Cabral, Maracanã e o roubo do espírito do futebol carioca.

Torcida do Flamengo no Maracanã – Foto: Divulgação

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Entre
2007 e 2008 eu tinha o hábito de telefonar com frequência para Sérgio Cabral, o
pai. Colunista do LANCE!, o veterano jornalista era sempre ouvido sobre seu
Vasco, clube do qual eu era setorista. Entre uma e outra palavra para a
publicação no jornal, trocávamos opiniões sobre os rumos de São Januário e ele
frequentemente viajava ao passado para contar uma história saborosa. Naqueles
minutos, Cabral pai falava com doçura sobre o Maracanã e chegou a citar
brevemente uma ou outra ida ao Templo do Futebol com o filho, então governador
do Rio. Geralmente, a doce lembrança era sobre um clássico.
Vascaínos
de um lado, rivais do outro, uma cultura civilizatória de arquibancada
entranhada na raiz do futebol carioca. Uma década depois, a tristeza com o que
se tornou o Maracanã é encharcada de ironia ao constatar que Cabral, o filho,
iniciou o processo destrutivo da maior herança cultural do futebol carioca.
Entre inúmeros legados nefastos na saúde, na educação e na segurança
fluminenses, Sérgio Cabral Filho talvez amargue em sua cela em Benfica, também,
a morte da ideia de um patrimônio que unia torcidas, compartilhava sentimentos
e dava a todos o direito de chamá-lo de seu.
Em uma
era na qual o individualismo supera qualquer ideia de coletivo e o ódio
espalhado em redes sociais tenta impedir a convivência entre diferentes gostos,
o velho conceito do Maracanã faz falta. Dava aula a pequenos que chegavam de
mãos dadas com os pais à arquibancada trajando suas cores, explodindo de
alegria nos gols do seu lado e calando-se com amargor com a explosão uníssona
do outro lado do gigante. Era possível conviver com o diferente sem odiá-lo.
Enxergar outra cor na bandeira sem querer atacá-la. Um aprendizado sobre
convivência que Cabral Filho decidiu destruir.
Foi
ele, o garoto que ia acompanhado do pai ao velho Maraca para assistir ao Vasco
e seus rivais, o responsável por desintegrar a identidade da convivência entre
diferentes povos ao entregar sua administração a um esquema de cartas marcadas,
com preços exorbitantes que tinham como plano fazer da paixão um negócio
lucrativo. Com velocidade surpreendente, a cultura do Maracanã se desintegra no
futebol carioca.
O
Botafogo busca morada no Nilton Santos, o Engenhão. O Flamengo se refugiou na
Ilha do Governador. O Vasco finca seus clássicos em São Januário. E o
Fluminense, último resistente, também abandonou o Maracanã com medo de seus
custos indecentes. Os clássicos cariocas, sem a cultura do velho Maraca, rumam
para a segregação. Talvez exista apenas 5% da carga para rubro-negros no
sábado, em São Januário. Impensável no Templo do Futebol.
O
Maracanã, solitário, repousa como um mausoléu da bola. Vazio, apenas com ecos
do passado. Um símbolo do enterro da cultura da boa convivência entre as
torcidas. Da divisão 50/50. Das diversas bandeiras. De cantos, abraços, choros
e alegrias. Um espírito carioca. Dos tantos males feitos ao povo da Guanabara,
Sérgio Cabral Filho pode dizer que contribuiu com mais um. Iniciou a destruição
da ideia de Maracanã. Incitou a segregação em troca de dinheiro. Permitiu o
desmanche de uma cultura. Roubou o espírito do futebol carioca.

Por: FlaHoje

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