domingo, setembro 20, 2020
Início Notícias Choro, decepção com Ney e solidão: o PV que perseverou.

Choro, decepção com Ney e solidão: o PV que perseverou.

Globo
Esporte – Após ficar um mês e meio fora por conta de uma fratura na perna
direita, Paulo Victor retorna à meta do Flamengo no jogo contra o Santos, neste
domingo – às 16h, no Maracanã -, justamente na mesma época em que completa um
ano desde que assumiu de vez a titularidade do time. O “aniversário”
representa muito para o goleiro, que passou por poucas e boas até alcançar seu
objetivo. Já são 10 anos de clube, nove como profissional, a grande maioria
deles na reserva. Já foi segunda, terceira, quarta opção dos treinadores que
passaram pelo Rubro-Negro. Mas ele chegou lá. Por isso, os funcionários do
Ninho do Urubu, principalmente os mais antigos, veem em PV um exemplo de
paciência, perseverança e superação.
O
camisa 48 alimenta enorme gratidão por Joel Santana e Vanderlei Luxemburgo,
treinadores que acreditaram em seu potencial e lhe deram oportunidade. E, além
do apoio dos pais, sogros, demais familiares a amigos, agradece principalmente
à esposa, que está grávida, por viver talvez o melhor momento de sua vida.
Hoje, Paulo Victor tem uma vida bem estruturada, é ídolo da torcida rubro-negra
e espelho para os goleiros mais novos César, Daniel e Thiago, a quem procura
sempre orientar. Durante esse longo caminho, no entanto, precisou superar
diversas barreiras e momentos de desânimo. Revivendo as lembranças no centro de
treinamento onde morou por vários anos, ele contou os episódios mais marcantes
dessa fase difícil em entrevista exclusiva ao GloboEsporte.com. Veja a seguir.
Em alta velocidade, só o início no Fla
Paulo
Victor: Minha chegada aqui já foi uma surpresa. Eu iria para um outro clube. Um
cara me indicou para cá, aí vim para o Flamengo. Em um ano, eu era o terceiro
goleiro dos juniores e virei titular. No outro ano subi para o profissional.
Nesse tempo até que as coisas aconteceram rapidamente. Depois começou esse
momento de prova, oito anos brigando pela titularidade. Fui quarto goleiro
durante quatro ou cinco anos, terceiro goleiro durante dois ou três anos,
segundo goleiro durante três anos. Claro que no meio disso não tem só coisas
boas. Também não digo que são ruins, porque peguei tudo isso e transformei em
coisas boas.
Choro no carro
Acho
que foi em 2007, eu era o quarto goleiro. Às vezes ficava um ano inteiro sem
entrar em coletivo. Eu chegada na Gávea sabendo que treinaria no campo do lado.
Só entrava mesmo nas finalizações e nas faltas. Nos outros dias era a mesma
coisa. Até que um dia o treinador (Ney Franco) disse que me colocaria no
coletivo. Corri para o gol. Entrei no gol, passaram uns 20 segundos, e acabou o
coletivo. Meu olho encheu de lágrimas naquele momento. Ainda tive que terminar
o treino na parte de finalizações. Quando acabou, entrei no meu carro, saí da
Gávea para o CT, onde eu morava, e vim chorando, pensando na vida e nas coisas.
Mas acho que a gente tem que pegar as coisas difíceis e transformá-las em
coisas produtivas. Se vivi aquilo, foi para amadurecer. Se a gente fizer o
certo, uma hora dá certo.
Ônibus, chuva e brincadeira de Renato
Abreu
Em
2005 eu ainda não tinha carro e saía do CT (em Vargem Grande) às 5h30 da manhã
para treinar na Gávea às 9h30. Acordava às 5h, pegava um ônibus, o 382, que
parava na praia de Ipanema. Eu chegava bem antes do treino, às vezes duas horas
antes. Tinha que sair bem antes para não chegar em cima da hora. Engraçado que,
quando estava chovendo, eu já ia reclamando. Eu sabia que tinha de descer do
ônibus na praia de Ipanema e sair correndo para chegar à Gávea, e são cinco
quarteirões. Chegava todo molhado. Lembro que o Renato Abreu ficava brincando
comigo. Uma vez ele estava no vestiário e me disse: “Ê Paulo, é difícil
andar de ônibus, né?”, contando que andou muito de ônibus, que a vida dele
não foi fácil. Eu levava aquilo como brincadeira e ao mesmo tempo para me motivar,
para ver que aquilo tinha de ser passageiro. Por mais que eu entrasse pouco em
coletivo, eu ia para as cobranças de falta e para os rachões com o pensamento
de que aqueles eram os momentos para o treinador me ver e gostar de mim.
Ninguém fica 10 anos por acaso. Se estou aqui esse tempo todo, é porque as
pessoas foram apostando. É por causa desses pequenos detalhes.
Solidão pelos cantos do Ninho do Urubu
Na
minha época morando aqui não existia nem a lan house que tem hoje. Eu treinava
no sábado, e o time ia se concentrar. Eu tinha que me reapresentar na segunda
ou na terça só. Então ficava sentado nos cantos no fim de semana. Meu
passatempo era ouvir música no meu mp3 player. A internet não era tão fácil.
Muitas vezes ficava sentado nos cantos do Ninho pensando na vida. Conheço o CT
como poucos. Lembro da jabuticabeira que tinha, eu ficava sentado do lado dela,
passava a noite. Não tinha o que fazer. Eu não tinha carro em 2005, então
também ficava com os amigos, os outros meninos que moravam aqui.
Pastel e pizza do paizão PV
Quando
fui melhorando um pouco, renovando contrato com o Flamengo, pensei em fazer
alguma coisa para tirar um pouco os meninos daqui. Eu exigia que os meninos não
fizessem qualquer jogo de aposta e diariamente cobrava arrumação nos quartos.
Tinha o Anderson Bamba, que está na Alemanha, o Lorran… Sofreram muito na
minha mão. Cobrava disciplina. Eu morava no CT em 2006, mas já tinha carro, aí
não queria que eles passassem pela mesma coisa que passei, não ter o que fazer.
Pegava os meninos todo sábado e os levava para comer pastel em Vargem Grande.
Pegava o carro e levava cinco. Depois levava mais cinco. A gente comia pastel
junto, tomava caldo de cana, e eu pagava para todos. A gente passava tempo
junto. Às vezes eles chegavam para mim: “PV, essa semana foi dureza. Vamos
comer pastel sábado e domingo?”. Muitas vezes eu tinha que tomar cuidado,
porque eles tinham jogo no dia seguinte, aí eu os trazia de volta cedo. Eu
treinava na Gávea e lembro que, quando chegava ao Ninho e estava estacionando o
carro, os meninos já corriam para deixar tudo ajeitado. Eu chegava e estava
tudo bonitinho. Procurava dar carinho a eles. Ia à praia, levava alguns, depois
voltava e levava mais um pouco no carro. Procurei fazer muito isso. Quando
aluguei um apartamento no começo de 2007, eles me pediam: “Pô, PV! Não
abandona a gente, não”. Continuei fazendo. Às vezes a gente nem saía, mas
eu vinha e pedia pizza para todo mundo. A rapaziada amava.
Farofa de Dorival Júnior em 2012
Eu
vinha crescendo no Flamengo quando o Joel Santana me deu a oportunidade de ser
titular. O Dorival chegou, joguei dois jogos, aí ele me tirou. Naquele momento
foi difícil engolir. Depois a gente pensa e começa a entender que as coisas são
naturais da vida. Fiquei muito chateado ali, porque eu imaginava que era o meu
momento. Lembro que ele me chamou na sala e disse: “Paulo, você ainda vai
ser um dos melhores goleiros do Brasil, só quero que você tenha
paciência”. Por mais que eu tenha escutado aquilo, por dentro era como
engolir farofa, não desce. Mas encontrei o Dorival outras vezes depois disso, é
um grande treinador, e não tenho mágoa. Me entristeceu naquele momento, mas
hoje entendi que talvez não fosse a hora certa. O Paulo Victor tinha que
amadurecer mais. Ele disse que eu precisava ganhar mais experiência e colocou o
Felipe de novo.
Decepção com Ney Franco em 2014
Fiquei
chateado nesse episódio porque ouvi da boca do Ney Franco. Ele disse:
“Olha Paulo, você agora é meu titular, confio em você”. E ele tinha
me ligado para eu ir para o Vitória um mês antes (Ney treinou o Vitória antes
de ir para o Flamengo). Quando ele chegou ao Flamengo, achei que as coisas
fossem mudar. Ele me disse que eu seria titular, e é bom ouvir isso. Fiz uns
jogos e fui bem. Logo depois teve a parada para a Copa do Mundo. Fomos para
Atibaia-SP treinar faltando um mês para voltar o Brasileiro. E comecei a
perceber que ele estava me deixando de lado. Só que em nenhum momento ele veio
conversar, dizer que não me colocaria. Isso foi passando, e eu sabia que não
voltaria como titular. Segui trabalhando, batalhando. Fiquei triste por ele não
ter chegado em mim e falado. Ninguém tem obrigação de me colocar, a gente tem
que saber respeitar opinião dos outros e também obedecer, pois sou funcionário
do clube. Mas com o Dorival, por mais que tenha sido ruim para mim, ele pelo
menos me chamou para conversar. Começou o treino, o Ney Franco não me colocou
(de titular), passou do meu lado e não falou nada comigo. Passaram duas
rodadas, e ele foi mandado embora. Também tenho zero de mágoa. Chegou o
Vanderlei, a quem sou muito grato, e assumi a titularidade de novo.

MAIS LIDOS

Thuler titular: Torcedores pedem oportunidades ao zagueiro

O Flamengo vem de uma dura derrota para o Independiente del Valle. No jogo contra os equatorianos, pela Libertadores da América, o sistema defensivo...

Perfil diz que Jorge Jesus aceitaria retornar ao Fla num cenário

O torcedor do Flamengo estava torcendo para Dome Torrent conseguir fazer com que o Flamengo continuasse jogando um futebol de alto nível. Entretanto, isso não aconteceu....

Flamengo terá que abrir os cofres caso demita Domenec

Domenec Torrent está por um fio de ser demitido do Flamengo, uma nova derrota diante do Barcelona de Guayaquil será o fim precoce de...

Diego Alves deve renovar o seu contrato com o Flamengo

O Flamengo possui um dos grandes elencos do futebol sul-americano. Mesmo com a sequência de títulos, o Rubro-negro conseguiu se segurar e manteve os...