segunda-feira, setembro 21, 2020
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Del Nero diz não querer diminuir Cotas de Fla e Timão.

ESPN –
Depois de 12 anos na Federação Paulista de Futebol, Marco Polo Del Nero chegou
ao cargo de presidente da CBF na última quinta-feira, após sua cerimônia de
posse, realizada no dia 16 de abril. Assumiu de direito o que já tinha de fato,
desde o início do ano passado, quando José Maria Marin, seu antecessor, lhe
abriu espaço para comandar.

No dia
seguinte, sexta-feira, o dirigente recebeu a reportagem do ESPN.com.br para uma
entrevista que durou pouco mais de 50 minutos.
Entre
uma e outra resposta, Del Nero afirma enxergar um abismo no futebol brasileiro,
por causa das receitas dos direitos de televisão recebidas por Flamengo e
Corinthians, as maiores da Série A. E revela: vai tentar aumentar a cota dos
outros 18 clubes que se sentem prejudicados.
Ele
também fala sobre a briga no Rio de Janeiro, da desconfiaça dos torcedores com
a CBF, da sua opinião sobre cerveja nos estádios, sobre ligas, relação com a
Globo, horários dos jogos, relação com namoradas, salários e comissões, seleção
brasileira, Neymar, Dunga, Alexandre Gallo, empresários e mais. Leia, na
íntegra, abaixo.
Vocês começaram agora a remunerar
presidentes de federações, como foi tomada essa decisão?
Na
reunião de diretoria, com o Marin. Na primeira e única que teve na época do
Marin.
Você acha isso certo?
Institucionalmente,
sim. O ruim é quando você faz remuneração por baixo do pano, escondido. É uma
remuneração independente. Isso é institucional.
O presidente de um clube e um diretor de
futebol de um time não recebem nenhum salário. Não é estranho a CBF pagar isso
para os seus filiados?
Não,
não acho estranho. A gente segue um padrão internacional.
Que padrão é esse?
Um
padrão internacional. Do mundo do futebol, de todas as confederações do mundo.
E qual é o valor? R$ 11 mil?
Não
vou te dar valor, mas é insignificante. É como uma verba de representação.
E fora essa verba, ainda tem a mesada que
vocês pagam para as federações…
Sim.
Tem uma verba fixa e uma verba variante. Quando há algum projeto, por exemplo,
de uma reforma de federação, é um outro valor, que você estuda e que você
ajuda. Isso acontece com a Fifa também. Isso acontece em todas as federações do
mundo. Tudo para fomentar o futebol.
Essa remuneração mensal também aumenta os
gastos com salários, não é?
É
muito insignificante perto de todas as obrigações do dia a dia. É bem justa
para eles, porque eles representam a entidade. A gente tem de tornar as coisas
mais profissionais. Essa remuneração é para diversas utilidades. Eles recebem
convites de casamento, recebem convites de não sei o que, é pra esse tipo de
coisa. Eles têm a liberdade pra gastar. Se eles não usarem esse dinheiro que
estamos dando, eles vão tirar da federação. Nós não queremos que eles tirem das
federações dinheiro para esse tipo de coisa.
E eles têm de provar como gastaram?
Não. É
uma verba fixa e eles usam como precisam.
A partir do momento que vocês decidem dar
essa remuneração, o que vocês esperam das federações?
A
gente vai buscar que elas prestem contas de todos os valores da federação.
Quando há uma reforma, a gente já tem todas as contas. Mas não temos o do valor
fixo. Queremos ver no que eles estão gastando.
Com essa remuneração mensal aos
presidentes, não se pode criticar a CBF por estar em uma tentativa de
aliciamento das federações?
Não,
não tem nada a ver. Se fosse isso, a gente teria feito no ano eleitoral. E não
fizemos. Fizemos nesse ano, depois que eu fui eleito.
E não foi uma promessa de campanha?
Não,
não. De forma alguma. Foi uma surpresa.
Surpresa?
Surpresa
pra eles. Eles não sabiam que a entidade pensava assim, que pensava em
remunerá-los. Estamos pensando em nível internacional.
E você concordou com essa decisão?
Sim,
claro.
E o Marin?
Também.
Ele era o presidente.
Você também é remunerado. Há quem critique
os salários dos jogadores. Não é muito alto o que você recebe?
É
muito pouco, né? Perto do que eu deixo de… Na verdade eu não deixo, eu
continuo tendo minha remuneração no meu escritório. Mas eu tenho me dedicado
muito no esporte, profundamente, totalmente. Eu praticamente não dou atenção ao
escritório. Quase nada. Mas eu recebo também do escritório.
Você acha justo o valor?
É…
Vamos chamar de justo, sim.
E os salários dos jogadores, como você vê
isso no futebol brasileiro?
Tem de
trabalhar em cima de despesa e receita. Se o clube tem uma receita boa, ele
pode ter melhores contratações, fazer melhores pagamentos. Toda vez que aumenta
a receita, há um desenvolvimento maior, em relação aos benefícios, aos atletas.
Em tempo de pobreza total, ninguém recebe nada. Quando a empresa fica rica, ela
distribui os lucros com os funcionários. A gente não foge disso.
Alexandre Pato, por exemplo, ganha R$ 800
mil. Não é fora da realidade?
Você
precisa conhecer se o clube pode pagar ou não. Se o clube não pode pagar, é um
absurdo. Se pode pagar, está dentro da realidade.
Você mais do que qualquer um deve saber
que os clubes estão em uma situação muito complicada, com muitas dívidas. Eles
não poderiam pagar isso, não acha?
(Silêncio)
Precisa fazer análise disso. Não posso administrar os clubes. Posso fazer o que
estamos fazendo. Modestamente, mas estamos fazendo. Que é o Fair Play
Trabalhista. Os times têm de pagar as obrigações.
Você falou bastante que vai ouvir muita
gente. Você vai ouvir o Bom Senso também?
Faz
parte. Os atletas, o sindicato, outros atletas que não estão ligados ao Bom
Senso. Tem atletas que não estão ligados ao Bom Senso. Podemos escutar o Bom
Senso, outros atletas…
Não há restrições?
Não,
de forma alguma.
Quando o Paulo André saiu do Corinthians e
foi para a China, foi falado que você teria dado esse conselho ao presidente
Mario Gobbi. Isso aconteceu?
Não é
verdade. Em hipótese alguma. Eu jamais liguei para algum presidente para falar
uma coisa dessa. Nunca. De verdade. Nunca falei.
Você acha saudável, então?
Vivemos
em uma democracia. As pessoas devem falar, devem se queixar, devem se
manifestar. E quem administra tem de ver o que fazer.
É o que você pensa também do Romário e do
Andrés Sanchez?
Eu
vejo tudo no macro. Não vejo nomes particulares.
Eles não te incomodam?
Não.
Se houver ofensa contra a minha honra, eu processo. Exigir, reclamar, tudo isso
é normal.
De alguma forma isso pode atrapalhar a
relação com o clube, o Corinthians no caso, por causa do Andrés?
Não,
de forma alguma.
E nem te chateou o fato de ninguém do
Corinthians ter vindo na sua posse?
Não.
Acho que eles até justificaram… Eles estiveram em outras reuniões.
Na entrevista coletiva, ao ser questionado
sobre a venda de imóvel para um parceiro da CBF, matéria da Folha de São Paulo,
você disse que “nem tudo é sujo como vocês pensam”. Por que as
pessoas hoje têm essa impressão da CBF?
Porque
a CBF tem de mostrar o seu trabalho, o seu jeito de governar. Isso começa da
nossa parte. Nós vamos demonstrar isso. A gente está criando algumas coisas,
como o Congresso que vamos organizar. A gente precisa reparar isso.
Uma das suas missões, então, será essa, de
mostrar que a CBF não é suja?
Não, a
CBF não é suja. A pessoa pode pensar que é suja, mas ela não conhece a CBF.
Algum jornalista fala que ela é suja e a pessoa pensa isso. Temos que mostrar
essa transparência para o mundo, para as pessoas, para os jornalistas.
E essa é uma das suas metas de gestão?
É, com
certeza.
O presidente do Flamengo disse que chegou
a você o conflito que eles estão enfrentando aqui. O que você vai fazer?
Nós
temos conversado muito. Eu estou tentando mediar, ou melhor, eu estou mediando
uma pacificação. Tem de haver um entendimento. Tem de ser respeitada a vontade
dos clubes e da entidade. Tem de chegar a um denominador comum.
Em alguns casos, é preciso mediar a
situação com a televisão também?
Olha,
com a Globo, pelo menos em São Paulo, ela nunca nos exigiu nada. Nada mesmo. A
gente manda a nossa programação, ela nos pede alguns ajustes e nós devolvemos
com o que podemos mexer. Mas não há exigência.
Mas tem os horários tradicionais do jogos,
da quarta à noite e do domingo à tarde, que acontecem por conta da televisão…
Não é
só um pedido. É uma coisa que acaba dando certo e você vai deixando. O horário
das 11h da manhã do domingo virou um sucesso de público. Então, por que não
repetir?
Mas e o das 22h da quarta-feira?
Ah,
você estava falando do horário da noite… Entendi. É… o das 22 horas, nós
temos que discutir esse problema.
É uma coisa que você quer mudar?

atrás, o horário das 22 horas era o melhor para o torcedor, a gente tinha
estatísticas nesse sentido. Mas hoje isso mudou. Esse horário já não é mais o
melhor. Então, se não é o melhor, vamos tentar mudar com a Rede Globo.
Que outro horário você sugeriria?
Vamos
conversar, vamos ver. Um horário que o torcedor goste. Das 21h30, por exemplo.
Até 21h30 eu acho que vai bem.
Sobre uma liga, você disse na coletiva que
“se eles querem formar uma liga, eles vão levar as Séries B, C e D
também”. O que isso significa? É para eles levarem ou você quer dizer que
não é um bom negócio?
Eu
quis dizer que a Série A não custa nada para eles. A administração da Séria A
custa dinheiro. Depois vem a Série B, que a gente ajuda. A Série C, a gente
ajuda 100%, a Série D, também 100%. Interessa para eles formar uma liga para
ter despesas? Essa casa aqui não é minha. Essa casa é deles. Eles têm isso
aqui. A CBF pertence aos clubes e às federações. Na verdade, aos clubes, porque
as federações também representam os clubes. Se eles já têm a casa deles, por
que vão querer criar outra coisa?
Porque talvez as coisas não estejam
funcionando da forma como eles gostariam…
O que
não funciona?
Eles reclamam do formato do Brasileiro,
por exemplo.
Mas
isso nós estamos conversando. Formamos uma comissão, vamos discutir isso. Não
existia isso, existe hoje. Eles vão discutir. Se eles entenderem que o
Brasileiro precisa de mata-mata e for a decisão de uma boa maioria, é uma outra
situação.
Você toparia mudar, se fosse assim?
É…Muita
coisa que os clubes querem a gente mostra que não é bom pra eles. Mas a gente
tem de mostrar que não é bom. Eles voltam atrás. A gente mostra pra eles e eles
decidem. Será uma discussão.
Nos estaduais, por exemplo, os clubes
reclamam do lucro das federações. O caso do Rio é emblemático. Não chega a ser
um absurdo?
A
gente tem de tratar isso de forma macro, não pode ser no particular. A gente
tenta orientar as federações, pautar elas. Elas têm a sua autonomia, mas a
gente orienta bastante.
Mas vamos voltar ao caso específico do Rio
(interrompe)…
Eu não
falo do específico.
A Ferj é a única que cobra 10% dos clubes
nos jogos (interrompe)…
Os
clubes devem discutir com Ferj essa posição. Nós entendemos que deveria ser 5%,
mas se o presidente entende que é 10%, ele tem de explicar isso aos seus
clubes.
Não vai partir de você essa orientação
para que se mude?
Não.
Vai partir dessa conversação que vamos ter. Vamos discutir. Não vamos
determinar. Vamos conciliar. A Ferj alega que ela recebe isso para poder ajudar
os clubes mais pobres.
Você pretende chamar todos os presidentes
envolvidos nessa briga para sentarem aqui na CBF e conversarem?
Isso
faz parte dessa comissão. Para conversar e levar ao plenário.
Mas digo para a situação de agora. O
Eduardo Bandeira espera uma decisão sua.
Eu
tenho trabalhado no sentido de conciliar esses interesses. Vamos ter uma
reunião na semana que vem para falar sobre isso. Temos que discutir isso. O
Flamengo e o Fluminense acham que não pode ter o custo de 10%. Eu conversei com
o presidente, que disse que não pode ser menos porque precisa custear os demais
clubes. Ele não pode deixar de fazer o que já faz. Ele precisa subsidiar o
resto dos campeonatos. E os clubes têm uma posição mais forte contra isso,
considerando que no resto do país se cobra apenas 5%. Então, como faz? Sentamos
e conversamos. E discutimos.
Você tem esperança?
Ficaria
muito feliz se pudesse resolver.
O futebol inglês se organiza com duas
ligas e a federação ajuda apenas da quarta série para baixo. Você não acha que
esse é um modelo?
Eu
tenho a impressão de que lá eles ganham o dinheiro da televisão, dividem com os
clubes. Aqui isso funciona diferente. O formato é todo diferente. Falando sobre
cotas, lá eles se organizam diferente. Aqui não recebemos a cota, vai direto
para os clubes.
Você pensa nisso?
Não.
Não tenho interesse. Eu tenho o interesse de resolver o problema de 18 clubes
que sentem uma diferença muito grande em relação ao Flamengo e ao Corinthians.
Vamos tirar do Flamengo e do Corinthians? Não, não podemos tirar de quem está
bem. O que nós podemos fazer é buscar aumentar a cota desses 18 clubes.
Isso te preocupa?
Me
preocupa muito. O abismo é muito grande. A gente tem de resolver esse problema.
Você já vê esse abismo?
Ah, eu
já tenho conversado com a TV nesse sentido, para ver o que é possível fazer. Há
algumas propostas, mas ainda não sabemos.
Que tipo de proposta?
Esse
tipo de coisa, que ainda está em negociação, nós não devemos comentar.
Alguns dirigentes entenderam a partir de
reuniões com você que sua prioridade será totalmente as seleções. Será?
Não.
Ninguém nunca me perguntou sobre isso e eu nunca falei nada sobre isso.
Mas não daria para você dizer, então, qual
será sua prioridade?
Não,
tudo é importante. Temas pequenos e grandes, têm a mesma importância.
O que fazer para virar a página do 7 a 1?
Não
vai virar a página nunca. Nunca. Como não virou a de 1950. A gente fala até
hoje. A gente vai falar do 7 a 1 daqui a 50 anos também. O que temos de pensar
é no futuro. Buscar glórias, campeonatos, título. Nós não estamos aqui para
apagar o que a história registrou. Só daria para tirar se houvesse uma
competição igual, com os mesmos jogadores em campo. Mas isso é utopia…
E só se fosse os mesmos 7 a 1 para o
Brasil….
Isso,
e se fosse 7 a 1 para nós (risos).
No dia que aconteceu o 7 a 1 te deu um
clique?
(Silêncio)
Um clique? Acho que sim. Me deu um clique.
De que algo precisava mudar?
Alguma
coisa precisava mudar.
E qual foi a primeira coisa que você
pensou?
(Silêncio
e um sorriso) Nós temos que trabalhar pensando no futuro.
A maior chateação, naquele momento, foi
com quem?
Foi
com o 7 a 1, com mais ninguém. Ninguém queria tomar de 7, nem o jogador, nem o
técnico, mas foi uma tragédia.
Ouro olímpico em casa é uma obrigação?
Não
podemos chamar de obrigação. Olha só, tiveram várias competições, inclusive de
Copa do Mundo, que nós jogamos muito bem e não ganhamos. Temos que fazer e
lutar para ser campeão. Esse é o caminho. Não somos fanáticos por ganhar,
ganhar e ganhar. Tem de por o pé no chão e ser estrategista. O Gilmar e o Gallo
são estrategistas.
Dunga e Felipão: que você viu de diferente
no trabalho?
Eu não
falo do passado. O Felipão e o Parreira foram unanimidade quando foram
chamados. Mas houve uma tragédia. Tragédia é aquilo que você não espera e
acontece.
Pensaram em outros nomes antes do Dunga?
Ah,
sempre aparece um monte de nomes.
Você fala muito de modernizar o futebol. O
que o Dunga tem de moderno?
O que
ele tem de moderno? Olha só: o Dunga participou de uma Copa em 1990 e perdeu.
Depois, participou em 1994 e ganhou. Depois, foi vice de 1998. Depois, como
treinador, disputou uma Copa em 2010 e perdeu. Ele está muito preparado. Eu
tenho visto o trabalho dele e ele tem buscado uma parte científica, uma parte
técnica. Ele olha o que está acontecendo nos clubes, o que está acontecendo nos
outros países. Não só nas seleções. Eles viajam, pesquisam, há um trabalho
muito grande.
Como você vai avaliar o Dunga?
A
gente vê o trabalho que eles propuseram. Esse é o trabalho que eles estão
realizando. Não estou falando das oito vitórias. Estou falando dessa parte mais
científica. Vamos cobrar com o que eles nos apresentaram.
O que você espera do Neymar na seleção?
O
Neymar é fora de série. O futebol é opinativo, então, para mim ele é o melhor
jogador do mundo.
Como você espera que ele se envolva na
seleção?
Você
tem dúvida de que ele está envolvido? Em toda partida ele faz gol, ele é
vibrante, se emociona. O futebol é lúdico, tem de ter alegria para jogar. O
cara tem de estar muito feliz para jogar. É isso que a gente espera dele.
Você acha que ele tem maturidade já
(interrompe)…
Muito,
muito. A ponto de quem está com ele no dia a dia achar que ele tinha que
assumir o posto de capitão. Não fui eu que falei “Dunga, nomeia o
Neymar”. Foi ele quem quis, que resolveu. Esse é assunto do Dunga.
Ele te consultou?
Conversou.
Disse que ia mudar o capitão, mas nem me falou quem seria. Falou que ia fazer
algumas alterações…
Um vexame no Mundial agora pode mudar seu
plano para a Olimpíada, em relação ao Alexandre Gallo?
Hoje o
projeto é o Gallo até as Olimpíadas. (Silêncio) E ponto final.
Você mudou muita coisa na base, quase
tudo. O que te fez manter o Gallo?
Ele
fez um trabalho muito interessante de observação de jogadores internacionais,
que ninguém conhecia. Que estavam por aí, em outros lugares do mundo. Jogadores
que estariam em outras seleções. Ele descobriu outras pessoas.
De quem foi a culpa por ter perdido o
Diego Costa?
Não
pode culpar ninguém. Naquela época… Não pra culpar alguém. Dá pra culpar todo
mundo. Os dirigentes, os técnicos que não viram… Não se culpa um só. Eu não
falei isso antes. Quando a gente tem esses homens que estão no campo, 90% das
sugestões são deles. Uma vez ou outra a gente diz: ah, por que não foi ver o
Diego Costa? Então, não posso culpar só os técnicos que não viram. A gente
podia ter falado: escuta, vocês olharam tudo, não há mais ninguém? A gente
podia ter falado, por isso a culpa não é só deles.
É uma chateação?
Não
digo pelo jogador, mas pelo sistema.
Como você gostaria de ver o Brasil
jogando? Falta futebol arte?
A arte
é importante. Mas a arte mudou muito. Aquela coisa de parar no peito a bola,
deixar ficar no chão, lançar 40 jardas, mudou muito… Ele para a bola no peito
e já tomaram a bola dele. Ele tem um ou dois lances para jogar. A velocidade é
muito maior que antigamente.
Qual seleção para você é inesquecível?
A de
1970, né? Ela é inesquecível. A de 1994… na verdade, todos os cinco títulos
são inesquecíveis. Todos.
Mas a de 70 é mais marcante para você?
Com a
de 70 eu vibrei muito.
Que jogador você vê no mundo hoje, que não
é brasileiro, que você gostaria que fosse para poder convocar?
Eu
gosto dos jogadores brasileiros, não vou falar dos outros.
Você acompanha outros campeonatos, além
dos Brasileiros?
Dentro
do possível, sim.
Tem algum que você goste mais?
Eu
gosto de campeonatos brasileiros.
Bom, 28 jogadores no Campeonato Paulista.
Alguns técnicos reclamaram, muita gente não gostou (interrompe)…
Desculpa
te interromper, mas olha só. Quem está preocupado com as finanças dos clubes
são os presidentes. Quem aprova esse tipo de regra? São os presidentes. Quando
você permite 40 ou 50, os jogadores ficam esperando propostas, vendo o mercado.
Se tem apenas 28, quem for chamado discute o salário rápido, sem leilão. Isso
diminui o leilão.
Você concluiu que foi positivo?
Sim.
Muito positivo.
Você quer trazer isso para o Brasileiro?
Para o
Brasileiro seria muito difícil, porque é diferente. Teria que ter um estudo
maior e queríamos ver como seria nos estaduais.
Falando desse assunto, vem o tema dos
empresários. Eles são um mal para o futebol?
O
empresário não é um mal. Fatiar os direitos dos jogadores é, sim, um mal.
E se a Fifa voltar atrás nisso?
Não
vai voltar, não tem como. Eu fiquei pensando muito sobre esse tema para votar
lá na Fifa. Vi que haveria uma acomodação no mercado no primeiro momento, no
primeiro ano. Mas depois desse período, começa a vir o lucro. E vai vir
bastante. Os clubes também não querem facilidades aos empresários. Eles querem
igualdade para todos os clubes, de forma equilibrada. Por isso eles gostam do
Fair Play.
A questão das comissões e do assédio…
A Fifa
está tomando providência. Vocês viram o Barcelona. As garras da Fifa estão em
todos lugares do mundo. Daqui a pouco elas atingem também o Brasil.
Tem investigações no Brasil….
Tem,
sim. Algumas investigações.
Pelo menos três…
Isso.
São três. A Fifa tem os dados, tudo que está acontecendo. Eles já tinham
evoluído. Nós estamos fazendo isso agora.
Ajuda a moralizar?
Claro.
Muito. O clube quer isso. Ele às vezes é pressionado a aceitar um monte de
coisas, mas agora é oficial. A gente sente aplausos nas medidas que estamos
tomando. A gente sente que o clube quer que tudo ande direito, o que ele
realmente não quer é andar direito e ver o do lado andando errado. Isso ele não
quer.
Hoje eles não podem contar mais com ajuda
de empresário para pagar salários – antes os agentes pegavam os direitos de
garotos da base…
Pois
é. Eles não querem mais isso. Em um ano tudo vai se acomodar.
Eles estão reclamando que o mercado está
parado…
Os
empresários, né? Os clubes não podem reclamar. Daqui a poucos eles vão vender
jogador por R$ 15, R$ 20 ou R$ 30 milhões e o dinheiro vai ficar todo pra eles.
Você não acha um problema o contrato de
imagem?
É bom
para o jogador, né?
Quando ele recebe, né?
É bom
porque ele paga menos imposto.
Mas os clubes acabam deixando esse valor
em segundo plano…
Então,
o bom é que não tivesse isso. Que tivesse tudo no salário.
Já conversou com alguém sobre isso?
Não.
Mas eu pretendo. Isso é forçado pelos atletas, porque não vão ser descontados
dos impostos.
Como presidente agora, não te preocupa a
exposição que vai ter?
Preocupa.
Mas eu sei que ocupando um cargo de grande representatividade, como o da
Confederação Brasileira de Futebol, você acaba sendo exposto.
Sua vida ficou exposta também por causa
das suas namoradas. Não te incomoda?
Incomodou.
Eu nunca postei nada. Eu tenho Face, mas nunca abri. Nunca olhei. Eu tenho o
Instagram que está cerrado. Agora, uma coloca alguma coisa e sai a notícia.
Hoje eu peço que tenham cuidado.
Você pede para evitar a exposição?
Peço,
agora peço.
Mas o fato de aparecer notícia de que você
terminou com uma, começou com outra, isso não te atrapalha no seu contato do
dia a dia com os dirigentes?
Não me
atrapalha, não. Não é bom para mim. Eu não me sinto bem. Eu não sei como eles
se sentem, nunca falaram nada para mim, mas eu não me sinto bem.
Ricardo Teixeira te ligou?
Sim,
para dar parabéns.
Acabou a relação dele com a CBF?
Acabou.
Falam tanta besteira, né? Quando ele deixou a CBF, ele disse que ninguém que
estava lá era obrigado a ficar. Deixou reformular todo mundo. Ele nunca pediu
para um funcionário ficar.
Se fala muito isso.
Se
fala tanta coisa que não é verdade.
Mas ele era remunerado…
Sim.
Porque a gente pediu, era uma assessoria. Para nos apresentar pessoas, mostrar
como as coisas funcionavam. Durou o tempo que a gente combinou.
E o Marin passará pelo mesmo processo?
Não.
Ele terá a remuneração de vice-presidente.
Te incomoda que seus vices falem muito?
Eles
não estão falando. Eu não quero que eles falem. Quem fala é o presidente. É uma
entidade presidencialista. Foi isso que falamos na reunião. Para falar, tem de
nos consultar. Isso com a diretoria.
E com os vices?
Com os
vices foi hoje. Na reunião hoje foi anotado esse fato.
Como vices, eles representam a entidade.
Queria saber se há alguma orientação?
Sim,
houve orientação nesse sentido.
Vocês estão tentando trazer mais jogos
para o Brasil?
Claro.
Queremos que o Brasil jogue mais vezes aqui.
Alguma previsão?
A
empresa que cuida disso está trabalhando nesse sentido. Vamos fazer dois agora,
no Allianz e no Internacional.
A relação com a Picth, como está? Vocês
não gostaram dos últimos lugares que foram jogar, antes da Europa…
Nós
nos manifestamos contrários, reclamamos e eles procuraram arrumar. A gente pede
que antes de fazer o jogo que eles conheçam o gramado. Eles entenderam e estão
fazendo isso.
Sobre a matéria da Folha de SP de ontem
(quinta-feira, 16), quantos negócios o Wagner Abraão (empresário) faz com a CBF
hoje?
Apenas
com as viagens dos times. Mais nada.
Não tem nenhum outro tipo de participação?
Não.
Mais nenhum.
Você não acha antiético fazer um negócio
com um parceiro da CBF?
Se é
transparente e público, não há problema. Posso fazer com um vizinho, com um amigo.
Não deveria evitar?
Não.
Não tem dificuldade nenhuma. Os dados estão lá. As condições já foram
explicadas.
Seu diretor de comunicação será o Marcelo
Netto?
Sim,
será ele.
Ele foi assessor do Palocci na época do
“caseirogate”. Isso não te fez pensar duas vezes?
Não.
Ele é altamente capacitado. Passou por diversas emissoras, por grandes jornais.
Deu assessoria para grandes personalidades, trabalhou no COB. Nosso foco foi
esse, de ele ter trabalhado no COB.
Alguma novidade que eu não tenha
perguntado?
Nada.
Estou desde as 9h30 trabalhando, estou cansado (risos).
Os estádios elefantes brancos. O que fazer
com eles?
Não
adianta cobrar caro para jogar lá. É o mercado que regula isso.
Como ajudar?
Estamos
conversando com o sindicato das arenas, esqueci o nome. É uma associação deles,
para poder colaborar.
Estão falando sobre a liberação da venda
de bebidas alcoólicas?
Estamos
vendo isso também. Conversando. Tem de trabalhar. Eu sou favorável à liberação
da bebida, da cerveja, mas que seja tomada só no bar, não na cadeira. Na
cadeira tem de ser proibido levar o copo. Mas antes, qual o problema? Futebol é
entretenimento. É isso. Tem que fazer o torcedor chegar uma hora antes, se divertir.
Toma uma cervejinha… O que eles têm feito: bebem na rua, no bar da esquina e
lá tem pinga, bebida mais forte. Então, dentro do estádio eles só estariam
bebendo cerveja.
Vai lutar por isso?
Vou
trabalhar nesse sentido. Vou lutar por isso.
A violência tem a ver com bebida?
Evidentemente
que o álcool acarreta problemas, isso é evidente. Se você analisar que nas
décadas anteriores havia álcool e não tinha essas guerras, o que aconteceu? Foi
a bebida que mudou? Ou os torcedores? Claro que foram os torcedores. Essa
violência de grupo é das torcidas organizadas. Eu lembro de um jogo do
Corinthians que havia 3 mil organizados, e 200 brigaram com a polícia. São
todos bandidos? Não são.
Tem
gente boa na torcida organizada, mas os bandidos têm de pagar pelo que fazem. E
eu quero até enaltecer o trabalho da Justiça do Rio de Janeiro, que tomou uma
decisão importante de afastar torcedores. Foi um grande exemplo para o Brasil.
A Justiça do Rio está de parabéns.
Caso Héverton, foi uma mancha no futebol
brasileiro?
O
Ministério Público está indo atrás, procurando provas, não sei como eles fazem
isso exatamente. Mas não foi bom, né? Quando tem um erro assim, nunca é bom
para o futebol.
Gera desconfianças também, né?
Falam…
Falam…
Depois disso e de um caso do Icasa e do
Paysandu você decidiu mudar muita coisa. Já deu resultado?
Sim,
melhorou 90%. A gente teve um erro agora mesmo, mandamos a funcionária embora.
Tivemos um outro erro, suspendemos a funcionária. Agora, o que eu fiz, antes de
colocar no site os contratos, há duas pessoas que olham. Uma no departamento de
competições e uma no de registros. São dois funcionários que foram contratados
para isso. Um olha e passa pro outro olhar também. Poderá ter erro? Poderá.
Essa funcionária suspensa, por exemplo, eu fui perguntar o que aconteceu e ela
respondeu que se embaralhou depois de ver tantos documentos, isso acontece
mesmo. Então, falei que era pra ela parar de ver quando ficasse assim. Como ela
foi muito sincera e explicou o motivo, achei que ela tinha que ficar suspensa,
e não ser demitida.
Que caso foi esse?
Não
vou dizer. Mas foi essa posição que tomei. O nosso sistema também está
trabalhando para impedir também que possa acontecer erros assim. Estamos
trabalhando com a máquina e com o ser humano.
O caso do patrocínio aos árbitros em São
Paulo…
Eu já
não estava lá, mas foi corrigido.
Foi um erro?
Foi um
erro, sim.
Como a Fifa agiu nesse caso?
A
Paulista consultou a comissão de arbitragem aqui da CBF, a comissão consultou a
Fifa, que respondeu com o regulamento e a recomendação. A gente procura
acertar, mas não é fácil.
Você teve hoje (sexta-feira, 17) sua
primeira reunião de diretoria, como foi?
Eu já
formei toda a diretoria. Fizemos uma reunião da presidência e da diretoria. É
importante fazer isso. Vamos fazer uma reunião por mês, todo final de mês. E
vamos prestar contas no final de cada mês. Ter isso em ata. Assim é possível
cobrar os departamentos e discutir o que a gente precisa fazer, em conjunto.
Quais mudanças você fez na diretoria?
A
secretaria geral nós mudamos. Isso já deve ter no site. Mas mudamos algumas
coisas, sim. Vai ficar mais ou menos assim.
Já começou a traçar metas para a
diretoria?
Já. A
gente prometeu que tem objetivos. Esses objetivos precisam ser alcançados. Não
vamos deixar nada para trás. Temos que buscar os resultados.
Sua principal meta neste momento é a MP?
O
Rogério [Caboclo, diretor financeiro] e o Walter [Feldman, secretário-geral]
estão cuidando disso. Junto com os clubes. Eles estão trabalhando. Já falei
muito da minha opinião sobre isso. Tem coisas boas e tem excessos que precisam
ser corrigidos.
O tempo de mandato dos presidentes me
intriga. Vocês entendem que a intervenção do governo é um problema
(interrompe)…
Não é
um problema pra gente, é um problema para a Constituição. Quando a gente fere a
Constituição, isso precisa ser mostrado. Há uma carta maior que precisa ser
respeitada.
Mas quando você olha um presidente há 45
anos no poder, não te choca?
(Silêncio)
Isso é relativo. Nós temos governos democráticos que trocam de quatro em quatro
anos e vivem um caos. Nós vemos regimes empresariais que têm presidentes há 15
anos e são um sucesso. Não me choca, então. A própria entidade internacional
mantém esse status quo.
Você não pretende então mudar isso?
Não,
não pretendo. Só se a Fifa mudar. Se a Fifa mudar, a gente tem um norte para
seguir. E a gente tem de seguir a entidade maior.
Os gastos com salários na última gestão
subiram de R$ 50 milhões para R$ 65 milhões, não é muito?
Tiveram
muitas demissões. Há as demissões nesse contexto. Há gastos com indenizações.
Isso foi muito dinheiro que saiu. Não teve aumento de salário. Isso eu posso te
garantir. Foram muitas demissões.
Quantas?
Não
sei te dizer quantas. Mas foram muitas. E de pessoas que estavam há muito tempo
aqui. Toda a diretoria antiga foi sendo demitida. As indenizações são grandes.
Isso somente justifica?
Aumento
de salário não teve. O pagamento de demissões é uma das razões. Não houve
aumento para ninguém. Funcionários também foram demitidos.
40 pessoas demitidas?
Não,
não chega nisso. Umas 15 pessoas.
Outro gasto que chama a atenção é o de
serviço de terceiros, que passou de R$ 40 milhões para R$ 80 milhões. Como você
justifica? São comissões?
Na medida
em que você aumenta o patrocínio, você tem mais comissão para pagar. Isso é
normal.
Teve aumento nas comissões?
Teve
proporcionalmente com o aumento das novas receitas.
A informação que me passaram é de que
houve um aumento na porcentagem paga das comissões. Antes era de 5% e agora
seria de 15%. Foi isso?
Não
sei, varia muito. Tem contrato de 6%, de 8%, de 10% e de 15%. Não dá para taxar
uma coisa fixa. Varia muito.
Mas esses R$ 80 milhões são apenas de
comissões?
Eu
creio que sim. O financeiro poderia explicar melhor, mas acho que é isso mesmo.

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