sábado, setembro 26, 2020
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Estaduais, o mal necessário.

Pedro
Migão – Não tem nada mais hype do que falar mal do PT ou dos campeonatos
estaduais, especialmente esses últimos, que já são fracasso de crítica faz
tempo – embora de público nem tanto, uma vez que a audiência da TV ou a
presença nos estádios não são muito diferentes do Campeonato Brasileiro e em alguns
casos são até maiores.

Certa
vez eu jantei com um casal de aposentados estadunidenses. Ele tinha sido
executivo em Londres, mas agora curtia o fundo de pensão dividindo seu tempo
entre as redondezas de Chicago no verão e a casa de Miami no resto do ano.
Fanático por esportes, mais especialmente por esporte universitário, ele queria
informações sobre como se dava a transição do esporte universitário para o
profissional no Brasil. Eu disse a ele que no Brasil simplesmente não há
esporte universitário de competição.
Então
ele quis saber como o Brasil formava seus jogadores. A resposta que parece
óbvia para todos nós para ele foi um choque. Ele não conseguia acreditar que a
atividade de formação estava a cargo de centenas de clubes de futebol
profissional. E que eles competiam, durante alguns meses do ano, com clubes da
elite.
Às
vezes é preciso um olhar de quem não entende o mínimo do que se passa em um
sistema pré-estabelecido para dar o insight que faltava: por um misto de
preguiça, falta de coordenação centralizada e economia, o futebol brasileiro
delegou aos paupérrimos clubes pequenos a tarefa de recrutar e triar potenciais
atletas.
Qualquer
regime de seleção esportiva bem sucedido pressupõe uma lógica parecida: é
preciso ter dezenas de milhares de praticantes do esporte competindo entre si,
para que aos poucos os melhores se destaquem e sobrevivam ao funil que os
levará ao estrelato.
Os EUA
adotam o esporte universitário (como sucessor do esporte nas escolas) para
fazer essa triagem, mas não é o único modelo. O Uruguai, aqui do ladinho, que
saiu do ostracismo para voltar a competir como um player respeitável no
futebol, tem um sistema coordenado pela federação, que incentiva ligas amadoras
subsidiadas pelo ente central.
E o
Brasil? O Brasil 7 x 1 há muitos anos faz exatamente a mesma coisa: deixa à
míngua os clubes menores, eles que se virem para colocar em campo o que
conseguirem. E, bem ou mal, eles mais ou menos cumprem esse papel.
A
última convocação da Seleção Brasileira tinha 10 jogadores revelados ou com
passagem por times reconhecidamente pequenos (Diego Alves, Jefferson,Thiago
Silva, Fabinho, Danilo, Luiz Gustavo, Fernandinho, Elias, Firmino, Diego
Tardelli).
E se a
gente for olhar os titulares dos 12 grandes clubes brasileiros, vai descobrir
que grande parte deles veio também desse universo dos times menores.
Como
sobrevivem os times pequenos? Tenho certeza de que ninguém tem a menor ideia,
como eu também não tinha, até conhecer uma pessoa que esteve envolvido com um
deles aqui no Rio Grande do Sul. O time tinha uma folha de pagamento de R$ 30
mil durante 9 meses do ano. E em 3 meses essa folha passava a ser de R$ 300
mil. Por que?
Porque
nesses três meses mágicos o time disputava o Campeonato Gaúcho. E, ainda assim,
porque eles levaram alguns anos sobrevivendo de contribuições de pessoas
físicas para saírem das divisões de acesso e voltarem a disputar a série A do
Gauchão. Mas quando conseguiram, eles sabiam que aqueles 3 meses salvariam a
pele de todos.
Afinal,
são três meses aparecendo na TV, no PPV, no jornal, recebendo dinheiro de
patrocinadores, bilheteria e, sobretudo, mostrando ao mercado os jogadores
lapidados naqueles campos mequetrefes. Passado esse período, o clube volta a
hibernar, à espera do próximo verão (no caso relatado, tudo acabou bem no ano
que ele estava lá, com a venda de um jogador para a Europa que garantiu a
devolução do capital de todo mundo que ajudou o clube a voltar para a Série A
estadual).
Eu não
gosto de ver jogos contra o Barra Mansa ou o Boavista, isso é fato. Mas o Barra
Mansa e o Boavista só existem porque, a cada verão lhes é dada a chance de
enfrentar Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo, aparecendo, quem sabe, na 1a
página de um jornal ou em um telejornal. E normalmente vendem alguns jogadores
depois que o campeonato acaba para fechar as contas.
Todas
às vezes que alguém defende o fim dos estaduais o discurso é sempre o mesmo:
como tornar mais ricos os já muito ricos do futebol brasileiro, times que
apesar de faturarem dezenas de milhares de reais por ano, os gastam como se não
houvesse amanhã e por isso estão sempre de pires na mão.
Nunca
ninguém pensa no outro lado da moeda, os clubes que faturam R$ 1 ou R$ 2
milhões por ano e precisam desesperadamente desses 3 meses para se manterem
ativos. Não me venham dizer que arrumar uma competição para eles disputarem
entre si o ano inteiro serviria de alguma coisa. Uma competição entre times sem
dinheiro e sem torcida não serve rigorosamente para nada.
Podem
acabar com os madureiras e bonsucessos, problema nenhum. Eu, pessoalmente, não
tenho a menor simpatia por eles. Só queria lembrar que ter que passar pelo
constrangimento de jogar umas 10 vezes por ano contra eles é, de longe, a
solução mais econômica à disposição dos grandes clubes para manter em alta a
atividade de formação de atletas.
Se
acabarem os estaduais, é bom começar a pensar em quem daqui por diante vai se
encarregar disso. E quanto isso vai custar. Vou logo adiantando que não vai ser
barato.
Como
planejar o futuro, investir a longo prazo e adotar ações cujos resultados são
incertos não são exatamente especialidades brasileiras, menos ainda de nossos
clubes dirigidos por milionários que fazem dele um hobby, sugiro fortemente
que, à falta de ideia melhor, deixem os Estaduais por aí incomodando o nosso
verão. É um mal necessário, porque é a solução mais em conta e mais simples.
Walter
Monteiro

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