domingo, setembro 27, 2020
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Empregada de VP do Flamengo defende patrão.

Foto: João Valadares/CB/Da Press

EXTRA
GLOBO
: “Patrão, tem paparazzo lá embaixo?”. Maria Angélica Lima, de 45 anos,
nunca achou que teria esse tipo de preocupação. Era para ser um domingo como
qualquer outro do último ano, em que trabalhou cuidando, aos fins de semana,
dos gêmeos de um morador de Ipanema. Mas uma foto, a caminho das manifestações
de Copacabana neste domingo, a colocou no centro dos debates. E a repercussão
assustou.

— Me
senti exposta — explica. — Acordei e vi minha cara no jornal. Foi um susto.
A
imagem mostra Angélica empurrando o carrinho de bebês com os filhos dos
patrões, que estão ao lado. Moradora de Nova Iguaçu, ela estudou até o ensino
médio. O serviço era para desafogar as contas da casa onde vive com o marido e
as filhas, de 2 e 16 anos. Mesmo assim, a crise sufocou.
— O
pobre é que sofre. O preço da comida aumentou muito. Íamos reformar a casa, mas
não vai dar — conta.
A
solução, para a babá, não passa por tirar a presidente Dilma Rousseff do cargo
da presidência. Não acredita no vice, Michel Temer (PMDB). Para ela, “nenhum
deles presta”. Nas eleições de 2014, Angélica votou duas vezes em Aécio Neves
(PSDB). Ela diz que acredita nas propostas do mineiro. A babá também admira a
figura do juiz Sérgio Moro, que já condenou 67 pessoas na Operação Lava Jato.
— A
solução do Brasil começa por mudar o Congresso todo — sonha Angélica.
O
furacão que transformou a babá em ponto de discussão nas redes sociais tem
origem, segundo o cientista política Paulo Baia, da Universidade Federal do Rio
de Janeiro, na polarização dos debates sobre os atos contra a presidente.
— De
um lado, há os que são a favor de Dilma e vão dizer que há discriminação ali,
porque é uma negra numa manifestação onde só vai rico — pontua Baia. — O outro
lado diz o inverso. Afirma que a imagem é de uma família bem-sucedida, lutando
contra a corrupção, que contrata legalmente. Esse é o foco da briga.
Confira
a entrevista com a babá Angélica
O que você achou de ir à manifestação de
anteontem?
Eu não
estava fazendo nada demais. Estava no meu horário de trabalho, cumprindo a
minha função. Ele, como meu patrão, estava indo à manifestação. E eu estava
indo com eles para acompanhar as crianças. Eu tenho que estar perto. E só. Mais
nada.
A senhora foi obrigada?
Não.
Claro que não.
Iria se estivesse de folga?
Eu
iria se tivesse morando lá embaixo (na cidade do Rio). Ir daqui (Nova Iguaçu)
para lá é bem difícil. Pego dois ônibus para ir trabalhar.
Você é a favor dos atos?
Sou.
Mas queria que isso tudo acontecesse, e tivesse resultado. Falei para o meu
patrão: “As pessoas querem o impeachment e que as coisas mudem, mas não vai
mudar”. A presidente Dilma saindo, quem entrar vai continuar roubando. O Brasil
é assim. Quem está com dinheiro, como os políticos, vai continuar tudo bem. A
gente que vai sempre levar a pior.
Por que votou no Aécio?
O Lula
não foi aquele presidente que todo mundo esperava. Aí, votei no Aécio para dar
uma oportunidade de que ele mudasse o quadro. Mas entrou a Dilma e a gente está
vendo esse resultado.
Você trabalha na semana?
Não.
Quero curtir a infância da minha filha mais nova.
Quem cuida das suas filhas quando está no
trabalho?
Meu
marido trabalha às vezes no fim de semana. Então, a gente contrata uma menina,
que mora aqui perto, para tomar conta da menorzinha.
O que acha de usar uniforme?
Acho
que é um dever que a gente tem. Desde o momento que a gente trabalha e tem
uniforme, a gente tem de usar. Tem casas que não pedem, outras precisam. Eu
acho até melhor porque preserva mais as nossas roupas. E tudo eles que dão.
Eles dão sapato, calça, bermuda, blusa. Minha patroa que fornece.
Como a senhora soube de que estava nas
redes?
Meu
patrão que me mostrou. Ele disse: “Olha, Angélica, está acontecendo uma coisa
chata”. E me explicou o que era. Eu falei: “Sinceramente, seu Cláudio, eu não
estou nem entendendo nada disso”.
Gostaria de falar algo a quem debateu nas
redes sociais?
Não
fiquem preocupados. Quem me apoiou, sabe do valor da gente, que é babá, de
trabalhar, de ter nosso dinheiro. A gente tem de dar valor ao trabalho,
independente de usar de uniforme ou não.
Polêmica na rede
Muitos
internautas enxergaram na imagem um retrato da desigualdade social do país. Já
outros apontaram para uma simbologia das condições de subemprego a que algumas
empregadas domésticas estão submetidas.
Do
outro lado, muitas pessoas defenderam a presença da babá em meio ao protesto.
Entre os argumentos, a ideia de que pelo menos a funcionária não está
desempregada.
Patrão se manifesta
O
patrão de Angélica é o vice-presidente de Finanças do Flamengo, Claudio
Pracownik. Ele se manifestou pelo Facebook sobre a polêmica. Confira o texto:
“Sí
Pasarán!”
Ganho
meu dinheiro honestamente, meus bens estão em meu nome, não recebi presentes de
construtoras, pago impostos (não, propinas), emprego centenas de pessoas no meu
trabalho e na minha casa mais 04 funcionários. Todos recebem em dia. Todos têm
carteira assinada e para todos eu pago seus direitos sociais.
Não
faço mais do que a minha obrigação! Se todos fizessem o mesmo, nosso país
poderia estar em uma situação diferente
A babá
da foto, só trabalha aos finais de semana e recebe a mais por isto. Na
manifestação ela está usando sua roupa de trabalho e com dignidade ganhando seu
dinheiro.
A
profissão dela é regulamentada. Trata-se de uma ótima funcionária de quem, a
propósito, gostamos muito.
Ela é,
no entanto, livre para pedir demissão se achar que prefere outra ocupação ou
empregador. Não a trato como vítima, nem como se fosse da minha família.
Trato-a com o respeito e ofereço a dignidade que qualquer trabalhador faz jus.
Sinto-me
feliz em gerar empregos em um país que, graças a incapacidade de seus
governantes, sua classe política e de toda uma cultura baseada na corrupção
vive uma de suas piores crises econômicas do século.
Triste,
só me sinto quando percebo a limitação da minha privacidade em detrimento de um
pensamento mesquinho, limitado, parcial cujo único objetivo é servir de
factoide diversionista da fática e intolerável situação que vivemos.
Para
estas pessoas que julgam outras que sequer conhecem com base em um fotografia
distante, entrego apenas a minha esperança que um novo país, traga uma nova
visão para a nossa gente. Uma visão sem preconceitos, sem extremismos e
unitária.
O
ódio? A revolta? Estas, deixo para eles.”

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