segunda-feira, setembro 28, 2020
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Contra preconceito, Arnaldo cita música pejorativa ao Flamengo.

Torcedores (crianças) pobres do Flamengo montando pipas – Foto: Grey Photography

O
GLOBO
: Por Arnaldo Bloch

“Livre
pensar é só pensar.” A beleza da máxima de Millôr Fernandes é tratar do peso
que as expressões carregam. Herdeiro temporão do advento da filosofia (quando
rompe com os mitos da antiguidade clássica), o termo “livre pensar” nasceu lá
pelo século XVII pós-renascentista e pré-iluminista e é parte da reação às
trevas que a Idade Média fez recair sobre o pensamento. O intuito era
libertá-lo de dogmas (da autoridade, da tradição ou da revelação religiosa) e
ideias preconcebidas. O livre-pensador pensaria com a razão, com um ouvido na
intuição, e os olhos na experiência sensível. Mas novas trevas, no século XX,
levariam o termo a evoluir para um uso moderno, de qualquer defesa contra a
opressão. Nos jogos de dominação é prioritário fazer dos dominados seres
incapazes de pensar de forma autônoma. Por isso que, no totalitarismo, não se
teme só o vizinho, o irmão, o filho, a “polícia do pensamento”, mas o que passa
pela própria cabeça. Porém, à medida que se experimenta a democracia, a palavra
“livre” do “livre pensar” se torna obsoleta: o pensamento é, por natureza,
livre, ainda que em parte condicionado pela criação, pela educação, pelo
ambiente. Logo, “livre pensar é só pensar”, na síntese de Millôr.
Os
dogmas, porém, permanecem e se renovam, e não se pode (nem se deve) proibir o
ato de pensá-los e até de segui-los. No pensamento livre pós-moderno caberia,
então, tudo. Do dogma à razão, do determinismo ao caos. Neste contexto, nasce
uma nova reação, traduzida na expressão bem contemporânea do “politicamente
correto”. Aparentemente, ela se opõe ao livre pensar moderno, mas está em
harmonia com o seu sentido clássico: é através da razão e da sensibilidade que
se insiste, hoje, em romper com o entulho dogmático. A estratégia é atacar não
a liberdade íntima de pensar o “incorreto”, mas a razoabilidade de se o
expressar sem freios ou respeito. Isso leva a um equívoco brutal: os obtusos
tendem a achar que se trata de uma agenda política das esquerdas. Sem perceber
que há uma direita ecológica ultrapragmática. Ou uma esquerda que abomina os
“ecochatos” e prioriza o social.
Essas
confusões só servem para esconder a abrangência da nova agenda: uma grande
pauta que une defesa das minorias, preservação de culturas milenares, inibição
da homofobia, conscientização sobre o assédio, respeito à natureza etc. Um
movimento de mudança radical de paradigmas. Imperfeito. Com exageros e alguns
absurdos. Mas quem se envergonha de ter estado em meio ao “Ela, ela, ela,
silêncio na favela” usado (agora menos) pelos rivais para “calar” a torcida do
Flamengo (eu nunca aderi ao slogan, nem chamo rubro-negros de “mulambada”)
talvez ache que vale o risco. Para mudar é preciso afirmar, e as coisas não
mudam da noite para o dia. Se pensar o preconceito é “livre”, qual o limite
para sua expressão?
A
ideia é, através da Lei, reprimir e criminalizar o discurso que procura
desqualificar, diminuir. E, através de um longo processo de reeducação, ensejar
que as novas gerações vejam (e já estão vendo) o seu semelhante como
semelhante, mesmo quando esse é diferente. Isso causa frustração em muitos. Um
romantismo da brutuculândia solta sua voz rouca nas ruas, empunhando o discurso
de que o “politicamente correto” é uma ditadura de posturas.
Quando
o Papa Francisco diz aos católicos que Adão e Eva são uma alegoria e que não se
deve tomar o escrito bíblico como verdade dogmática; ou quando defende que se
acolham os gays como irmãos e iguais, pode-se dizer que está sendo politicamente
correto. Quando numa escola fundamentalista se ensina que é preciso converter
infiéis e eliminar os resistentes, é o oposto. O Islã extremista e as correntes
neopentecostais vão nessa direção. E vão nessa direção, de reproduzir mitos e
dogmas “que estão inscritos” (no sentido de Derrida), os homofóbicos, os
antissemitas, os islamofóbicos, os machistas, os racistas, os que odeiam os
povos indígenas, os que desrespeitam as mulheres etc.
É
claro que na transição para um novo mundo surgem palavras-tampão que soam
feias, até ridículas, e que traem a verve de um certo discurso livre
acorrentado aos grilhões da humilhação ao outro: “Eu falo como eu quero, e que
se danem os oprimidos que sofreram por séculos o bullying da sociedade
patriarcal, dos impérios, das ditaduras, da segregação, da psiquiatria
arcaica”.
Talvez
esteja na hora de lidar com a hipótese de que o politicamente correto seja só o
correto. A língua, viva, vai reagir e balancear os excessos. Nada disso vai
matar a poesia, o humor, a criação. Há comediantes encontrando formas de
brincar com minorias sem agredi-las, fazendo rir ao mesmo tempo que
problematizam seu sofrimento ou, por outra, prestando homenagem às suas
singularidades. Talvez aí esteja o corte, a linha divisória para purgar a herança
maldita: uma intuição, um tempero interno, um livre pensar sobre o que se pensa
em conflito com o que se resiste a repensar.

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