domingo, setembro 20, 2020
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Gratidão e solidariedade.

República
Paz e Amor – Com o bravo elenco rubro-negro gozando de imerecidas férias,
confesso que me vi numa sinuca de bico. Falar de quê? Para quem? Até que veio a
Fifa – sempre ela – para me atirar a boia salvadora, corroborando uma absurda
suspensão de quatro anos ao atacante Jobson, aplicada pelo Comitê Antidoping da
Arábia Saudita.

bom, Murtinho, mas o que é que isso tem a ver com o Flamengo? Antes de mais
nada, sejamos flexíveis: se é sobre futebol, tem a ver com o Flamengo. Um não
existe sem o outro. Mas há um motivo adicional, e muito importante.
Gratidão
é uma virtude, e temos rubro-nigérrimas razões para ser gratos a Jobson.
Refrescando a memória: a três partidas do fim do Brasileirão de 2009, estávamos
com 60 pontos e o São Paulo com 62. A tabela da 36ª rodada apresentava Botafogo
x São Paulo no Engenhão, Flamengo x Goiás no Maracanã. Nós e o São Paulo
brigávamos pelo título, o Botafogo para não cair e o Goiás queria apenas dar
provas de dignidade. Jogamos tensos, não saímos do zero a zero e, se o São
Paulo vencesse no Engenhão, 2009 teria ido para o brejo.
Mas
Jobson acabou com o jogo. Fez um grande gol no primeiro tempo, num chutaço que
o falso mito do Morumbi nem viu por onde passou, armou todo o lance do segundo
e marcou o terceiro no finalzinho, com um drible desconcertante em Miranda e
outra cacetada. Também devemos ser gratos ao Goiás, que na rodada seguinte
venceu o São Paulo por quatro a dois, e – muito mais do que tudo, claro –
àquele elenco que, comandado por Petkovic e Adriano, atropelou na reta final e
nos tirou dos incômodos dezessete anos de fila. Mas o tema desse post é a punição
a Jobson.
Na
primeira passagem do atacante pelo Botafogo, Romário chegou a defender sua
convocação para a seleção brasileira. O que hoje pode parecer exagero, na
verdade não era, se lembrarmos de Afonso, Bobô, André, Kléber, Jô e que tais.
Jobson se movimentava bastante, caía com facilidade pelos lados do campo, era
veloz e batia forte na bola, conforme atestam os dois gols acima citados. (Quem
quiser rever, basta copiar e colar esse link: youtube.com/watch?v=uxk3_gAhbKY)
Entretanto, e infelizmente, Jobson foi capturado pelo crack.
No
site www.antidrogas.com.br, o presidente da Associação Brasileira de Estudos do
Álcool e Outras Drogas, Carlos Salgado, afirma que “o usuário de crack queima a
boca, os dedos, as vias aéreas e o pulmão”. Já o psiquiatra Jairo Werner revela
que, como o dependente mal come ou dorme, os casos de desnutrição são comuns e
que ele chegara a atender pacientes que perderam mais de dez quilos em uma
semana.
O
Michaellis Online apresenta a seguinte definição para a palavra doping: uso
ilegal, por um atleta, de substâncias químicas que lhe aumentem o desempenho.
Vamos combinar: por mais mal-informado que seja, atleta algum pode esperar
aumento de desempenho por meio de uma droga que lhe queima o pulmão, lhe tira o
apetite e o deixa sem dormir.

tudo liberado então? Não, claro que não. Jobson merece ser punido? Sim, claro
que sim, embora seja aconselhável colocar sob suspeita a estranha conduta do
Comitê Antidoping da Arábia Saudita.
De
qualquer modo, não dá para aceitar que se afaste um jogador durante quatro
anos, por ele ter usado uma substância que não lhe traz benefício competitivo
algum, pelo contrário, só prejudica sua performance.
Dinheiro
e ascensão social, várias vezes usados como argumentos para julgamento e
condenação (“ele não tinha perspectiva na vida, de repente tem essa chance,
começa a ganhar dinheiro e faz um monte de cagadas”), na verdade deveriam
funcionar ao inverso. Por estar jogando tudo pelo ralo, fica mais do que
evidente que esse cara precisa é de apoio, e não de punição.
Ok:
como o futebol passou a contar com milhões de interesses e a movimentar uma
quantidade estratosférica de grana, o profissionalismo pede regras firmes e
sanções exemplares a quem atua fora delas. Mas é inadmissível que a Fifa seja a
primeira a tirar da reta, em vez de entender a gravidade da situação e tentar
ajudar os muitos jogadores e ex-jogadores que sofrem de dependência química. Se
a única coisa que a autoridade máxima do universo futebolístico consegue fazer
é punir, claro está que ela parte do princípio de que dependência química é
falha de caráter, e não uma doença. Pura ignorância.
Treinador,
dirigente, comentarista e um sujeito inteligentíssimo, João Saldanha conhecia
como poucos os bastidores do futebol. Sempre que começava na imprensa um
conhecido tipo de campanha contra esse ou aquele cobrão de personalidade mais
inquieta, Saldanha avisava: “Cuidado, gente, jogadores de futebol têm mais ou
menos a mesma idade dos nossos filhos e fazem mais ou menos as mesmas coisas
que os nossos filhos.” Espero que nenhum de nós, autores e leitores do
RP&A, tenha filhos ou irmãos ou amigos convivendo com problemas semelhantes
ao do Jobson, mas o alerta de Saldanha serve para todos e é de uma lucidez
admirável.

Jorge
Murtinho

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