segunda-feira, setembro 21, 2020
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Copa do Nordeste: novos Cabras da Peste.

Canelada
– O termo cabra de peste é um regionalismo muito conhecido no Nordeste. Sua
origem provável é uma derivação do termo cabrão, que em português de Portugal
era utilizado para designar homens ruins. Cabrão da moléstia, diziam. O termo,
contudo, foi se desviando de seu sentido original até passar a ser um elogio,
talvez por haver no nordestino esse olhar dual entre o medo e a admiração às
pessoas mais, digamos, brabas (Lampião: bandido ou herói?). Mas, se um
nordestino fala em cabra da peste em situações de enlevo, para nossos irmãos
mais ao sul, isso é dito num tom jocoso.

O
mundo, porém, dá voltas e muitas dessas voltas são dadas atrás do dinheiro. Já
havíamos percebido o esforço dos clubes do Rio de Janeiro em mandarem seus
jogos fora do estado em busca de bilheterias melhores. Brasília, Manaus,
Maceió, Cuiabá. Essas e outras cidades recebem os times de fora com muito
entusiasmo. Pelo fato de não terem times que disputem os campeonatos nacionais
principais com frequência, a população local acaba adotando estes times como
seus preferidos.
Eis
que, nesta última semana, vimos as notícias do interesse do Flamengo e do Goiás
em disputarem a Copa do Nordeste. Dez milhões de motivos, vaga para a Copa
Sulamericana e uma possibilidade de estádios cheios e merchandising disseminado
numa região que há alguns anos vem crescendo num ritmo mais acelerado que o
restante do país explicam o interesse destes times.
Por
outro lado, não sejamos cegos, a presença de um Flamengo na Copa do Nordeste
também traria mais visibilidade para o torneio e para o futebol da região.
O que
precisamos então avaliar é o real propósito da Copa. Contando apenas com um
time na primeira divisão e quase sempre coadjuvante nos certames nacionais, a
Copa representa uma possibilidade de enfrentar adversários diferentes dos
habituais e para pelo menos meia dúzia de times, a chance de vencer algo que
não seja o estadual. O torneio é realizado de modo relativamente simples, com
uma estrutura de chaves que lembra os campeonatos brasileiros da década de
oitenta. A premiação em dinheiro e o acesso a um torneio internacional também são
recompensas muito importantes para times dos nove estados.
A
introdução de times de fora entre os da região pode roubar essa possibilidade
para as equipes nordestinas. Por outro lado, a participação de alguns
convidados mais fortes dá, a um eventual vencedor nordestino, ainda mais
orgulho pela conquista. Os novos cabras da peste podem dar sabor e valorizar a
copa. Se eles se tornarem campeões contumazes contudo, podem enfraquecer o
sentido do nosso torneio e assim passarem a cabrões da moléstia.
Ivo
Mascena é engenheiro e mora em Brasília.

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