terça-feira, setembro 22, 2020
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Flamengo ajuda refugiados do Congo a assistirem Olimpíadas.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

ISTO
É
: Em clima de festa e de muita vibração, um grupo de refugiados reuniu-se
nesta quarta-feira (10) na sede da Cáritas Rio de Janeiro, no bairro do
Maracanã, para acompanhar, em um telão, a participação dos judocas congoleses
Yolande Bukasa e Popole Misenga nos Jogos Olímpicos Rio 2016.

Integrantes
da Equipe Olímpica de Atletas Refugiados, os dois se apresentaram de hoje (10)
em provas nas categorias 70kg feminino e 90 kg masculino, na Arena Carioca 2,
no Parque Olímpico da Barra, na zona oeste da cidade.
Os
dois vieram para o Brasil em 2013 para disputar o Mundial de Judô. Durante a
competição, para fugir de sofrimentos no país de origem, eles se desligaram da
delegação da República Democrática do Congo, buscaram refúgio no Rio e foram
acolhidos pela Cáritas, um organismo da Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil (CNBB), que está inserido nos trabalhos da Arquidiocese do Rio de
Janeiro.
Yolande
Bukasa e Popole Misenga tiveram que se adaptar e encontrar meios de manter o
condicionamento físico. A vida de atleta voltou ao normal quando os dois
conseguiram apoio da Universidade Estácio e do Instituto Reação, em
Jacarepaguá, na zona oeste, e começaram a treinar com Geraldo Bernardes, que
foi também treinador da judoca Rafaela Silva, medalha de ouro nos Jogos Rio
2016.
MÃE AOS 14 ANOS
Uma
das torcedoras na Cáritas era Mariama Bah, de 26 anos, que atualmente mora em
Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Ela veio de Gâmbia para o Rio há dois anos.
Na tribo de Mariama, é costume  meninas
serem oferecidas em casamento. Foi assim que, aos 14 anos, que ela se tornou
mãe.
Mariama
contou que, por lá, as mulheres não têm facilidade para estudar. “Eu quis ser
uma voluntária para a minha família e para o meu povo para poder educar mais
pessoas possível, porque educação não é um luxo, mas uma necessidade”, disse a
refugiada.
Ela
espera para setembro a chegada da filha, que está com 12 anos ao Rio, porque
não quer que a menina tenha o mesmo futuro dela. “O que eu passei não quero que
a minha filha passe. Não foi um matrimônio que eu escolhi. Eu era uma criança”,
afirmou Mariama, conseguiu voltar aos estudos e pretende um dia fazer faculdade
de medicina. “É um sonho. Vamos ver o que vai dar.”
A
gambiana interrompeu sua história ao ouvir o anúncio da entrada de Yolande no
tatame. A comemoração foi imediata: “agora vai começar e eu vou torcer”, disse
ela, encerrando delicamente a entrevista.
LUTA
Porém,
Yolande não resistiu à israelense Linda Bolder e foi eliminada. Ninguém queria
a desclassificação de Yolande, mas a emoção de ver a congolesa disputando a
Olimpíada foi mais forte. E ainda faltava a luta de Popole Misenga. Enquanto as
crianças brincavam, a entrada do judoca na arena foi saudada pelo grupo com
bandeiras do Congo e dos Refugiados. Durante a luta, muita apreensão e torcida
forte. O grito de alívio surgiu com a vitória de Misenga sobre o indiano Avtar
Singh. A comemoração veio com um coro cantado em lingala, uma das línguas
faladas na República Democrática do Congo. “Bate ele. Bate ele, Popole”,
traduziu para o português o eletricista Elvis Nigangu, de 23 anos.
ESCOLARIDADE
Fugindo
da guerra em sua comunidade, Nigangu chegou ao Brasil há pouco mais de dois
anos, com o ensino médio concluído e foi acolhido pela Cáritas, com uma tia e
um irmão. No Rio, ele já conseguiu trabalhos de eletricista, mas atualmente
está sem emprego. Para o futuro, o morador de Brás de Pina, na zona norte,
pensa em se formar em engenharia.
Mireille
Muluila, formada em relações internacionais, lembrou que entre os refugiados há
muitos profissionais formados. “Temos médicos, temos engenheiros, temos
jogadores. Temos tido mundo nos refugiados”, ressaltou Mireille. “Eles saem de
seus países, não porque querem, mas porque são forçados para buscar paz, para
buscar outra vida, para fugir da guerra.”
Para
Mireille, que trabalha na Cáritas ensinando português a seus companheiros, a
participação dos judocas defendendo a Equipe Olímpica de Atletas Refugiados é
motivo de orgulho “Representa muito. Representa força e representa a conquista,
a chegada a algum lugar. Chegaram sem nada, saíram de seu país sem conhecer
ninguém. Sair de seu país e deixar tudo que se construiu para buscar refúgio em
outro país não é uma coisa pequena. É muito difícil ficar longe da família.”
Há um
ano e sete meses no Brasil, Agostinio Nzinga conseguiu se empregar em uma loja
que vende material do Flamengo. O congolês disse que já conhecia de nome o
ex-jogador de futebol Zico, um dos ídolos do clube, e aí a identificação veio
logo após conhecer a torcida rubronegra. Hoje ele faz parte da Fla Refugiados,
com bandeira e camiseta.
Para
Agostinio, é motivo de satisfação ver que congoleses que passam por situação
igual à sua conseguiram destaque no esporte. “Participar de uma competição
dessas já é muito grande, para ela [Yolande] e para nós. Em outro campeonato
que vai vir, ela vai ser selecionada de novo”, disse Agostinio, esperançoso com
a continuidade da carreira de esportista da compatriota.
Popole
Misenga foi desclassificado na segunda luta, quando entrou no tatame contra o
sul-coreano Donghan Gwak.
A
formação da Equipe Olímpica de Atletas Refugiados foi uma iniciativa do Comitê
Olímpico Internacional e teve apoio da Agência da Organização das Nações Unidas
(ONU) para Refugiados (Acnur), que atuam juntos há mais de 20 anos, para
promover os esportes como meio de desenvolvimento e bem-estar dos refugiados,
em especial das crianças.
A
equipe olímpica é composta por 10 refugiados. Dois nadadores sírios, os judocas
da República Democrática do Congo, um maratonista da Etiópia e cinco corredores
do Sudão do Sul. De acordo com a Acnur, eles deixaram o país de origem por
causa de conflitos, perseguições e violações dos direitos humanos, e
encontraram refúgio na Alemanha, na Bélgica, no Brasil, em Luxemburgo e no
Quênia.

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