simplesmente rompeu o paradigma reinante no futebol brasileiro e se dispôs a
perseguir a meta que qualquer um de nós adota no trabalho ou em casa: gastar só
o que tem.
O
resultado é a recuperação gradual da credibilidade institucional.

Essa
meta seguida à risca, contudo, pode dar a impressão de que o clube gasta pouco.
Uma impressão disseminada em boa parte da torcida, aliás. Mas que não é
exatamente verdadeira. O clube gasta bastante (e colhe resultados abaixo dos
seus gastos, como comentaremos mais adiante). O pulo do gato do Flamengo não
foi reduzir os gastos, mas sim aumentar muito a sua arrecadação. Isso sim
reposicionou o clube e se transformou nesse lucro espetacular.
Vamos
ver como.
PQP, É A MAIOR RECEITA DO BRASIL
É
claro que é preciso aguardar que todos os clubes divulguem seus balanços, mas
tudo indica que o Flamengo voltará a ser o clube de maior arrecadação do país.
A
receita do Flamengo já tinha dado 2 grandes saltos. O primeiro em 2011, quando
cresceu 43% em comparação ao 2010 – fruto do aumento da cota de TV e dos
royalties. O segundo em 2013, quando cresceu 29% sobre o ano anterior – quando
novos componentes se agregaram ao faturamento.
Até
2012 o clube vivia basicamente das cotas de TV e das verbas de
patrocínio/licenciamento (estas, contrariando o senso comum, não eram tão
ruins, pelos menos quando comparadas ao período anterior, pois praticamente
triplicaram).
As
grandes novidades a partir de 2013 foram o aporte de duas novas fontes de
receita.
Uma já
existia, mas era pouco relevante: a bilheteria.
O Flamengo
em 2012 arrecadou menos de R$ 9,5 milhões na bilheteria (ano, inclusive, que
disputou a Copa Libertadores). Isso representava 4% da receita total. Em 2013
foram mais de R$ 48 milhões na bilheteria, chegando perto de 1/5 da receita
total.
Em
2014 a performance piorou um pouco, porque sem chegar às finais da Copa do
Brasil, o clube arrecadou R$ 40 milhões nos estádios. O peso relativo da
bilheteria nas receitas totais caiu para 12% – mais ainda assim é o triplo do
que era em 2010 e sobre uma base de comparação bem mais elevada.
Foi à
base de muitas críticas que a políticas de preços altos se impôs. Mas o tempo é
mesmo o senhor da razão. Olhando para os números, fica difícil voltar atrás. O
Flamengo precisa cobrar de quem vai assisti-lo em campo um preço que seja
compatível com as suas necessidades financeiras. E os ingressos mais altos –
essa é a grande ironia – não afastaram o público dos estádios.
A
segunda receita nova, introduzida em 2013, foi o programa de Sócio Torcedor. No
seu primeiro ano foram arrecadados R$ 16,5 milhões. Em 2014, foram mais de R$
30 milhões nos cofres dos clubes.
Há uma
competição um tanto esdrúxula entre torcedores que ficam comparando um ranking
para saber quem está em primeiro na quantidade de sócios. É o tipo de discussão
que o torcedor deveria evitar. Afinal, o que realmente interessa é saber qual
torcida é maior do que a outra. Mas como não há dúvidas de que a torcida do
Flamengo é muito maior do que qualquer outra, estamos fora desse debate.
O
ranking de quantidade de sócios é um desserviço ao imaginário do torcedor,
simplesmente porque os programas são muito diferentes entre si e, portanto,
seriam incomparáveis (é o mesmo que comparar bananas com maçãs). O objetivo de
um programa de sócio torcedor não é estimular discussões de botequim ou de
redes sociais, mas sim colocar dinheiro no cofre dos clubes.
O
Internacional, por exemplo, se ufana de ter 100 e tantos mil sócios, mas em
2013 arrecadou “apenas” R$ 39 milhões. O Flamengo, com a metade
disso, arrecadou quase a mesma coisa. O Corinthians, outro na nossa frente,
arrecadou até menos em 2013, R$ 27 milhões.
Na
perspectiva do torcedor do Flamengo o que conta é que o programa de Sócio
Torcedor, individualmente considerado, já é o maior “patrocinador” do
clube. É importante que ele siga crescendo e se aperfeiçoando (e pode e deve se
aperfeiçoar mais e mais). Entretanto, o que cada um de nós precisa ter em mente
é a alta relevância que ele possui. Por isso, insistimos, o objetivo nunca é
trazer “mais gente”, é trazer “mais dinheiro” e esse papel
o NRN vem cumprindo.
Em
2014, apareceu outra receita inédita: os Incentivos Fiscais, consequência
direta de andar em dia com os impostos. Graças ao fato de estar caminhando para
ser um clube cidadão, o Flamengo conseguiu captar quase R$ 22 milhões em
projetos de incentivo. Esse número, por si só, já é impressionante, mas ele é
ainda mais significativo quando olhado de forma isolada, excluindo-se o
futebol.
Nos
esportes olímpicos, a captação de incentivos chegou a R$ 17,7 milhões (há
projetos de incentivo no futebol também). Isso representa 40% de toda a receita
que o clube conseguiu fora do futebol, incluindo mensalidades dos sócios,
receitas de aluguel, patrocínio e licenciamentos e outras.
Voltando
ao futebol, as receitas de marketing também melhoraram bastante. Elas foram de
cerca de R$ 80 milhões, um crescimento espantoso de 50% sobre o ano anterior
(que já tinha sido bom). Em comparação a 2012 temos um avanço de 132%. E olha
que 2012, na nossa opinião, nem tinha sido tão ruim. Quem olha para 2009, ano
do Hexa, conclui que em 5 anos o Flamengo impôs um crescimento nominal de 427%
em suas receitas de marketing (ou seja, mais do que multiplicou por 5).
Outra
receita que melhorou foi a do repasse de direitos federativos. Na análise que
fizemos ano passado criticamos o fato do clube ter passado 2013 sem fazer um
mísero negócio. Realmente, não tem cabimento um time como o Flamengo passar 1
ano inteiro sem vender ninguém.
Pois
em 2014 foram R$ 19,7 milhões de direitos econômicos. Parte deles, como é
notório, ainda não entrou no cofre, trata-se do rolo da venda do Hernane, que
para tristeza dos autores do artigo, fãs de primeira hora do Brocador, nos
deixou sem gols e sem dinheiro. A esperança é que uma hora qualquer, a grana,
ao menos, entrará.
Por
fim, as cotas de transmissão de TV, que seguem estáveis, com R$ 115 milhões
(aliás, em 2013 elas tinham até caído um pouquinho em comparação à 2012).
Aqui o
que importa destacar é o peso relativo dessa verba na composição da
arrecadação. Em 2012 ela representava 54% da receita total. Em 2014, 33%.
É
evidente que o dinheiro da TV vem perdendo importância relativa para o Flamengo
e de forma muito acelerada. Em apenas 2 anos despencou de mais da metade do
bolo para apenas 1/3.
Enquanto
os adversários andam por aí arrancando as calcinhas pela cabeça buscando
reduzir o quinhão do Mais Querido para tentar nos atingir, o Flamengo vai dando
mostras de que a inveja talvez seja inútil.

O
Flamengo, quem diria, virou, finalmente, uma máquina de arrecadar dinheiro.
AS DESPEZAS
A
torcida do Flamengo está de parabéns. Contrariando todas as expectativas, soube
ser paciente e tolerante com o momento financeiro delicado do clube, aceitando
um elenco modesto, com padrões de gastos contidos e econômicos.
Certo?
Só a
primeira parte, a que invoca a paciência e a tolerância da torcida do Flamengo.
Os gastos não são contidos e nem econômicos. Eles são responsáveis, é fato.
Como já dissemos – mas não há mal em repetir – o Flamengo gasta dentro de sua
arrecadação, sem aventuras ou exibicionismo. Mas como o Flamengo agora é
“rico”, seus gastos acompanham a evolução financeira.

O
futebol do Flamengo custou R$ 170 milhões em 2014. Aí estão incluídos gastos
com aluguel de estádios, materiais, despesas em geral. A soma dos salários com
direitos de imagem atinge R$ 111 milhões anuais – uma média mensal de R$ 9,250
milhões.
Os
números de 2014 dos demais clubes ainda são desconhecidos. Contudo, se
comparados ao anterior, os R$ 170 milhões do Flamengo ficam acima do que
Cruzeiro, Atlético Mineiro. Santos e Grêmio gastaram.
Noves
fora a Copa do Brasil de 2013, o desempenho esportivo do Flamengo é abaixo do
investimento realizado nos dois últimos anos. O time do Flamengo está longe de
ser barato e por isso mesmo não há justificativas para ter passado duas
temporadas rondando a zona de rebaixamento.
O
clube reinvestiu todo o dinheiro arrecadado com a venda de jogadores na
aquisição de outros: gastou os mesmos R$ 19 milhões. A lista dessas
contratações, contudo, é passível de questionamentos.

para situar, o Flamengo é dono de 100% dos direitos econômicos de Alecsandro,
50% do Anderson Pico (um jogador que estava parado há meses), 100% do Canteros,
100% do Eduardo da Silva, 50% do Everton, 60% do Marcio Araujo, 100% do Lucas
Mugni., 60% do Paulinho. Esses jogadores não estavam nas Demonstrações
financeiras de 2013 e isso demonstra que as contratações relevantes realizadas
pelo clube em 2014 envolveram investimentos em direitos econômicos.

O
clube merece todos os aplausos possíveis pelo desempenho financeiro
espetacular. Mas quando o futebol não acompanha o mesmo desempenho e fica
patente que não foi por falta de grana, os responsáveis podem e devem sofrer
questionamentos pelos resultados alcançados.
A
torcida não vê a hora de que os resultados em campo sejam compatíveis com a
melhoria financeira.
A MALDITA DÍVIDA
Ao ver
o resultado divulgado o torcedor do Flamengo pode imaginar que a política de
austeridade teria sido em demasia – afinal, por que esse lucro de R$ 64 milhões
não foi aplicado no futebol em contratações de impacto?
A
primeira razão é porque lucro contábil é bem diferente de dinheiro no caixa.
Afinal, há receitas que já haviam sido antecipadas e despesas que se referem a
períodos não contemplados nesse balanço (quem quiser se aprofundar no assunto,
recomendo a leitura do artigo de nossa autoria sobre a previsão do fluxo de
caixa para esse ano). Em outras palavras, parte do lucro do clube foi gerado
por dinheiro que o clube não viu em 2014 (ex: venda do Brocador, verbas da TV e
com a adidas que já foram gastas em exercícios anteriores, etc) . Outra parte,
para sustentar pagamentos que não foram honrados em anos anteriores.
Ao
olhar a demonstração de fluxo de caixa do clube, podemos observar que houve
geração de caixa no período, porém num volume bem inferior ao contábil. Em
2014, a geração de caixa do clube foi de R$ 6 milhões (patamar inclusive
inferior aos R$ 11,5 milhões de 2013).
Além
disso, mesmo tendo lucro, a situação financeira do Flamengo está muito longe de
ser confortável. O clube tinha um patrimônio líquido negativo de R$ 443
milhões, fruto de anos de descontrole sem freio. Dessa maneira, o resultado
financeiro apenas fez com que esse rombo caísse para R$ 379 milhões. Em outras
palavras, o Flamengo continua não tendo ativos para honrar o seu passivo.
Aliás,
o balanço revela que o Flamengo tem um capital circulante líquido (CCL)
negativo de R$ 170 milhões (maior do que em 2013, quando era de R$ 157
milhões). Esse indicador demonstra a saúde financeira no curto prazo. É como se
o Flamengo devesse R$ 170 milhões no cheque especial (aqui tomamos uma
“liberdade poética contábil” para tentar facilitar a compreensão por
quem não é da área), afinal, “capital circulante” nada mais é do que
o resultado da diferença entre o dinheiro e as obrigações correntes no período
inferior a 1 ano.

O
Flamengo tem lucro contábil, mas não tem dinheiro sobrando e o fluxo de caixa
ainda precisa ser financiado no curto prazo, daí a necessidade de se contrair
novas dívidas.
UM OLHAR PARA O FUTURO
Dada
essa constatação, em cada torcedor a mesma dúvida: afinal, quando esse sufoco
financeiro passará de vez e o clube será o arrasa-quarteirão que todos esperam?
Por
óbvio, não há uma resposta única e definitiva, inclusive porque o futuro de
médio prazo depende muito das escolhas de curto prazo. De qualquer modo, o
balanço de 2014 dá algumas pistas para possíveis cenários.
Em
relação aos empréstimos com credores privados (instituições financeiras e Consórcio
Maracanã) e que somam R$ 140 milhões, o mais longo deles termina em 2017
(quando pagaremos a última parcela de R$ 16 milhões à Polo Capital).
Portanto,
se o Flamengo, não pegasse novos empréstimos em 2015 (o orçamento indica que
iremos pegar), 2016 começaria a ser mais folgado, 2017 mais ainda e 2018 seria
um ano como nunca tivemos – mas isso se não houvesse novos empréstimos, o que
não deverá ocorrer.
Por
isso, precisamos continuar gerando superávits.

A
dívida tributária com o Governo Federal está inteiramente parcelada.
Considerando apenas os valores em aberto em 31/12/2014, o panorama é o
seguinte:
– R$
263 milhões foram parcelados em 240 vezes em 2007 quando da adoção da Timemania
e assim essa dívida termina em 2027;
– R$
14 milhões, herdados de impostos não pagos entre 2007 a 2009, foram parcelados
em 180 vezes em 2009 pelo chamado Novo Refis e assim essa dívida termina em
2024;
– R$
31 milhões, que eram os impostos não pagos entre 2009 a 2012 e que tinham sido
parcelados em 38 vezes logo no início da gestão atual para obtenção da CND
foram incluídos no Refis da Copa e assim essa dívida termina em 2029;
– R$
19 milhões foram parcelados em 5 anos e terminam em 2018.
Aqui
cabe uma reflexão importante. O clube, nos últimos 7 anos, aderiu a 3 programas
diferentes de refinanciamento de tributos – extensivo aos demais clubes. Isso
não o impediu de seguir devendo impostos. E olha que estamos falando de uma
instituição sem fins lucrativos, portanto isenta de recolhimento de Imposto de
Renda, de Contribuição Social Sobre o Lucro e de Cofins, além de pagar o PIS de
apenas 1% de sua folha de salário e INSS patronal de 4,5% de sua folha de
salários.
Ou
seja, é absolutamente injustificável que os clubes se enrolem tanto para pagar
impostos, mas é fato que eles se enrolam. Daí porque é duvidoso acreditar que
um novo refinanciamento (vindo da LRFE) possa redimir uma prática de sonegação
tão enraizada no segmento.
Ao que
tudo indica, a sonegação (e, ainda pior, a apropriação indébita) parece coisa
do passado no Flamengo. De herança, sobrou mesmo essa pesada dívida, que em
31/12/2014 somava R$ R$ 354,5 milhões (uma pequena parte dela, claro, relativa
a impostos correntes, como IPTU e ISS).
A boa
notícia, porém, é que a dívida de curto prazo (isto é, aquela que vence em
2015) é de “apenas” R$ 25 milhões – pouco mais de R$ 2 milhões por
mês. A dívida está toda negociada e parcelada.
Ora,
no padrão de faturamento atual, R$ 25 milhões por ano não é um fardo pesado de
se carregar. A dívida tributária, enfim, não causa mais tantos problemas para o
Flamengo – desde que as parcelas sigam sendo pagas em dia e os tributos devidos
por fatos geradores futuros não sejam postergados.
Outro
componente importante são as dívidas oriundas de processos judiciais,
trabalhistas e cíveis. Graças ao chamado Ato Trabalhista (um acordo feito no
início da década passada e que destina parte da renda dos jogos para pagamento
de sentenças da Justiça do Trabalho), a dívida trabalhista está razoavelmente
equacionada
O
Flamengo deve R$ 29 milhões de ações trabalhistas, parte delas ainda em
discussão. Ou seja, é possível que esse montante seja maior ou menor, embora a
tendência é de que permaneça por aí.
Em
relação aos processos cíveis, são R$ 85 milhões. Como o valor é praticamente o
mesmo do que o de 2013 (que incluía o famoso processo do Consórcio Plaza, um
empreendimento que seria construído na Gávea e cujo sinal foi usado para
comprar Edmundo, o Animal) e os processos tributários são irrisórios (R$ 200
mil, apenas), ficamos com a impressão de que a ação movida pelo Bacen e que
chegou a bloquear os pagamentos da CEF em 2014 ainda não foi reconhecida pelo
clube como algo a ser provisionado. Se o clube perder, são mais de R$ 80
milhões a serem acrescentados.
Enfim,
o clube admite correr o risco de ter que pagar R$ 114 milhões de processos
judiciais (e nós acrescentamos que ainda tem a ação do Bacen, de mais R$ 80
milhões).
Por
fim, tem mais R$ 5 milhões de outros credores, o maior deles o antigo Clube dos
Treze.

Analisando
tudo, e considerando que:
a) as parcelas dos impostos refinanciados não serão
atrasadas;
b) novos empréstimos/adiantamentos de receitas futuras serão feitos
de forma bastante comedida e estritamente necessária para atender as
necessidades de curto prazo;
c) os processos judiciais em curso serão pagos de
forma escalonada;
d) o clube engatará um longo ciclo de superávit
financeiro….
..É
possível cravar que 2018 será o ano da virada definitiva! Dali em diante, o
clube será uma potência muito difícil de ser igualada por seus competidores
mais próximos, principalmente porque os ajustes realizados pelo Flamengo mais
cedo ou mais tarde precisarão ser adotados pelos rivais. Isso obviamente se as
decisões até lá continuarem obedecendo ao padrão atual.

Um
comentário final se faz necessário.
O
Flamengo evoluiu MUITO em termos de transparência. O balanço é bastante
explicativo e detalhado, revelando a intenção de se expor à análise. Anos
atrás, quando começamos a escrever sobre as demonstrações financeiras do clube,
era difícil até mesmo encontrá-las no site, pois elas eram postadas ali sem
qualquer aviso ou destaque. Além disso, era prática que os balanços fossem
apresentados com ressalvas de auditoria (o que tirava credibilidade das
informações prestadas). Isso felizmente parece fazer parte do passado.
Pelo
segundo ano consecutivo – e mesmo sabendo que os autores manteriam sua atitude
de analistas independentes, sem economizar nos elogios e nas críticas – o clube
teve a gentileza de remeter uma versão preliminar do balanço antes mesmo de sua
publicação definitiva.
Se
expor ao debate dessa forma é um sintoma de inequívoca evolução e maturidade.
Que continue assim, por muitos e muitos anos.
Magia
Neles!

Jorge
Farah e Walter Monteiro

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