Botafogo x Flamengo tinha menos PM que contra o Nova Iguaçu.

Por: Fla hoje

Foto: Marcelo Baltar

GLOBO
ESPORTE
: Um dos seguranças do Botafogo, na porta do Engenhão, pouco antes das
17h, observou:


Repórter, repara só. Tem mais ambulância do que carro de polícia – disse.
Era o
início de uma tarde e noite que vai virar exemplo do que não pode acontecer na
realização de um clássico. A vitória do Flamengo por 2 a 1 sobre o Botafogo foi
precedida de cenas de guerra no entorno do Nilton Santos – não à toa há um
morto e feridos no saldo triste de mais um domingo em campos brasileiros. O
estádio, é bom que se diga, nada tem a ver com os tristes episódios deste domingo
pelo Campeonato Carioca.
Foram
vários fatores que provocaram este cenário. Com dois repórteres e um fotógrafo
rodando o Engenhão horas antes e depois da partida, além de depoimentos
diversos – anônimos ou não -, o GloboEsporte.com mostra por que tudo deu
errado. E poderia ter sido bem pior.
O CONTEXTO
A
crise no Estado, com atraso de funcionários e servidores, chegou à segurança
pública. Os protestos da Polícia no Espírito Santo chegaram ao Rio no fim da
semana passada e minaram batalhões. Atingiu em cheio o futebol na tarde deste
domingo. Diretores do Botafogo informaram à reportagem que, às 16h, horário de
chamada do quatro operacional do estádio, simplesmente não havia um policial
para abrir o estádio. Policiais do 3º Batalhão da Polícia Militar e a cavalaria,
que sempre faz a segurança no entorno dos jogos no Rio, não apareceram no
Nilton Santos. O Botafogo abriu os portões às 17h e fez a revista na entrada do
estádio com segurança própria.
QUANTOS POLICIAIS DEVERIAM COBRIR A ÁREA
DO JOGO?
Após o
jogo, na porta do Jecrim, um dos policiais, do Grupamento Especial de
Policiamento em Estádios (Gepe), relatou ao GloboEsporte.com.

Clássico no Rio a gente faz com 160 a 180 policiais. Sabe quanto tínhamos antes
do jogo? Cinquenta e dois policiais! Sabe quantos mais vieram? Dois – disse o
policial, sem se identificar, afirmando que o pequeno efetivo policial era
resultado dos protestos na frente dos batalhões.
Na ata
de planejamento para o clássico, o Gepe previa ter 170 policiais. Após a
partida, policiais do Gepe, no estacionamento do Engenhão, mostravam revolta
com as condições de trabalho nesse domingo e a falta de apoio na partida.
No
lado de fora do estádio, o 3º Batalhão da Polícia Militar teria 48 policiais,
com 24 viaturas. Para se ter ideia, na estreia do Botafogo no Estadual, contra
o Nova Iguaçu, o 3º BPM planejou usar 60 policiais. Antes da partida,
pouquíssimos carros da Polícia apareciam nos arredores. Quando a situação saía
completamente de controle, chegaram carros do 1º Comando de Policiamento da
Área, do 17º BPM e do 22º BPM. As intervenções evitaram mais feridos.
O QUE AS AUTORIDADES E O BOTAFOGO FIZERAM
De
última hora, policiais de outros batalhões e mais apoio da Polícia Civil foram
chamados para completar o policiamento no estádio. Chegaram ainda ônibus com
guardas municipais. O Botafogo tentou cancelar a partida, alegando falta de
segurança e de policiamento. O clube contratou 300 seguranças particulares, da
empresa “Blindados” – o que representa aumento de quase 70% no que o
clube costuma usar no estádio.

Nossos seguranças que fizeram a revista dos torcedores quando o público começou
a chegar – contou um diretor do Botafogo.
O
clube permitiu a sócios torcedores e outros alvinegros a entrarem por portão
alternativo, para que evitassem dar a volta e se aproximar da confusão nas ruas
do estádio.
O QUE ELES DISSERAM ANTES?
“O
Gepe garantiu durante a semana a segurança para a realização do clássico. Temos
70 homens do Gepe dentro do estádio, cerca de 50 policiais militares no
entorno, 14 viaturas e mais 120 homens da guarda municipal. Ainda são esperados
mais 80 guardas municipais, totalizando 200. Não podemos cancelar a partida na
base do achismo. Tem que haver um documento oficial do Gepe”
Marcelo
Vianna, diretor de competições da Ferj
“Nós
temos confiança plena no major Silvio, no Gepe, temos certeza que o jogo vai
acontecer sem problema nenhum. Momento do Rio e do Brasil preocupa a todos nós.
Mas em relação ao jogo de hoje, acho que vai acontecer sem o menor problema,
qualquer coisa dito ao contrário só serve para alarmar ainda mais a população,
aos torcedores. Vai ser um jogo perfeitamente dentro do normal. Temos a palavra
do comandante do Gepe de que está tudo sob controle.”
Presidente
do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, ao SporTV
“Quando
cheguei, fui informado de que não existia policiamento na área externa do
estádio. Tem policiamento da Polícia Civil, mas da PM não tinha ninguém fora. O
Botafogo se sente desconfortável com a realização do jogo. Mas a Ferj diz que
segurança é adequada, e vai ter jogo. Então vamos jogar”
Luis
Fernando Santos, vice-presidente executivo do Botafogo
“Viemos
aqui para jogar, mas o torcedor precisa de segurança. É claro que todos estão
aqui para ver futebol, mas, se perguntarem a minha opinião, para mim seria
melhor não ter jogo nessa situação”
Roger,
atacante do Botafogo
COMO COMEÇARAM AS BRIGAS?
Difícil
definir onde o foco de violência começou. Mas a correria era da entrada da rua
José Reis – entrada de alvinegros – até a rua Doutor Padilha e a rua das
Oficinas – “divisória” e até a entrada para o lado dos flamenguistas.
Quando o policiamento chegou, a confusão já era generalizada – com garrafas
arremessadas, cadeiras de bares, pedras e, em reação, a polícia jogou gás de
pimenta e muitas balas de borracha. Uma delas, atingiu em cheio um segurança do
Botafogo.
A
vizinhança se assustou. Moradores entraram para dentro das casas, que abrigou
até torcedores desconhecidos, com medo da violência. Cerca de uma hora antes da
bola rolar, outro tumulto e que seria o mais grave. Um carro passou atirando na
entrada da torcida alvinegra – um dos tiros atingiria Diego Silva dos Santos,
de 28 anos, que morreu. O desespero era total, com pessoas se jogando ao chão e
se escondendo atrás de carros e dos muros no entorno do estádio.
Mas
tarde no Setor Oeste, torcedores do Botafogo tiveram de pular as catracas e
entrar às pressas por receio da confusão ao lado de fora. Cenas de guerra
tomaram as ruas, com confrontos entre as duas torcidas. A polícia não conseguiu
impedir, nem mesmo usando gás de pimenta. Houve tiroteio.
ALGUÉM FOI PRESO?
A
confusão no entorno do Nilton Santos envolveu centenas de pessoas, mas apenas
três torcedores foram detidos: dois do Flamengo e um do Botafogo. Os motivos
foram os mais variados: brigas, vandalismo e tentativa de invasão. Os três
ficaram detidos ao longo do jogo no Jecrim (Juizado Especial Criminal),
prestaram depoimento e assinaram um termo, no qual se comprometiam a pagar
multas de R$ 200, em duas parcelas, a serem revertidas em mantimentos para a
delegacia. Dois deles assinaram e foram liberados após o clássico. O terceiro,
porém, rasgou o documento assinado na frente do juiz e, segundo policiais,
seria encaminhado para Cidade da Polícia, no Jacaré, na Zona Norte do Rio de
Janeiro.
O QUE ELES DISSERAM DEPOIS?
“Não
tinha nenhuma declaração, documento ou posicionamento da PM ou da secretaria de
Segurança contrária á realização da partida. Em todo o momento falamos com o
comandante do Gepe, e o que foi passado é que a PM garantia a segurança do
público. Mas o que acontece é que a cidade do Rio de Janeiro, hoje, vive um
clima tenso, um clima de insegurança. Os policiais estão tendo problemas para
sair do quarteis, e houve uma demora para a montagem do policiamento externo do
estádio. E algumas informações que as pessoas passam acabam trazendo para o
estádio pessoas que não deveriam vir. Se você começa a passar o posicionamento
de que não tem policiamento, o bandido que está em casa vem para cá também. É
preciso ter mais responsabilidade também. Não sei precisar o número de
policiais. Mas na sequência posso dizer que o número foi bem próximo do que é
necessário para a realização de uma partida de futebol”
Marcelo Vianna, diretor de competições da Ferj
“O que
aconteceu hoje fora do estádio foi lamentável. Tivemos que esperar no ônibus
para chegar ao estádio. Ouvimos bombas, tiros. Liguei para a minha família. Meu
sobrinho já estava aqui. Muitas famílias e crianças. Nos preocupamos com todos
que estão aqui, independente para quem torce. Lamentável, os anos vão se
passando, e a violência não acaba. A gente preza tanto pela paz. Nós, os
protagonistas do espetáculo, ficamos tristes. Acredito que foi um grande jogo,
com gols, os dois times procuraram o jogo. Mas isso tudo acaba apagado por
conta desse episodio lamentável fora do estádio”
Jair
Ventura, técnico do Botafogo
“Quem
define se uma partida deve ser realizada ou não é o policiamento. O comandante
disse que havia condições para acontecer. Esse tipo de confusão antes dos jogos
de vez em quando acontece, às vezes não envolve nem torcedores. É lamentável
que esse tipo de coisa continue acontecendo. Mas não me parece ter havido
problema de a partida ser realizada. Esse tipo de coisa acontece até longe dos
estádios às vezes, com torcedores marcando pra brigar em lugares remotos. Temos
que lamentar e pedir que as punições sejam aplicadas às pessoas físicas. O
crime tem que ser investigado, descobrir quem fez e botar na cadeia”
Eduardo Bandeira, presidente do Flamengo
“A
gente fica complemente decepcionado porque foge completamente do espetáculo
futebol. A preocupação é com essas pessoas que se envolvem e também com nossos
familiares que estão constantemente nos estádios, nossos filhos, esposas. Deve
ser respeitado. Temos que aprender cada vez mais que precisamos dos nossos
adversários para poder competir, evoluir, e isso tem que entrar nas nossas
cabeças. A rivalidade tem limite. Cada cena que vejo dessa realmente dói no
coração porque o futebol não tem nada a ver com isso”
Diego, meio de campo do Flamengo
E AGORA?
Várias
cadeiras foram quebradas no Setor Sul, destinado aos torcedores rubro-negros. O
Botafogo vai realizar uma vistoria nas cadeiras, bares e banheiros, nesta
segunda-feira, e apresentar o prejuízo ao Flamengo. O Alvinegro mantém a
posição de que seria impossível realizar o clássico com o efetivo policial
presente no Nilton Santos e soltou uma nota oficial lamentando o desfecho ainda
na noite de domingo. Leia o comunicado abaixo na íntegra:
“O
Botafogo de Futebol e Regatas lamenta profundamente a morte do torcedor Diego
Silva dos Santos, de 28 anos, baleado no entorno do Estádio Nilton Santos,
antes do clássico com o Flamengo, neste domingo. O clube presta solidariedade a
familiares e amigos da vítima.
Toda a
violência que cercou o clássico, deixando feridos e prejuízo, é repudiada pelo
Botafogo. Para o clube, futebol começa com paz nos estádios e segurança para os
torcedores. O clima de insegurança e medo não pode jamais combinar com o
esporte”.

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