quarta-feira, setembro 30, 2020
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Flamengo: Pobre, porém limpinho.

DOENTES
POR FUTEBOL – A crônica inicia com questionamentos curtos e grossos: tendo em
vista o contexto financeiro caótico no qual está inserido o Flamengo desde fins
de 2012, qual torcedor, apegado a mais pura e ingênua sinceridade, acreditou
que o rubro-negro carioca chegaria em fins de 2015 com uma espécie de time
“supercampeão”? Com que espécie de milagre ou magia contavam os obsessivos e
megalômanos torcedores flamenguistas? É a mesma lógica de o indivíduo pagar
dívidas com boa parte do que ganha e querer passar férias em Ibiza ou comprar
um carro importado. Seja qual for o contexto, ninguém que se propõe a “apertar
o cinto” em nome de se tornar um bom credor passa por momentos fáceis.

Fala
do presidente em sua cerimônia de posse: “(…) fora de campo os problemas são
mais preocupantes. Temos uma fama de um clube mau pagador, que desrespeita
contratos, que não tem transparência e responsabilidade (…) As crianças e
adolescentes olham as manchetes nos jornais. E que exemplo é esse que estamos
dando à eles? O torcedor fica envergonhado quando o clube não paga seus
funcionários, quando lê que está devendo. Como podemos cobrar uma postura
profissional de nossos atletas se não tivermos uma conduta profissional?”.
Quando
o grupo de executivos, que hoje se dividiu em dois, todos bem-sucedidos em seus
respectivos ramos, venceu as eleições, não só pôs em prática uma plataforma de
governo, bem como a sustentaram sob um sistema ideológico dolorosíssimo. Um
remédio amargo seria dado. Isso foi dito e repetido nos primeiros meses de
gestão de Eduardo Bandeira de Mello. O maior erro, talvez, de sua presidência à
frente do Flamengo, clube mais popular do país, tenha sido, em dado momento,
deixar brechas para que seu foco fosse esquecido ou distorcido não só entre
grandiloquente massa torcedora, como também dentro do próprio clube.
Assumiram
e cortaram na carne sim. Em 2013, fizeram um pacote de apostas, dispensaram
jogadores que tinham predileção na torcida em nome de oxigenação financeira,
contrataram atletas desacreditados em seus times de origem, trocaram de
técnicos ora priorizando o preço mais viável, ora priorizando o
custo-benefício, mas nunca, nunca esperem que um executivo à frente do Flamengo
venha público dizer que seu elenco é “pobre, porém limpinho”, como diz o dito
popular.
O mais
próximo disto, vejam só, foi o sincero e honesto time do segundo semestre de
2014 comandado por Luxemburgo que não se envergonhava em sustentar o discurso
de que existia tão somente pra se livrar do rebaixamento, habilmente apelidado
de zona da confusão, pois mesmo no futebol as palavras têm poder.
Ao
torcedor rubro-negro, sinceras desculpas de antemão se suscetibilidades são
feridas, mas ele precisa saber que entre 2013 e 2015, não importam os
resultados, as vitórias ou derrotas, os vexames, as apostas, o belo passado
glorioso, o Flamengo não se propôs a montar equipes campeãs. Em 2013, costurou
sua colcha de retalhos “limpinha”, fracassou no estadual, ficou num insosso 11°
lugar no brasileirão, que se transformou num arriscadíssimo 16° através da
trapalhada do caso André Santos (além disso, é teoria da conspiração), e
montado no cavalo do improvável, tão veloz e eficiente no Maracanã, foi
tricampeão com méritos e justiça numa das mais difíceis edições da Copa do
Brasil.
A
mesmíssima fórmula foi aplicada em 2014. Lá estavam as apostas, lá estavam os
refugos e a tentativa de se montar um elenco “limpinho”. No primeiro semestre,
o improvável agiu e trouxe um estadual em cima do Vasco. E ali, no gol
irregular de Márcio Araújo, um dos ícones deste triênio, para o bem e para o
mal, a imprevisibilidade das coisas, artigo luxuoso e que nunca possui dono,
deixou de agir. A realidade caiu cruel e pesada na semifinal da Copa do Brasil
e lá estava o Flamengo figurando o meio da tabela na 38° rodada, o 10° lugar.
A
partir da cisão do grupo gestor rubro-negro, por pura e completa falta de
administração de egos, em 2015 a mesma estratégia foi adotada. Desta vez, com
uma ousadia maior, pois a oxigenação financeira já era visível. E hoje, após 32
jogos, 14 vitórias, 2 empates e 16 derrotas (um recorde negativo que iguala o
ano de 2006 em desempenho ruim), após eliminações de um cambaleante estadual e
da Copa do Brasil para um dos piores Vascos da história, após sair do meio da
tabela e chegar ao 4° lugar do campeonato, lá está o Flamengo no seu tão
conhecido 10° lugar. Quem disse que a estratégia não deu certo? Monta-se um
time com base no ano anterior que não foi bom, contratam-se apostas e
alternativas baratas como jogadores encostados e/ou com históricos de lesão,
continua-se a priorizar os ainda astronômicos débitos. O que se espera além do
improvável agir novamente e sorrir em competições de tiro-curto, tais como o
estadual e a Copa do Brasil, reservando o meio de tabela no brasileirão?
O que
mudou em 2015 foi o simples fato de que, além do time não ter ganhado absolutamente
nada nos tiros-curtos, acumulou derrotas e mais derrotas para times de aporte
bem menor. Desta forma, esbarra-se num dado cultural do torcedor brasileiro e o
Flamengo emula o Brasil sempre: somos uma geração de torcedores mimados,
acostumados a glórias a qualquer preço sob quaisquer contextos. Somos crianças
birrentas, fazendo pirraça para o pai gastar o que não possui para comprar
aquele brinquedo que ajudará a “tirar onda” com o colega. Esperneia-se pela
vitória e pelo título custe o que custar. O futebol brasileiro foi construído
sobre este dogma. Sintomático é o fato de que vice, aqui, virou sinônimo de
fracasso.
Em ano
eleitoral é preciso que se saiba que se o executivo que capitaneou as complexas
finanças rubro-negras por 2 anos e agora é oposição já avisou que 2016 por uma
série de questões continuará sendo um ano de apertos para o futebol brasileiro
e, consequentemente, para o Flamengo, o horizonte continua “pobre, porém
limpinho” independente da chapa vitoriosa. A realidade é o 10° lugar e a glória
no tiro-curto se o dado do improvável cair novamente a favor. Do contrário, é
admitir com a maior sinceridade do mundo que a honestidade, a credibilidade, a
lisura e a idoneidade que tantas pessoas cobram da sociedade sejam postas de
lado em nome do brinquedo da glória. Não existe meio termo decente num meio
indecente. O remédio é muito mais amargo do que dizem.
Por
Nilton Plum

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