Hoje é um novo dia de um novo tempo. Será?

Por: Fla hoje

Foto: Reprodução

REPÚBLICA
PAZ E AMOR
: A edição de dezembro da revista Piauí trouxe uma primorosa matéria
assinada por Daniela Pinheiro, “O jornalismo pós-Trump”. Um dos entrevistados é
Martin Baron, o ex-editor do Boston Globe retratado no filme Spotlight e atual
editor-chefe do Washington Post. A respeito dos equívocos cometidos pela
imprensa norte-americana na recente cobertura pré-eleitoral, Baron declara o
seguinte: “Meu conselho sempre é: deixe-se impressionar. O antídoto de
previsões erradas é ir para a rua e apurar.”

Eis
uma dica valiosa para campanhas bem-sucedidas de um time de futebol, apesar de
difícil aceitação por nós, os de pele rubro-negra. Como sabemos, o Flamengo é o
fodão do Bairro Peixoto, o pika das galáxias, o senhor da autossuficiência.
Nada é capaz de nos impressionar. No decorrer de qualquer campeonato,
costumamos afirmar que aquele é barbada, o mais fácil de todos os tempos. E se
não o ganhamos, lá vem o argumento de sempre: perdemos para nós mesmos.
É
batata: quando acontece um desses infortúnios inexplicáveis e somos eliminados
da Copa do Brasil, já no jogo seguinte alguém estica uma faixa com a frase
“Brasileiro é obrigação”. Nos dias ou noites em que tudo dá errado, soltamos a
voz no grito de queremos raça e logo evoluímos para o coro de time sem
vergonha. Pode ser. Há casos na história do futebol, e também na nossa. O
problema é que nunca fazemos a prosaica pergunta eternizada por Mané Garrincha:
alguém combinou com os caras do outro lado?
O
tradicional jeito de pensar rubro-negro recomenda a Martin Baron que guarde sua
lição para si. No entanto, talvez fosse útil rever certos conceitos.
Se é
preciso ter confiança no que o nosso time é capaz de produzir, também é correto
reconhecer as qualidades dos adversários. Se é fundamental exigir que aqueles
onze marmanjos deem o sangue até o apito final, também é prudente entender que
dentro de campo nem sempre as coisas saem como planejamos. Se é justo
orgulhar-se do trabalho realizado pela diretoria no aspecto financeiro, também
é sensato ter consciência de que esse não é o objetivo final e que de nada
valerão a honradez e a pujança se elas não se transformarem em resultados e
títulos. Se é importante enaltecer contratações como a de Diego, também cabe
questionar a titularidade de jogadores que têm um nível muito inferior ao do
Flamengo com que sonhamos.
Elogiar
os acertos, criticar os erros: como não entramos em campo e tampouco tomamos
decisões técnicas ou administrativas, é essa a parte que toca a quem torce.
Portanto, vamos lá.
Em 25
de janeiro de 2016 publiquei um post aqui no RP&A, com o título de “Tempos
modernos”, em que apontava Palmeiras e Atlético Mineiro como os favoritos para
as competições do ano. O sétimo parágrafo começa da seguinte maneira:
Com a
esperada debandada no Corinthians, avalio que Atlético Mineiro e Palmeiras são
os clubes que largam na frente para a temporada.
O
Palmeiras foi campeão brasileiro com ótima campanha. O Corinthians, que nadara
de braçada em 2015, não teve como manter oito dos seus titulares e ficou fora
até da inchada Libertadores. O Atlético brigou até o fim pelos dois títulos
nacionais, caindo das nuvens na inesperada derrota em casa na primeira partida
decisiva da Copa do Brasil.
Todo
mundo que dá palpites sobre futebol acerta aqui e erra ali. Espero que eu volte
a acertar nesse ponto, pois acho que em 2017, além do Palmeiras, quem larga na
frente somos nós.
O
Atlético Mineiro já não conta com Júnior Urso e Leandro Donizete, o goleiro
Victor teve uma lesão séria nas férias, parece que Pratto dificilmente ficará
e, como nada é tão ruim que não possa piorar, Erazo permanece na zaga. Embora
não tanto quanto o Corinthians em 2015/2016, o Atlético começa o ano mais fraco
do que terminou no ano passado, e precisando se reorganizar.
O
Santos é perigoso. Rápido. Traiçoeiro. Mesmo arriscando mais uma temporada com
os longevos Renato e Ricardo Oliveira entre os titulares, o clube vai dar
trabalho, desde que não perca Zeca, Lucas Lima, Vitor Bueno, e consiga o
atacante que tem procurado. Eu torcia para que fosse o Luís Fabiano, em quem
sempre vi mais fama do que proveito, no entanto as negociações emperraram e
Kayke virou a bola da vez. Seja quem for, olho no peixe.
O
Palmeiras continua muito forte e competitivo. Sua encrenca – tão grande quanto
a fortuna de Paulo Nobre – é encontrar um substituto para o melhor jogador do
Campeonato Brasileiro de 2016. Há notícias sobre uma superproposta por Pratto,
se bem que, no meio de tanto falatório, é melhor aguardar. O problema é que, de
algum tempo para cá, os caras do Palmeiras não têm ficado só no gogó: tudo o
que a gente ouve dizer, eles vão lá e pimba.
Para
quem teve a paciência de ler até aqui, creio que agora a prosa melhora: como um
bom meio-campista, vamos levantar a cabeça, olhar para a frente e falar do
Flamengo 2017.
Pelo
visto, e ao contrário do que acreditávamos, ainda não será este o ano em que
jorrará dinheiro para a montagem do tão aguardado timaço. Dos jogadores
buscados pelo clube e cujas contratações envolveriam aquisição de direitos
econômicos, não veio ninguém. Conca está aí por conta de uma criativa e
elogiável engenharia médico-financeira. Rômulo (vem, né?), apenas com pagamento
de luvas e salários. Trauco, idem. Vitinho, Marinho e Cecílio Dominguez, os
três atacantes pretendidos, exigiriam desembolso de grana forte e isso não
temos, pelo menos para investir mais pesado no elenco.
A
discussão volta a ser a de sempre: com um time poderoso na Libertadores e no
Brasileiro, o Flamengo não ganharia muito mais dinheiro com premiações,
programa sócio-torcedor e aumento nas rendas dos jogos? Será que trazer um
desses caras – sei que não sou maioria, paciência, mas gosto bastante do
Vitinho – seria suficiente para abalar o disciplinado trabalho de reconstrução
financeira? Se for, não está mais aqui quem falou. Longe de mim pregar a volta
da fanfarronice, só acho que esse tal de 2017 está demorando demais para
chegar.
Aliás:
há um post muito bom sobre isso escrito por Rodrigo Rotzsch e disponível no
link http://www.mundorubronegro.com/flamengo/os-r-70-milhoes-e-o-ano-magico
Como certamente acontece com o Rodrigo em relação ao que publico aqui – se é
que ele me lê, claro –, concordo com algumas coisas e discordo de outras. As
explicações sobre os destinos do dinheiro são didáticas e esclarecedoras. O
problema é que elas não fazem com que Márcio Araújo acerte a saída de bola e
Gabriel aumente a potência dos chutes. De todo modo, seja para concordar, seja
para discordar, é leitura imprescindível.
Concretizadas
ou não, as contratações perseguidas trazem um lado positivo que não vem sendo
abordado: independentemente das reclamações que sempre irão existir, o pessoal
que cuida do futebol do Flamengo tem percebido as nossas carências mais ou
menos da mesma forma que os torcedores rubro-negros, o que mostra que não
estamos de todo errados.
Diante
do clamor contrário a Márcio Araújo – do qual também participo –, foram atrás
do Rômulo. Citam o tempo todo um tal de ponta agressivo, o que evidencia que a
nossa comissão técnica questiona a eficiência ofensiva de Everton e, sobretudo,
Gabriel. Por fim, a questão do esquema único foi atacada com a vinda de Conca,
já que a diferença entre ele e Diego e as demais opções de que dispomos é tão
gritante que não há como imaginar nossa escalação-base sem os dois juntos. Não
tenho nada contra jogar com atacantes pelos lados do campo, alguns dos melhores
times do mundo fazem isso, o equívoco está em olhar para Gabriel e Everton e
enxergar Cristiano Ronaldo e Bale. O que faz o esquema dar certo são os
jogadores. Entretanto, repito, não há como negar a sintonia entre os últimos
movimentos da diretoria de Futebol do Flamengo e as principais demandas da
torcida.
Hoje,
11 de janeiro de 2017, com menos reforços do que todos gostaríamos, a rapaziada
se reapresenta no belo e badalado Ninho do Urubu. Por termos feito uma boa
campanha no último Brasileiro, por não termos perdido nenhum dos titulares do
ano passado, pela nova estrutura disponível, pelos salários em dia, por tudo
isso e mais um pouco, estou confiante.
Pois
como já aprendemos com Ferran Soriano, a bola não entra por acaso. Só que
agora, e mesmo sabendo que os adversários não estarão dispostos a facilitar
nossa vida, ela tem que entrar.
JORGE
MURTINHO

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