terça-feira, setembro 22, 2020
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É preciso nomear os racistas que perseguem Cristóvão.

Trivela
– Os mais antigos no futebol não precisam de legenda sob o nome de Béla
Guttmann. O húngaro, que também foi jogador, é considerado um dos maiores
técnicos da história do esporte. Treinou, além do São Paulo, pelo qual foi
campeão paulista em 1957, Porto, Milan, Peñarol e Benfica, pelo qual conquistou
duas Copas dos Campeões, e onde é considerado também o grande mentor de
Eusébio.

Além
de ser um dos maiores técnicos da história, Guttmann era judeu. Era judeu em um
momento em que o antissemitismo na Europa – e no mundo – recrudescia devido à
barbárie da Segunda Guerra, mas, lembremos, a Segunda Guerra era
recém-terminada. Não só era judeu como atuou pelo Hakoah de Viena, time formado
apenas por judeus que se apresentava como um time judeu.
Trago
o assunto à baila depois de ouvir as palavras de Cristóvão Borges para a ESPN
sobre racismo. Entre outras coisas, o técnico do Flamengo menciona o fato de
ter sido chamado de “Mourinho do Pelourinho”. O apelido surgiu na época em que
o treinador estava no Fluminense, mas ainda é utilizado constantemente por Renato
Maurício Prado, comentarista da Fox Sports e colunista d’O Globo.
“Aliás,
na saída do Luxa, se tivessem deixado o Jayme como interino, poderiam ter
pegado o Marcelo Oliveira, antes do Palmeiras. Resolveram apostar no Mourinho
do Pelourinho, deu nisso”, escreveu em 14 de julho em sua coluna colocando as
palavras na boca do personagem fictício Bagá (a quem se refere, diga-se, como
“crioulo”, e de quem diz que a baba “escorre pela beiçola”). Em 25 de novembro
do ano passado, já tinha dito que ‘irritados com a irregularidade do
Fluminense, tricolores lançaram novo apelido irônico para Cristóvão Borges: “o
Mourinho do Pelourinho”’, para depois se referir a isso como uma “gozação
divertida.”
Pois
bem, não pode haver dúvida quanto a isso: a simples menção de um pelourinho ao
se referir a um negro é, sim, racista, e da pior maneira possível. Seria a
mesma coisa que se referir a Guttmann como “Mourinho do Holocausto”. O
pelourinho, tronco no qual eram amarrados e torturados escravos fugitivos é,
para os negros brasileiros, tragédia histórica comparável ao holocausto para os
judeus em todos os aspectos. E usá-lo para marcar um técnico negro é racista,
clara e inegavelmente racista.
“Mas
há um bairro em Salvador chamado Pelourinho, e Cristóvão é baiano”. Sim, e
também há um bairro em Salvador chamado Pituba, e se alguém quisesse mencionar
Salvador sem ser racista poderia tê-lo escolhido – ou uma meia dúzia de outros
bairros que seriam reconhecidos por qualquer brasileiro, e que não ofenderiam
mais da metade da população brasileira.
Se
Renato Mauricio Prado é racista em sua vida cotidiana, pouco me importa – se
tem um primo do cunhado do amigo dele que inclusive é negro. O que importa é a
maneira como utiliza seu sagrado direito à liberdade de expressão. E quando usa
o Pelourinho para diminuir o trabalho ou o indivíduo do qual sabidamente não
gosta, Renato Maurício Prado está sendo racista.

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