domingo, setembro 27, 2020
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Gabeira e o docinho que caiu no rio.

REPÚBLICA
PAZ E AMOR – Fernando Gabeira gosta de futebol e é torcedor do Flamengo. Em
maio desse ano ele publicou, em sua coluna no jornal O Globo, um belo texto com
o título “Flamengo e Brasil”, em que faz uma analogia entre a situação do clube
para o qual torce e a do país em que nasceu. Gabeira reconhece a importância do
ajuste fiscal a que o clube vem se dedicando desde 2013, mas reclama da
mediocridade do time e da falta de resultados em campo. Desolado, desabafa:
“Quando volto da estrada, aos domingos, vejo um futebol. Vou trocar o hábito
por um vídeo de clássicos europeus.”
Entretanto,
lembrei do Gabeira por algo bem mais antigo: o parágrafo que encerra o primeiro
capítulo do mais famoso de seus livros – O Que É Isso, Companheiro? –, em que
ele conta uma deliciosa história sobre os arroubos e as ilusões da esquerda,
que se julgava em condições de resistir ao golpe militar de 1964. No exílio
sueco, trabalhando como maquinista de metrô e tendo como colega de ofício o
ex-dirigente da Associação de Marinheiros, Antônio Duarte, Gabeira tentava
obter do amigo explicações para o que acontecera em 31 de março de 1964:
“E as
armas, Antônio? As armas que você traria para nós? Quantas vezes não perguntei
isso durante as partidas de xadrez do exílio. E quantas vezes você não me
repetiu essa história, sempre com sabor daquele conto da infância: alguém foi à
festa, vinha trazendo um docinho para nós, vinha passando por uma ponte e
pluft, caiu o docinho no rio. Pena.”
Nossa
chegada ao G4, na vigésima quarta rodada, e a melancólica maneira como saímos
dele na vigésima sexta – para nunca mais voltar – parecem o docinho se
espatifando no rio. Demos azar, a bola não quis entrar, tivemos o controle do
jogo, tomamos gols que não podemos tomar, perdemos inúmeras chances, agora é
levantar a cabeça, trabalhar para corrigir os erros e buscar a recuperação. Um
discurso lindo, emocionante, arrebatador.
Perder
do Corinthians no Itaquerão não é o fim do mundo – aconteceu com quase todo
mundo que já jogou lá. Eles têm um time consistente e equilibrado, nós não.
Nunca perguntei isso ao meu neto de quatro anos, mas é possível que até ele
saiba que o lugar onde se decidem as coisas em um jogo de futebol é no
meio-campo, e chega a ser humilhante comparar o meio-campo do Corinthians com o
nosso. É bem capaz do meu neto saber, também, que o problema não foi a derrota
de ontem, da mesma forma que não foi a derrota para o Atlético Mineiro no
Independência. O problema foi não ter vencido o Coritiba, o Inter e – dando um
desconto pelo fato de jogar fora de casa – não conseguir ao menos empatar com o
Figueirense. Estamos falando, só aí, da bagatela de sete pontos, o que nos
levaria a 51 e nos deixaria em quarto lugar no campeonato.
Ah,
Murtinho, qual é? Vai ficar remoendo o passado? Como não me conformo com esses
sete pontos vergonhosamente atirados pela janela, vou sim. Mesmo porque, do
contrário, estaria repetindo mecanicamente a inócua lenga-lenga de dois
parágrafos atrás – estamos melhorando, vamos acertar o posicionamento, a vida
continua na próxima rodada (ou será no próximo ano?) e blá-blá-blá.
Porém,
há um elemento curioso no que se refere às expectativas de cada clube. Enquanto
eu escrevia esse post, mantinha a tevê ligada na transmissão de Goiás e
Cruzeiro. Do momento em que o Cruzeiro fez o gol, no comecinho do segundo
tempo, até o fim do jogo, o narrador repetiu pelo menos seis vezes que, com a
vitória, o time mineiro entrava de vez na briga pelo G4. Trata-se de uma lógica
um tanto ilógica, já que Flamengo e Cruzeiro têm o mesmo número de pontos e
somamos duas vitórias a mais.
A
explicação para a incongruência talvez esteja no fato de que, ao contrário do
Cruzeiro que só agora vem subindo na tabela, nós já tivemos o gostinho do doce
na boca. Mas, pluft, ele caiu no rio. Pena.
Jorge Murtinho

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