domingo, setembro 27, 2020
Início Notícias Estudo aponta motivos para péssimo público do Flamengo no Raulino.

Estudo aponta motivos para péssimo público do Flamengo no Raulino.

Foto: Divulgação

BLOG TEORIA DOS JOGOS: Eis a frase recentemente proferida por um importante
profissional na área de marketing esportivo, num debate interno do qual este
blogueiro participa. Apesar de captar o olhar de quem só acompanha o futebol
carioca à distância, num primeiro momento soa difícil discordar da assertiva.
Os péssimos públicos auferidos por Flamengo, Fluminense e Botafogo no estádio
da cidade, o Raulino de Oliveira, são o mote.

Os que
se insurgem descontentes com os públicos na Cidade do Aço são, cada vez mais,
respaldados por análises vindas da grande imprensa. Há quatro dias foi Gustavo
Setti, representando a ESPN, quem abordou a detestável ambientação sob a ótica
dos torcedores. Hoje foi a vez d’O Globo, sob a respeitável figura de Carlos
Eduardo Mansur. Desde antes, sites e blogs vem dispendendo tempo e neurônios na
infrutífera tentativa de compreender a ausência de público.
Chegou
a nossa vez. Não a primeira, diga-se de passagem. Desde sempre o Blog Teoria
dos Jogos se dedica a compreender, justificar ou refutar questões que envolvam
a presença de público e a escolha de Volta Redonda como palco – leia uma
análise anterior aqui. Mas desta vez vamos um pouco além, tanto no que se
refere à pertinência das críticas dirigidas, quanto na contextualização
econômica da questão.
É
fato, os públicos em Volta Redonda são péssimos. Mas isto não acontece por
improvidência divina ou como fruto de uma população desapegada ao futebol.
Terra natal deste blogueiro, é com conhecimento de causa (algo que Juca Kfouri
não possui) que afirmo: Volta Redonda é uma cidade como qualquer outra, o que
inclui ser também uma cidade apaixonada por futebol.
Mas…
1- A cidade recebe jogos demais – com
apelo de menos
Tendo
recebido 27 jogos nesta temporada (21 dos grandes cariocas), o Raulino de
Oliveira é o estádio mais utilizado do Brasil em 2016. Apenas o Independência,
em Belo Horizonte, se aproxima – recepcionando 24 partidas. Mas aí as
diferenças vão desde o tamanho dos mercados até a importância dos torneios,
considerando-se a ausência de jogos válidos pela Libertadores em solo
voltarredondense.
A
grande questão é que, no Brasil, cidades de médio porte não costumam ter
demanda suficiente para recepcionar mais do que um ou dois eventos. Vide o
exemplo de Juiz de Fora, em Minas Gerais – tantas vezes considerada uma “meca”
para os clubes do Rio. Com seus 550 mil habitantes, não recebeu mais do que
4.384 pagantes na vitória do Botafogo sobre o Atlético-PR, pelo Brasileirão. Já
o Flu foi desde incríveis 23.985 torcedores na final da Primeira Liga (contra o
mesmo Furacão) até ridículos 1.406 pagantes, no confronto diante do Criciúma,
pela fase de grupos da mesma Liga. É possível que na Cidade do Aço houvesse mais
gente.
“Mas e
os três clássicos entre Fluminense e Botafogo na cidade?”, alguém retrucaria.
Estes só vem a confirmar cada palavra proferida no tópico, já que a reiteração
foi a chave do saciamento da demanda e da perda de chamariz. Em 13/03/2016,
registraram-se 4.378 pagantes em Fluminense 1 x 1 Botafogo. Em 24/04/2016,
3.562 pagaram ingressos em Flu 0 x 1 Bota. Já no último domingo, o Tricolor deu
o troco (1 x 0) mediante 2.860 pagantes – verifique aqui. Mais cristalino,
impossível.
2- O comparecimento per capita não é pior
do que o da capital
Volta
Redonda possui 260 mil habitantes segundo o Censo 2010. Na condição de
principal cidade, integra ainda uma conurbação com Barra Mansa, Pinheiral e
Barra do Piraí (parcialmente) que detém quase 500 mil habitantes. Semelhante,
portanto, à Juiz do Fora do exemplo anterior. Se considerarmos o público médio
apenas nos jogos de Flamengo, Fluminense e Botafogo (3.225 pagantes), pode-se
dizer que ele representa 1,24% da população da cidade e 0,65% da conurbação. Estes
percentuais – se aplicados aos 6,4 milhões de habitantes da capital e aos 11,6
milhões da região metropolitana do Rio de Janeiro – equivaleriam,
respectivamente, a inatingíveis médias de público de 79 mil e 75 mil torcedores
no Maracanã.
3- Nem todos os times cariocas tem demanda
suficiente na cidade
Aqui a
argumentação vem baseada em informações exclusivas do Blog Teoria dos Jogos,
que mapeou pela primeira vez o perfil de torcidas na cidade. O que se descobriu
foi que a monumental diferença no tamanho da torcida do Flamengo (42,9%) para
as demais (todas abaixo de 10,8%*) é algo contra o qual fica difícil lutar. De
fato, os 10,6% de botafoguenses e os 8,6% de tricolores representariam 27 mil e
22 mil torcedores, respectivamente. Num estádio com capacidade para 20 mil, é
como se mal houvesse torcida suficiente para o completo preenchimento de um
Raulino de Oliveira.
*A
pesquisa foi realizada cerca de duas semanas após o rebaixamento do Vasco,
identificando número suspeitamente alto de não-respondentes (7,8%). É possível
que parte destes tenham representado vascaínos em desalento.
Não
por acaso, mesmo sem qualquer clássico jogado na cidade, o Flamengo conseguiu
atrair públicos próximos aos 8 mil pagantes por duas vezes. Enquanto isto, o
Fluminense jogou três vezes para menos de 800 testemunhas. Já o Botafogo,
apesar da baixa média de público em Volta Redonda, consegue ter um
comparecimento médio 60% inferior quando se apresenta em São Januário, em pleno
Rio de Janeiro. O problema é mesmo a cidade?
**
A
verdade, então, recai sob outros aspectos. Que apontam para o fato de o
principal produto esportivo do suposto “país do futebol” (quem merece a alcunha
é a Inglaterra) apresentar graves problemas, tanto da parte da demanda quanto
da oferta.
Olhando
para a demanda, as restrições orçamentárias do brasileiro realmente impactam
sobre o comparecimento aos estádios, inviabilizando-o ao nível desejado. Não
são poucos os torcedores que alegam a impossibilidade da presença semanal dada
a “desimportância dos jogos”. Optam, assim, por reservar dinheiro para fases e
embates mais importantes. Se beneficia quem joga o que realmente vale – leia-se
a Copa Libertadores. Torneio que faz com que os cinco clubes de melhor média em
2016 sejam justamente os cinco que participaram dele.
Neste
sentido, comparar o Brasil com Alemanha, Inglaterra, França ou Espanha – só
porque todos são países importantes no mundo do futebol – soa quase como
deboche. Naqueles lugares, jogos desimportantes também enchem, ou ao menos não
ficam às moscas. Simplesmente porque futebol é lazer, e existe gente suficiente
com capacidade para usufruir desta opção sem prejuízo das demais.
Indo
além: os problemas de demanda no futebol brasileiro se aprofundam em cidades do
interior, condição ocupada por Volta Redonda. Nas grandes capitais, além da
maior renda, existe ainda o facilitador que é a existência de times locais
fortes e com apelo. Ainda assim, poucas preenchem tais características: em
maior escala, apenas São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Porto Alegre, com
Salvador, Recife e Curitiba correndo por fora. Marginalmente, Fortaleza ou
Belém (pela quantidade) e Florianópolis (dado o poder aquisitivo).
Enquanto
isso, sob a ótica da oferta reside um número ainda maior de complicadores ao
futebol como espetáculo. É nesta conta, afinal, que se coloca o péssimo produto
oferecido, com dirigentes corruptos, times fracos e com rebarbas da Europa,
estádios ruins e gramados esburacados. Mais: aqui entram os graves problemas de
segurança pública e falta de infraestrutura de transportes, elementos tão
atribuídos como razões da ausência do público nos estádios. Clubes que
superaram algumas destas dificuldades, como Corinthians e Palmeiras, vem
destoando dos demais.
Em
suma, são variados e complexos os componentes da demanda por jogos de futebol
no Brasil – questão que muito em breve será retomada aqui no Blog Teoria dos
Jogos. Como tal, em Volta Redonda não haveria de ser diferente. A cidade veio
tão somente expor a urgência com que se fazem necessárias mudanças estruturais
na gestão dos clubes, via planejamento e capacidade de visão de longo prazo.
Sem, no entanto, servir como mártir de coisa alguma.
Um
grande abraço e saudações!
E-mail
da coluna: [email protected]
Siga
@vpaiva_btj

MAIS LIDOS

César não viaja para São Paulo e desfalca Flamengo

O Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro suspendeu a partida do Flamengo diante do Palmeiras deste domingo. Por não ser uma decisão...

Palmeiras ameaça paralizar o Brasileirão e torcida do Fla não deixa barato

O Flamengo está com vários atletas contaminados, além de dirigentes e membros da comissão técnica. Com o jogo marcado contra o Palmeiras neste domingo,...

UFC 253 ao vivo: Adesanya x Borrachinha

O fim de semana terá muitos eventos esportivos ao vivo. Um dos mais esperados é o UFC 253 ao vivo, onde envolve o brasileiro Paulo...

Palmeiras x Flamengo é suspenso

O jogo entre Palmeiras x Flamengo, que iria acontecer neste domingo, está suspenso. O Sindiclubes, sindicato que representa os atletas do Rio, entrou na...