Flamengo fará 1 minuto de silência para Tchê na Ilha do Urubu.

Divulgação/Flamengo

O
GLOBO
: A figura daquele senhor que, orgulhoso, exibia aos jogadores do Flamengo
as fotos deles em ação era marca registrada de cada treino rubro-negro. É
verdade que Ruben Etchevarria vivia de vender as imagens aos atletas, mas o
trabalho parecia um pretexto para estar próximo do dia-a-dia do clube pelo qual
se apaixonou, um amor que o fez nunca mais voltar ao Uruguai, seu país de
nascimento. Tchê, como era conhecido, morreu nesta quarta-feira, aos 91 anos.
Ele será homenageado com um minuto de silêncio antes do jogo Flamengo x Ponte
Preta, na inauguração do estádio da Ilha do Governador.

Nascido
em uma família de militares, decidiu não seguir o mesmo caminho do pai e veio
para o Brasil, onde caiu de amores pelo país e pelo Flamengo. Aportou em
Santos, em fevereiro de 1952 e, um ano depois, estava no Rio. Numa época em que
o fluxo de jogadores estrangeiros não era tão comum quanto hoje, acabou se
tornando uma espécie de porto seguro dos “gringos” que o Flamengo,
vez por outra, importava. Foi o caso de Manicera, defensor uruguaio que chegou
à Gávea em 1967. À época, o reforço parecia deprimido, sem ambiente. Tchê
contava tê-lo convidado para ir a sua casa, feito “um guizado de
gringo” e colocado “um tango na vitrola”. Manicera ficou dois
anos no Flamengo.
Duas
décadas mais tarde, coube ao surgimento da histórica equipe comandada por Zico
produzir algumas das mais pitorescas passagens da relação entre Etchevarria e o
rubro-negro. A maior era de conquistas do clube teve seu ponto de partida no
título carioca de 1978, conquistado graças ao antológico gol de Rondinelli, a
três minutos do fim. E, quem diria, com “passe” de Tche.
— O
Flamengo precisava ganhar. Nada de fazer o gol. Até que uma bola caiu nas
minhas pernas. Eu olhei e vi o Zico, parecia procurar alguém para bater o
córner. Eu disse: “Bate você mesmo” — não cansava de contar o
uruguaio. Pois foi da cobrança de córner que saiu o gol.
Tchê
virou quase um membro da equipe. Era o churrasqueiro oficial de todas as
confraternizações daquele time e foi até chefe de delegação do Flamengo em uma
viagem à Suécia.
Eram
quase folclóricas as conversas com jogadores, espécies de
“negociações” em torno do valor das fotos, algumas em molduras,
outras ampliadas como pôsteres. Os menos gastadores reclamavam do preço, embora
Tchê quisesse, mesmo, estar junto ao time. Por vezes não cobrava ou até fingia
ter esquecido de receber. Para se sustentar, além de vender fotos aos atletas,
deixava dua produção em bancas de jornais da cidade. A morte de Tchê coloca
ponto final numa das mais puras histórias de amor entre um torcedor e seu
clube.

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