domingo, setembro 27, 2020
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Flamengo se perde ao tentar seguir o líder.

Rodriguinho, Emerson Sheik e Pará durante Flamengo x Corinthians – Foto: Buda Mendes/Getty Images

ANDRÉ
ROCHA
: O Palmeiras habituou-se no returno a fazer mais com menos. Perdeu os
gols de Gabriel Jesus, apesar de decisivo no empate com o Flamengo, o fulgor de
Roger Guedes e capacidade de construir volume de jogo. Mas Cuca compensa com as
jogadas ensaiadas, a ênfase nas cobranças de lateral de Moisés, nos chutes
fortes de Tchê Tchê. Também nas defesas de Jailson, um achado para repor a dura
perda de Fernando Prass.

Acima
de tudo, no pragmatismo de não se importar em sofrer para garantir os três
pontos e na eficiência para matar o adversário, mesmo que ele não ofereça
tantas oportunidades, ou a própria equipe não apresente qualidade para criá-las.
Apesar do jogo ansioso, que define rapidamente as jogadas, e muitas vezes
pobre, o time vence, pontua e que sigam o líder.
Já o
Flamengo construiu a campanha de recuperação com base no desempenho. O time de
Zé Ricardo cresceu com as entradas de Diego e Leandro Damião, se ajustou num
4-2-3-1 compacto, com posse de bola e jogadas trabalhadas. Mesmo sem placares
elásticos, as atuações eram sólidas. O jogo fluido, consistente. Paciente.
Até a
hora em que se viu a um ponto do topo da tabela, a disputa com o alviverde
ficou mais polarizada pela queda do Atlético Mineiro e, para buscar o título,
resolveu que as partidas seriam “para ganhar e não jogar”. Arrancar os três
pontos à forceps, se preciso. Um culto à mediocridade que o Corinthians no ano
passado provou não ser necessário. A senha para se perder.
Esse
Fla não sabe ser minimalista e apressado. Pelo contrário, normalmente para ir
às redes precisa de muita posse, de rodar a bola, de minar as forças do rival e
finalizar várias vezes. Sem desempenho restaram as jogadas aéreas. Que já eram
muitas, porém a equipe não dependia tanto delas.
Dos
últimos cinco gols, quatro foram em cruzamentos na bola parada: o gol atribuído
a Damião no Fla-Flu, o de Rever contra o Internacional e os dois de Guerrero no
empate com o Corinthians na reabertura do Maracanã.
Jogo
que já se configurava perigoso durante a semana. Normalmente quando o assunto
futebol fica longe da pauta não termina bem. De segunda a sábado só se falou de
STJD e depois dos ingressos esgotados.
No
domingo o estádio estava lindo e o mosaico “Tua Glória é Lutar” belíssimo. Só
que isso não ganha jogo. Pelo contrário, costuma dispersar o próprio time e
agigantar o rival. Não por acaso, os vários “Maracanazos” na história recente
do clube.
O
Flamengo achou que o Corinthians só se defenderia. Ainda mais com Oswaldo de
Oliveira escalando Willians no lugar de Camacho. Mas o 4-1-4-1 armado estava
pronto para o contragolpe. Com os pontas Romero e Marquinhos Gabriel procurando
as diagonais e Guilherme como “falso nove” circulando às costas de Márcio
Araújo e Willian Arão.
Porque
Zé Ricardo promoveu as entradas de Emerson e Mancuello, porém não alterou o
desenho tático já estudado e mapeado pelos adversários. O mesmo 4-2-3-1, com o
argentino tentando ser um ponta armador pela esquerda e o camisa onze buscando
as diagonais para se juntar a Guerrero.
A
“ressurreição” do Sheik é inexplicável. Um gol no Palestino no Chile pela
Sul-Americana foi o suficiente para reaparecer. Emerson era o jogador símbolo
do time desconjuntado de Muricy Ramalho. Nos últimos tempos, se tornou o típico
atacante “enganador”.
Repare:
ele não se esconde do jogo, se apresenta, corre muito para seus 38 anos. Ainda
“faz fumaça”. Mas em toda jogada aguda, seja assistência ou finalização, o
acabamento técnico é ruim. Objetivamente colabora muito pouco. Ou quase nada. E
ainda sobrecarregou Pará por não voltar pela direita. Bem pior que os outros
ponteiros velocistas.
Restou
ao Flamengo despejar bolas na área para reagir diante de um Corinthians que
trabalhou como o time rubro-negro costumava fazer: jogadas de aproximação, com
triangulações e movimentação na frente. Abriu o placar com Guilherme recebendo
livre e finalizando fraco, mas no canto. Depois Rodriguinho completou a mais bela
jogada da partida, com direito a corta-luz do camisa dez.
Foram
nada menos que 41 cruzamentos em pouco mais de noventa minutos, O 19º encontrou
Guerrero (muito) impedido para o primeiro empate. O peruano marcaria o segundo
no rebote do toque de Arão, que no final deu lugar a Damião. Após a tola
expulsão de Guilherme o Fla partiu para o abafa num descoordenado 4-2-4.
Lutou,
suou, com fibra e persistência. Mas futebol mesmo entregou muito pouco. Uma
nova atuação bem abaixo da média do time na competição. E sem desempenho o
resultado normalmente não vem. O Palmeiras das últimas rodadas é a exceção.
O
Flamengo vive um paradoxo: achou que precisava não jogar para pontuar e seguir
o líder. Agora se não resgatar sua essência pode até sair do G-3. Os jogos contra
Atlético Mineiro e Botafogo viraram decisões pela vaga direta na fase de grupos
da Libertadores.
O
futebol é dinâmico.

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