sábado, setembro 26, 2020
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Everton fala de propostas, reestruturação e time do Flamengo.

Foto: Fred Gomes

GLOBO
ESPORTE
: O ano não começou da forma que Everton esperava. Com a chegada de
Muricy Ramalho, foi titular apenas nos quatro primeiros jogos da temporada e
perdeu a vaga. Até o Brasileiro, atuou em só 11 dos 25 equipe àquela altura e
em poucos deles conseguiu completar 90 minutos. Com Zé Ricardo as chances
reapareceram, e o camisa 22 ganhou força, sobretudo após marcar um gol e dar
duas assistências no empate por 3 a 3 com o Botafogo, pela 15ª rodada. Antes
tímido e inimigo dos microfones, Everton já tem a consciência de que é preciso
aparecer também para se consolidar no Flamengo. Encara os microfones com mais
naturalidade e, apesar de ser curinga, não esconde a preferência pela ponta
esquerda. Além disso, até atacou de ator em ação promovida pelo marketing do
clube. Fez surpresa para um motoboy que foi entregar comida em sua casa, o
presenteou com uma camisa e assistiu ao jogo contra o América-MG ao lado do fã
– não jogou porque estava suspenso.

Hoje
bem cotado com Zé Ricardo, Everton acredita na conquista do heptacampeonato
brasileiro e pensar no título, segundo o próprio, não é exagero. Vê o grupo
muito qualificado, o ranqueia como um dos três melhores do Brasil e, dentro de
um Flamengo “que não tem comparação” com o que defendeu entre 2008 e
2009, projeta o clube como uma potência nos próximos anos. Sobre si, diz-se
cheio de confiança para imprimir velocidade e partir para cima dos adversários.
– Eu
conversava no Flamengo, porque sempre converso com psicólogos e algumas
pessoas, e eles estavam comentando que estão me vendo como antes, de pegar a
bola e ir para dentro. A confiança voltou, e eu estou apostando muito nesses
quatro meses que faltam de campeonato. Espero que eu possa ajudar muito o
Flamengo com gols, vitórias e, se Deus quiser, com os títulos. Eu acredito (no
título). Estou no meu terceiro ano seguido aqui no Flamengo e acho que é um dos
melhores elencos em que trabalhei aqui. Não é exagero nenhum pensar no título
porque se, for pegar por posição, você vê que tem de dois a três jogadores de
extrema qualidade por posição – afirmou.
Confira
o papo com Everton abaixo:
A temporada começou e, com a chegada do
Muricy, as oportunidades ficaram mais raras. Passou uma incerteza na sua
cabeça? Você teve proposta da China, algo que seria bom para você e para o
Flamengo, então isso te fez pensar que o clube poderia ter negociar? E você
pensava também em talvez sair.
Até
teve interesse da China, acabou que não se concretizou, mas sempre estive
focado aqui no Flamengo. No início do ano tive poucas oportunidades, até pelo
Sheik ter jogado bem em 2015. O professor Muricy já tinha trabalhado com ele,
apesar que Emerson é um grande jogador e já tinha se destacado em 2015. Ele
tinha muita confiança no Emerson, que estava na minha frente. Ele também tinha
dito que recuperaria o Cirino, e ele estava fazendo muitos gols no Carioca,
então tive que esperar minha oportunidade. Continuei aqui no clube focado, trabalhando,
e sabia que uma hora ou outra teria a oportunidade. Tive essa oportunidade na
estreia, contra o Sport, e graças a Deus fiz o gol. Aí o professor Muricy foi
embora. Então agora estou com o Zé, treinador novo, e espero ter muitas
oportunidades também.
Há muitos jogadores de lado de campo no
Flamengo. Isso, aliado à falta de oportunidades, não te fez pensar em buscar
novos ares? Até porque incerteza na cabeça do jogador com uma situação dessas é
natural.
É
complicado quando o atleta não está atuando. Ainda mais eu, um atleta que, em
dois anos de Flamengo, sempre estive atuando nas partidas. Mas continuei
trabalhando forte. Muitas coisas que apareceram acho que surgiram só pela
imprensa, é engraçado que cada dia me colocavam num clube diferente. Mas fiquei
focado, conversei com a diretoria, com meus empresários, e eles sempre disseram
que a vontade era que eu ficasse. O que fiz foi trabalhar. Ia pintar a
oportunidade, e na hora que apareceu eu aproveitei.
Agora, você virou até garoto-propaganda e
participou de uma ação promovida pelo clube recebendo um motoboy na sua casa. O
fato de você ter virado “ator” num comercial mostra que você voltou a
ganhar força no clube?
Rapaz,
eu sou muito identificado com o Flamengo, é minha segunda passagem. Cheguei no
Flamengo muito novo, depois rodei por cinco equipes e voltei. Então o torcedor
do Flamengo tem esse carinho por mim. Foi muito legal ter esse contato com o
torcedor (motoboy), já que é muito difícil, só nos jogos mesmo que você bate
uma foto. Achei maneira essa iniciativa e espero fazer mais vezes. Isso aí de
moral é com a torcida (risos), eu procuro fazer meu trabalho bem, claro que se
jogar bem, eu vou ficar com moral com o torcedor.
O jogo com o Botafogo foi o seu melhor do
ano, com gol e duas assistências. O que está te possibilitando a voltar a
crescer no Flamengo, aliando velocidade e técnica?
Acho
que os jogos. Tive uma sequência que não tive no começo do ano, eu entrava só
no final dos jogos no início do ano. Eu já me conheço, então preciso de uma sequência
para ter uma resistência melhor. Acho que essa confiança do Zé, porque ele me
pede esse estilo de jogo, faz diferença. Acho que hoje em dia no futebol é
importante ter velocidade. No jogo com o Botafogo eu fui bem, graças a Deus o
gol saiu e depois vieram as assistências. Espero que eu possa fazer mais gols
também.
Acha que continuaria jogando se o Muricy
continuasse?
Eu
acho que sim. Depois do jogo contra o Sport (estreia pelo Brasileiro, com
direito a gol de Everton), eu fui bem, e ele me elogiou bastante.
Escutamos que o Flamengo não entendia mais
o que o Muricy passava. Teve isso mesmo?
Eu não
vi isso para ser bem sincero. Claro que as vitórias não estavam acontecendo.
Fomos eliminados da Primeira Liga, do estadual, e isso cria esse tipo de
conversa. Acho que foram mais os resultados e acredito que, se o Muricy
ficasse, o grupo estaria muito mais encaixado. Ele teria muito mais peças.
O que o Diego, principal reforço do
Flamengo, agrega ao time?
Muita
coisa. Eu quando era moleque vi ele jogar, é de extrema qualidade. Por onde
passou, ele ganhou títulos. Então, a concorrência vai ser grande ali na frente.
As oportunidades que tiver, eu vou ter que ir bem porque só assim vou conseguir
ficar entre os 11.
Você falou em concorrência grande e já
atuou como meia, assim como faz a lateral e a ponta. Se vê como concorrente de
Diego, Mancuello e Alan Patrick?
Acho
que minha função é diferente do Diego. Ele é um 10, um meia. Eu sou mais um
ponta, um extremo como falam hoje. Acho que é praticamente ali que o Zé vai me
usar, como um ponta esquerda, já que tenho facilidade de fazer aquele corredor
ali e é onde eu gosto de jogar nesses três anos de Flamengo.
Na sua primeira passagem, você foi
hexacampeão e teve papel importante quando o Juan se lesionou. Em 2009, o Fla
precisou de uma grande reação, agora a distância para o líder não é tão grande.
Acha que esse time luta pelo título ou é euforia do torcedor do Flamengo?
Eu
acredito. Estou no meu terceiro ano seguido aqui no Flamengo e acho que é um
dos melhores elencos em que trabalhei aqui. Não é exagero nenhum porque se, for
pegar por posição, você vê que tem de dois a três jogadores de extrema
qualidade por posição. Então eu acho que é para buscar o título, até pelo
investimento alto que o clube está fazendo. Temos que ser assim e buscar lá na
frente. A maior dificuldade é não ter o Maracanã, mas no Espírito Santo ou
aonde vamos jogar eles lotam os estádios. Então acredito que vai buscar lá em
cima mesmo.
Pintou a proposta da China, mas, perto dos
28 anos, a Europa vai se afastando. Você ainda pensa numa transferência para
fazer independência financeira ou já projeta um futuro longo no Flamengo?
Em
2014, tive várias especulações e uma proposta oficial. Em 2015, tive da China.
Penso que tem que ser bom para mim e para o Flamengo. Claro que se chegar um
chinês com dinheiro absurdo, acho que é difícil porque temos família e pessoas
que dependem da gente. Mas, graças a Deus, estou focado 100% no Flamengo. Tanto
que tenho casa aqui no Rio de Janeiro perto do CT, meus filhos estudam aqui
perto. Então meu pensamento é no Flamengo, não posso pensar diferente.
Como você disse, tem muito jogador por
posição. Isso pode gerar um certo desconforto, mas escutamos que esse grupo não
tem inimizades. É por aí?
O
clima é muito bom, eu não vejo a trairagem, como a gente diz no futebol.
Você já viu em outros clubes?
Já.
No próprio Flamengo na outra passagem
chegou a ter, não?
(Risos)
Tinham uns pi… (malucos). O Flamengo de 2009 tinha jogadores experientes, com
personalidade muito forte e que não eram fácil. Graças a Deus que encaixou.
Fora de campo não eram tão amigos assim, mas dentro de campo dava certo.
O Pet e o Bruno se davam em 2009? Porque
dizem que no ano seguinte, quando você saiu, o Bruno deu um tapa no peito do
Pet…
Em
2009, eu acho que ainda eram amigos. Eu fiquei sabendo (do tapa), mas eu não
estava mais. Em 2009, eu era molequinho e não falava nada, só tinha que escutar
os caras. Hoje os moleques sobem um pouco diferentes, na minha época eu tinha
que ficar no sapato. Se não ficasse, o bicho pegava (risos).
O jogo seguinte é sempre mais o
importante, dizem vocês, mas quarta-feira tem jogo no Mato Grosso, seu estado,
contra o Santos. Sua família já está se mexendo?
Vou
ter que arrumar uns 30 ingressos (risos). Nortelândia (cidade natal de Everton)
fica a 250 km. Já estão arrumando van, ônibus, mas eu disse que só arrumo 20 no
máximo. Moram lá ainda meus tios, avós, amigos.
A que você credita o crescimento do
Flamengo? O time entregou jogos contra Fluminense, São Paulo e Botafogo, mas
hoje é mais confiável. O que pesou para isso?
Encorpou
muito o time, e o Zé também. A gente está entendendo muito bem o que o Zé quer.
Para o jogo com o Coritiba, por exemplo, ele já tem uma estratégia e passa o
que quer da gente no jogo. Acredito que o Zé tem uma importância muito grande.
Você já trabalhou com treinadores mais
experientes e vitoriosos. Como foi para o grupo receber um técnico jovem e que
nunca tinha dirigido os profissionais? Não rolou aquela desconfiança?
Ele me
surpreendeu muito, porque tem uma personalidade muito forte. A gente acredita
que um treinador quando vem dos juniores fica um pouco tímido para chamar
atenção de um Sheik, de um Guerrero. Ele foi o contrário, chama atenção mesmo,
e aí pensamos: “esse cara não pipoca, ele é fera mesmo”. Ele é muito
inteligente, ele estuda futebol. O Zé tem uma importância grande.
Como ele ganhou o grupo, qual foi o
diferencial dele?
Ele é
muito verdadeiro no que fala, até com os que não jogam. Ele treina o time
reserva, faz rodízio. Como ele chegou no profissional com uma personalidade
muito forte, acho que surpreenderam a todos. Estuda muito futebol, é muito
inteligente.
Você já teve muitas lesões no futebol e
agora isso foi reduzido. O que mudou?
Acho
que esse centro que eles fizeram agora, a gente faz bastante exames de
musculatura. Eu sei o que tenho de fazer para não ter lesões, faço
fortalecimento e alongamentos.
O Flamengo usou o 4-4-2 no último jogo.
Agora com Diego, que será titular, e meias importantes como Mancuello e Alan
Patrick, crê que o 4-3-3 será deixado um pouco de lado?
Acho
que tem jogo que dá para jogar no 4-4-2 e tem jogo que dá para encaixar no
4-3-3. Acho que é bom o treinador ter essa variação. Esse 4-3-3 é engraçado…
Quando a bola está no lado direito, eu tenho que fechar no esquerdo como um
meia. Sou mais um meia do que atacante, vira um 4-5-1 sem a bola.
Você já passou por momentos bons, mas
muito ruins. Já sofreu punição, já viu o time por cima e por baixo. Como está a
cabeça do Everton com quase 28 anos?
Muito
tranquilo em relação a quando cheguei, com 19 anos. Quando chegava no Flamengo
e tinha que aguentar aquela pressão. Hoje sou mais tranquilo nos jogos, já sei
encarar a pressão de maneira diferente. Sei quando fui bem e quando fui mal.
Tenho minha família, minha esposa, que me ajuda e meus filhos. Aqui na minha
casa eu procuro esquecer um pouco de futebol. Estou muito mais preparado para
vestir essa camisa do Flamengo. A pressão é grande, mas tem que saber lidar com
ela.
Em casa você faz o quê?
Eu não
vejo televisão nem quando faço gols (risos). Procuro ficar com meus filhos
jogando PlayStation. Se eu ficar vendo os comentários, eu fico maluco. Vejo
filmes também.
O que você pensa dessa recuperação
financeira do Flamengo? Já passou por momentos difíceis no clube, sem receber
em dia. Como vê o Flamengo de hoje?
Muito
bem estruturado. Você receber em dia é excelente, acho que eles estão arrumando
tudo no CT. O jogador vai ao treinamento com muito mais vontade de trabalhar.
Acho que o Flamengo já é uma potência grande, mas vai voltar a ser top no
Brasil. Já tem um elenco que é um dos melhores do Brasil. Se os títulos
começarem a aparecer, as coisas vão voltar a ser como eram antigamente.
Como você qualifica o elenco do Flamengo
no Brasil?
Coloco
entre os três melhores do Brasil, até pelo investimento que fizeram. Tenho
certeza que isso só vai aparecer de verdade se vierem as vitórias.
Qual a diferença do Flamengo de 2009 para
o atual em termos de estrutura?
Não
tem comparação, acho que 2008/2009 era muito precária a nossa estrutura. No
Ninho, era um campo de treinamento, e o vestiário não estava nem acabado. Aí
tem muito torcedor que vai dizer: “Então vamos voltar para o tempo do
vestiário ruim” (risos). Mas hoje em dia não é assim o futebol. Tenho
certeza que essa estrutura vai dar muito resultado.
Como está seu momento atual?
Eu
conversava no Flamengo, porque sempre converso com psicólogos e algumas
pessoas. E eles estavam comentando que estão me vendo como antes, de pegar a
bola e ir para dentro. A confiança voltou, e eu estou apostando muito nesses
quatro meses que faltam de campeonato. Espero que eu possa ajudar muito o
Flamengo com gols, vitórias e, se Deus quiser com os títulos. Já estou com 28
anos, não sou mais garoto. Já fui na Coreia, no México. Aprendi a não baixar a
guarda. Hoje em dia, estou no Flamengo, tenho uma casa perto do CT. Essa
alegria tem que ter. Essa alegria fora de campo tem que refletir nos jogos. Se
o cara não tiver motivação de estar onde estou… Tenho esse privilégio de
jogar no Flamengo.
Faltava confiança a você?
Acho
que sim, porque é natural sem ter oportunidades. Graças a Deus, estou podendo
fazer gol e dar passes.
O que você precisa melhorar em 2016? E
qual seu ponto forte?
Uma
coisa que sempre me cobro é chutar mais a gol. Fazia mais isso no Atlético-PR
de dar o drible e fazer o gol. Procuro isso mais no Flamengo, de ser mais
ofensivo e buscar o gol. A experiência acho que é meu ponto mais forte e de
saber como as coisas funcionam. Não pode se abalar com as críticas e não se
empolgar com os elogios.
Acha que o Flamengo vai jogar a
Libertadores de 2017?
Acho
que sim. Pelo elenco que temos, vamos lutar lá em cima. E ano que vem vai ter
Maracanã. Maracanã lotado e com o Flamengo só contratando jogador de qualidade,
eu quero estar no bolo (risos). Ganhando uma Libertadores, a gente entra para a
história.

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