Após quase sair, Zé não promete título do Flamengo: “Prometo luta”

Técnico do Flamengo, Zé Ricardo – Foto: Gilvan de Souza

O
GLOBO
: Desde cedo, Zé Ricardo se habituou a trabalhar. Tinha 15 anos quando um
problema de saúde do pai o fez conciliar os estudos e o serviço na banca de
jornais da família, no Centro do Rio. Foi jornaleiro por sete anos, até que o
investimento na carreira o fez se dedicar a outros caminhos. Em 2017, num
momento de extrema dúvida, apostou em suas convicções e em sua capacidade de
trabalho. A expectativa criada em torno do Flamengo foi proporcional ao
investimento feito pelo clube. E a queda na Libertadores, além de atuações
abaixo do esperado, fizeram Zé Ricardo lidar com forte pressão. Ele revela,
nesta entrevista ao GLOBO, que pensou em pedir demissão. O treinador vê o time
novamente em crescimento, projeta as entradas de reforços como Éverton Ribeiro
e revela um trabalho especial para Márcio Araújo evoluir na parte ofensiva.

No período de maior pressão, o que mais
machucou você?
Ninguém
gosta de ser criticado o tempo todo, mas faz parte. Em alguns momentos
ultrapassa o limite a ponto de você ter problema na família, quando invadem sua
privacidade.
Você se refere ao vazamento do seu número
de celular?
Foi
uma invasão de privacidade. Começaram a chegar mensagens, algumas até davam
força, outras agrediam e entravam até em ameaças à segurança. Tem que
administrar e seguir.
Já imaginava que o investimento alto do
clube geraria tanta cobrança?
Avaliava
que seria ano muito difícil em relação a cobranças. A torcida espera muito de
nós. Mas só o nome não vai fazer a gente ganhar títulos. Temos estrutura
grande, mas que é tocada por pessoas.
No auge da pressão, você pensou em pedir
demissão?
Olha,
eu não sei se cheguei ao ponto 100, mas cheguei perto. Porque a gente estava
fazendo um esforço grande para sair do momento ruim e, mesmo assim, estava com
dificuldade. E comecei a pensar se era culpa minha. Mas o pedido de demissão é
uma derrota pessoal muito grande. Eu me coloquei numa situação de meu filho me
perguntar por que eu desisti. O que eu iria falar para ele, quando ele
crescesse, para explicar? Refleti com minha esposa e não tomei a decisão.
Confesso que a pressão foi muito grande, mas entendi que era uma questão de
provar a mim mesmo que era capaz de seguir.
Foi após a saída na Libertadores?
Aquele
foi um momento agudo, mas até ali eu não pensava em pedir demissão. Mas a
derrota para o Sport teve uma repercussão muito ruim, uma insatisfação da
torcida. E eu respeito muito a torcida. Talvez a palavra certa nem fosse pedir
demissão, seria fazer um acordo com a diretoria para encerrar o trabalho. O
clube me deu respaldo, a direção sempre foi honesta. A maior cobrança era
minha. Eu estava tentando arrumar forças para continuar.
Você reviu o jogo com o San Lorenzo?
Mudaria algo?
Revi
algumas vezes, foi uma derrota dolorida. A gente não fez um bom jogo no segundo
tempo, aceitou demais o jogo do San Lorenzo, mas até levar o primeiro gol não
tínhamos sofrido. Não mudaria as substituições. Eu tinha percebido que Berríio
tinha mudado o comportamento. E ele teve uma lesão de grau 2. A entrada do
Rômulo era natural. E a entrada do Juan no final do jogo foi para a gente
suportar aquela pressão. Não vejo que tivesse outras opções a fazer. Quanto ao
Sávio, era ele ou Ederson, que voltava de lesão.
Como foi a noite pós jogo?
Não
teve noite, não consegui dormir. Você fica pensando por que foi daquela forma.
Foi uma dura lição. Sem dúvida, vai servir para a minha carreira.
Por que o time não evoluiu como imaginado
em relação a 2016?
Tivemos
jogadores que se lesionaram. A gente precisa reencontrar o bom futebol do ano
passado e agora acho que estamos crescendo. Claro que foi difícil substituir o
Diego. Além de toda a identificação que criou com o clube, fomos obrigados a
suprir sua ausência com jogadores de características diferentes. Agora, está
recuperando o ritmo.
Cuéllar tem jogado ao lado de Márcio
Araújo. Com Éverton Ribeiro, além de Diego e Guerrero, será preciso ter dois
volantes mais posicionados?
Esta é
uma avaliação que temos. Para potencializar Éverton e Diego, além de Geuvânio,
Guerrero, laterais que gostam de jogar na parte ofensiva, precisamos de
equilíbrio. Estamos conseguindo, sofremos dois gols em cinco jogos. Nossa saída
de bola ainda precisa melhorar, a segunda fase da construção das jogadas
também. Mas estamos voltando a ter um jogo bem construído. O time andava se
desfazendo da bola rapidamente, pela ansiedade. E um dos pontos importantes do
nosso modelo de jogo era evitar a perda da bola, o contra-ataque, chegar ao
ataque preparado para se defender.
Esperava contar mais com Rômulo?
Ele é
excelente jogador e ainda vai surpreender muita gente. Estava com problemas
para entrar na melhor forma, mas está voltando. Há coisas curiosas. No início
do ano, conversei com o Márcio Araújo que queria colocar o Rômulo em condição o
quanto antes, em dupla com o Arão, mesmo o Rômulo não estando na melhor forma.
Talvez tenha sido um erro meu. Ele vinha bem. Contra a Universidad Catolica,
perdemos sincronismo com a saída dele. E,na época, em jogos em que sofremos
contra-ataques, como a final da Taça Guanabara, atribuíram à falta do Márcio
Araújo. Mas o que havia era a precipitação no ataque. Sempre estive tranquilo
quanto aos volantes.
Você concorda com as críticas de que
Márcio Araújo prejudica a saída de bola?
Discordo.
Ele é importantíssimo para o grupo, um modelo de atleta e tem evoluído. Contra
o Santos, foi exemplar ao lado do Cuéllar. Temos cobrado para que não faça só
passes curtos. Ele tem uma leitura de jogo após a perda de bola do time que
poucos têm. Temos jogadores talentosíssimos como Guerrero e Diego, com certa
dificuldade para marcar e o Márcio compensa isso de forma muito eficiente.
Houve trabalho especial com ele?
Primeiro,
conversei com ele para ousar, arriscar. Naquela posição é necessário tentar
mais. E durante três ou quatro meses ele fez complementos de treinos, com visão
mais profunda do jogo, infiltração.
Após usá-lo como titular, você deu um
passo atrás com Vinícius Júnior?
São
vários fatores. Ele não está morfologicamente pronto. Tem dificuldade no jogo
de quarta e domingo. Mas na função dele, tivemos lesões. Quando ele foi titular
com o Avaí, tínhamos poucas opções. A gente entende que ele pode ser mais
perigoso, agora, pegando o adversário desgastado. No confronto, tem a
dificuldade natural do garoto de 16 anos. Minha preocupação é que ele evolua
como atleta. Ninguém esperava que ele já fosse começar a decidir partidas para
nós.
Pesou a vontade do Real Madrid para
colocá-lo nos profissionais?
Eu
conheço o plano de carreira do Vinícius desde que eu era dos juniores. Desde o
fim do ano passado sabia que ele começaria a entrar no Campeonato Brasileiro.
Você defende que o Flamengo tenha
iniciativa, construa jogo. Mas o time, por vezes, parece mais perigoso em
contragolpes…
Estamos
tentando ter as duas coisas. No ano passado, muitas equipes nos marcavam perto
de sua área. E a gente precisava ter iniciativa, equilíbrio para não sofrer
atrás. Neste ano, já vimos outros times marcando nossa saída de bola. E
começamos a trabalhar formas de enfrentar a pressão do adversário.
Com os reforços, a expectativa de título
aumenta. Como dosá-la num calendário com tão poucos treinos?
Até
acho que as pessoas devem ter esta consciência, mas não tenho pretensão de
achar que haverá tal paciência. A gente vai buscar entrosá-los nos jogos.
Éverton Ribeiro jogará como meia pelo lado
direito? E Geuvânio?
Neste
momento, é pela direita, mais aberto, que o Éverton vai se sentir mais à
vontade. Numa função a que está habituado. É onde se adapta mais rápido, vindo
também por dentro para criar. Geuvânio pode jogar pelos dois lados.
Como fazer o time não sofrer com Éverton
ao lado de Diego e Guerrero?
Todos
terão que fazer um esforço maior defensivo. O Éverton recompondo, o próprio
Diego. E teremos que marcar com força o lado da bola.
Guerrero, Diego, Éverton Ribeiro e mais um
meia, como Éderson ou Conca: é utópico vê-los juntos??
Isso
demanda uma quantidade de treinamento que não sei se teremos. Em princípio é
difícil.
Faltam jogadores íntimos do gol a este
Flamengo?
Tudo é
fase. A gente andou criando e não transformando em gol. Mas vejo muita
qualidade no grupo, ainda mais com os reforços. Tem jogador que, quando está na
grande área, parece outro momento do jogo para ele. É natural. Com calma e
melhorando nosso jogo de ataque, voltando a jogar bem, os gols vão sair.
Com este elenco, qual a obrigação deste
Flamengo? Promete títulos?
Nossa
obrigação é ser competitivo. Buscar vitória a vitória. O Corinthians abriu, mas
vamos pensar jogo a jogo. Prometo muita luta.

Por: FlaHoje

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