quinta-feira, outubro 1, 2020
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Filho F.C.

Renato
Maurício Prado – O desejo de qualquer pai é que o filho siga os seus passos. O
meu não era diferente. Queria que eu torcesse pelo mesmo time que ele (e
conseguiu, apesar da péssima fase do Flamengo, na minha infância), que gostasse
dos seus principais “hobbies” (no caso do velho, esportes em geral) e, sonho
dos sonhos, seguisse a sua profissão. Até tentei, mas as coisas não aconteceram
bem assim…
Falando
com franqueza, seguir os passos do “velho” nunca foi exatamente fácil, embora
tenha sido sempre o meu principal objetivo. Papai me contava, com orgulho, das
mirabolantes façanhas do Mengo dos tempos de Biguá, Bria e Jaime, Domingos,
Valido, Pirilo, Zizinho, Perácio e coisa e tal e eu era obrigado a torcer por
Fio, Michila, Néviton, Buião, Onça e Caldeira… Dureza! Mas, confesso, essa
era a parte mais fácil.
Complicado
era praticar esportes com ele. Levava jeito para qualquer um. Voleibol era o
seu predileto, mas brincava com talento também no basquete e no futebol era
bamba (gíria da época para craque) e eu, um tremendo perna de pau…
No
vôlei foi onde consegui me aproximar mais dele, mas ainda assim fiquei a léguas
de distância. Embora eu tenha chegado a ser “federado”, como se dizia na época
(ou seja, disputei campeonatos das divisões de base pelo Botafogo e pelo
Flamengo), o velho sempre foi o melhor da nossa rede na praia de Ipanema.
Jogando contra ele, me cansei de levar surras homéricas. E ao seu lado, sempre
fui eu o ponto fraco da dupla. Não era mole, não…
Papai
era oficial de marinha, submarinista, e optar pela carreira militar, na época
em que fui fazer vestibular, soava quase como uma insanidade, entre a maioria
dos jovens das turmas que eu frequentava na Zona Sul do Rio — vivíamos o início
dos anos 70, não custa lembrar.
Ainda
assim, mandei a opinião dos colegas às favas e segui o seu caminho, ingressando
na Escola Naval. Seu olhar de orgulho, quando me entregou o próprio espadim na
cerimônia do dia 11 de junho é algo que jamais esquecerei. No baile, à noite,
no Clube Monte Líbano, flutuava no ar, mesmo quando não estava dançando com
minha mãe, pois encontrar os amigos e colegas de turma e me apontar de longe,
com a farda de gala e o seu espadim na cintura, era algo, certamente, bem
próximo do Nirvana, na sua cabeça.
Na
minha, entretanto, as coisas não andavam assim. Fora a alegria de o estar
fazendo feliz, o resto tinha um sabor bem diferente. E pior. A Marinha que ele
me pintou a vida inteira e eu esperava encontrar na Ilha de Villegagnon, não
era exatamente a da vida real e muito cedo percebi que a incompatibilidade
comigo seria absoluta e intransponível.
O
resultado é que um ano e meio depois lá estava eu, na tolda da EN, já de roupas
roupas de civil, esperando-o para voltar definitivamente para casa. Aliviado
por estar dando fim a um sonho que se transformara em pesadelo, mas mortificado
só de pensar como aquilo deveria estar sendo dolorosamente terrível para o meu
“velho”.
E
eis que ele chega, me dá um abraço forte, me envolve pelo ombro e sai comigo
caminhando, rumo ao estacionamento. Lá, para minha surpresa, um fusca zerinho
me esperava.

Leva você. É seu, me disse com um sorriso maroto, me estendendo a chave e
apontando o banco do motorista.
Estupefato,
fui dirigindo pelo aterro do Flamengo, rumo a Ipanema, enquanto ele contava as
histórias de vários amigos dele que também tinham passado pela vida militar,
saíram e acabaram sendo até muito mais bem sucedidos que ele.
Anos
mais tarde, quando eu já tinha optado pelo jornalismo, e fazia uma carreira de
razoável sucesso, minha mãe me contou que naquele dia, papai chorara a noite
inteira (e ele nunca foi de chorar). Diante de mim, entretanto, ele nunca
admitiu frustração alguma. Ao contrário, a cada promoção me perguntava,
orgulhoso:
— Na
hierarquia da redação, esse seu novo cargo equivale ao que? Corveta? Mar e
Guerra? Almirante? — insistia, com os olhos brilhando.
Como
lhe explicar o autêntico abismo entre as duas profissões? Deixa pra lá. O fato
é que ele vibrava com cada reportagem, artigo ou qualquer outra coisa que eu
fizesse.
Porque,
acima de tudo, inclusive do nosso Flamengo e da Marinha dele, o velho sempre
foi “Alemão” F.C (sim, “alemão” era o carinhoso apelido com que me chamava).
Ele
foi meu maior amigo, meu ídolo, meu herói. Por isso, desde que se foi, o
segundo domingo de agosto nunca mais foi o mesmo.
Feliz
Dia dos Pais! E Deus queira que eu esteja conseguindo ser para meus filhos,
Michael e Luiza, ao menos 50% do que ele foi para mim.
Cadafalso

Trata
de ganhar hoje, hein, Cristóvão…

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