quarta-feira, setembro 23, 2020
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Hoje, Futebol não é a prioridade no Flamengo.

Foto: Divulgação

BUTECO
DO FLAMENGO
: “DOSIS SOLA FACIT VENENUM”

Saudações
flamengas a todos,
Os
péssimos resultados colhidos nos últimos 18 meses, e as circunstâncias que os
ensejaram, motivaram uma miríade de discussões acerca dos mais distintos
sintomas de falta de competitividade do elenco como um todo. Identificou-se e
debateu-se intensamente a carência de “alma” rubro-negra no jeito de jogar do
time, o que gerou a produção de variados textos e conversas, com interessante
riqueza de ponderações e argumentos, alinhados ou não ao diagnóstico. Uma vez
que o tema soa exaurido (até porque a equipe tem esboçado um rascunho de
entrega e concentração nas partidas mais recentes), pergunta-se:
E
quando a instituição se nega a vencer?
Flamengo
e Palmeiras, dois dos elencos mais caros do futebol brasileiro (e, portanto, em
tese adversários DIRETOS pelo título ou vaga na Libertadores), próximos na
tabela de classificação, fariam aquele que se convencionou denominar, pelo
jargão convencional, “jogo de seis pontos”. O Flamengo, com classificação
melhor, detendo o mando de campo e em ascensão anímica, decorrente de dois bons
resultados recentes, reunia uma série de elementos positivos, capazes de
transformar essa partida em um interessante marco inicial para um salto rumo ao
protagonismo ansiado há vários cachos de anos.
Entretanto,
o time do Palmeiras, treinado por um dos profissionais mais respeitados e
qualificados do país (ao menos em termos táticos), composto por alguns
jogadores de qualidade técnica interessante, com uma equipe trabalhada há algum
tempo, e portanto um oponente qualificado, seria um adversário duro, árduo,
especialmente diante de um Flamengo ainda buscando encontrar seu caminho,
explorar o potencial de um elenco ainda desajustado.
Era o
tipo de ocasião para o torcedor jogar junto.
Como
em 2005, quando Jônatas, China, Rodrigo Arroz e Da Silva derrotaram o estrelado
Santos de Robinho, Deivid e Ricardinho. Ou emulando o ano anterior, em que
Douglas Silva, Gauchinho, Whelliton e Dimba venceram o favoritíssimo São Paulo
de Lugano, Cicinho, César Sampaio e Luís Fabiano em Volta Redonda. Ou 2012, em
que o Engenhão viu um combalido e manco Flamengo passar por cima de Ronaldinho
Gaúcho. Ou 1982, que, com dez jogadores e atuando muito mal, o rubro-negro
virou de forma espetacular um jogo que perdia para um Atlético-MG, em poucos
minutos, ao som do samba do Império (“bumbum paticumbum prugurundum”). Ou em
outras e outras e mais outras ocasiões em que, com um time inferior ou em
situação de inferioridade, a vitória foi perseguida e sorriu para o
rubro-negro.
Porque
a torcida deu a mão. E ajudou a inflamar o time. Que ganhou na marra.
Esse é
o ponto. O Flamengo erige-se gigantesco, vencedor, dotado de uma força
descomunal, quando traz sua torcida para o campo de jogo. Quando se dão as
mãos. Quando se cria o amálgama que o transfunde com sua gente, formando uma e
uma só entidade, um só espírito, que joga, pulsa, ferve, briga. E vence. Não
importa se no Maracanã, na Ilha do Governador, na Gávea ou na Rua Paissandu.
Decerto,
esse fenômeno, que fez da torcida do Flamengo algo referencial, deveria ser
estimulado, à guisa de elemento intrínseco à grandeza do clube, norteador
inclusive de sua identidade.
Tornemos
ao domingo. Debrucemo-nos sobre o acontecido:
Flamengo
e Palmeiras, dois adversários diretos, enfrentaram-se no Estádio Mané
Garrincha, em Brasília-DF, num jogo que daria ao vencedor uma das vagas no tal
G4. Eis que o Flamengo, cuja equipe encontra-se, pelas circunstâncias já
mencionadas, em um patamar inferior, ABRE MÃO de uma vantagem competitiva
importante, ao CONCEDER a área mista do estádio ao acesso de torcedores de
qualquer clube. O Palmeiras não atuava na cidade há muitos anos, o que
evidentemente criou um contexto de demanda reprimida, com potencial de captação
de vários torcedores do clube.
O
Flamengo SABIA desses detalhes. E não contente em aceder, ESTIMULOU a enchente
verde, pelo que se depreende das vozes de seus dirigentes e pela prática já
tornada recorrente em seu histórico recente, mesmo em jogos no Maracanã.
O
estádio recebeu cerca de 55 mil torcedores. Paulistas mais renitentes falam em
meio a meio. A diretoria do Flamengo menciona 30% de palmeirenses. Seja com
quem esteja a verdade, TRINTA por cento representam DEZESSETE mil torcedores
adversários ocupando assentos que poderiam E DEVERIAM ter outra destinação.
O
Flamengo entrou em campo VAIADO, segundo relatos de cronistas que cobriam a
partida. Um time em formação, que precisava se afirmar, começando a demonstrar
sinais de espírito de luta (e, portanto, capacidade de atrair o torcedor), que
poderia ser pego no colo por uma torcida ávida de vitórias, subiu no gramado sob
APUPOS do inimigo. Isso naquela que deveria ser sua casa.
O
desfecho foi previsível. Atuando inteiramente à vontade, o adversário apenas em
poucos momentos perdeu o controle do jogo, e chegou a uma merecida e justa
vitória. Naturalmente, não foi o estádio rachado que decidiu o jogo para o lado
verde. Mas a falta da torcida flamenga certamente tirou da partida um elemento
que poderia ser um diferencial ao nosso favor.
Daí,
torno à pergunta do início do texto: O Flamengo quer vencer?
Não
precisa ser um PhD, MBA etc em Gestão de Negócios, ostentar sofisticadas
experiências em capacitação profissional, ter estudado em Harvard ou na
Sorbonne. Basta ter acesso a qualquer um desses livrinhos de auto-ajuda que se
vende em bancas de jornal, desses que ensinam a “encontrar o caminho na vida”,
ou a “ficar rico em 15 passos”. Ou, reunindo um mínimo de perspicácia, nem
isso. Pois um átimo de bom senso indica que, quando algo não é prioritário,
tudo, absolutamente TUDO, se revestirá em um óbice intransponível, um obstáculo
inarredável, um subterfúgio construído com palavras bonitas. Tudo será assunto
para NÃO fazer.
Donde,
futebol, hoje, NÃO é prioridade para o Flamengo. O clube NÃO quer vencer. Não
pensa em pagar o preço.
Então
entramos na principal competição nacional sem zagueiros, porque tudo é muito
caro. Estamos há DOIS anos sem uma alternativa razoável para a falta do
Maracanã/Engenhão porque o clube é “perseguido” politicamente. Anunciamos uma
reformulação “profunda” no Departamento de Futebol e, decorridos VINTE dias da
humilhante eliminação da Copa do Brasil a única mudança é a saída do treinador
adoentado, cujo sucessor, após dois interinatos, ainda é desconhecido. Perdemos
quase UM MÊS para contratar o tal Gerente de Campo, porque… sabe-se lá
porque.
Tudo é
a questão da prioridade.
O
célebre cientista Paracelsus, lá nos idos do Século XVI, cunhou uma frase
lapidar: “O que diferencia o remédio do veneno é a dose.”
Devolver
a viabilidade ao Flamengo foi o foco, o objetivo, a missão e a hercúlea tarefa
à qual se envolveu todo o clube no período 2013-15. Em prol da transformação do
rubro-negro em uma entidade de referência e capaz de assumir, em termos
administrativos, seu papel de potência, desfrutou-se de inédita paciência e
certa serenidade para assimilar alguns reveses sobremaneira incômodos. Passados
três anos há um clube que repousa em um patamar dramaticamente distinto ao da
alegada “terra arrasada” de 2012. No entanto, aparentemente certas premissas
draconianas ainda insistem em seguir como tônica inegociável e indissociável da
atual linha administrativa adotada.
Nosso
futebol é farto de exemplos de reestruturação semelhantes que começaram a
render frutos em muito menos tempo. Um Grêmio quebrado saiu da Série B em 2005
para uma Final de Libertadores apenas DOIS anos depois. O Corinthians foi
rebaixado e em DOIS anos já ganhava Copa do Brasil, ponto de partida para voos
maiores. O próprio Flamengo montou um dos melhores times do país TRÊS anos após
uma das piores crises de sua história (“acabou o dinheiro”).
Em
todas essas histórias citadas, havia o genuíno senso de recuperação a curto
prazo, de retomada rápida da grandeza perdida.
Não
vemos demonstração dessa sede, dessa ânsia, nos tempos atuais.
Assim,
não chegou zagueiro porque “dá pra levar com o que tem” sem comprometer o
cashflow. Não importa que “sumidades” como César Martins e Wallace empilhem
lambanças jogo sim, jogo também, o que interessa é equacionar a relação
dívida/faturamento (aliás, se o jogador for jovem, promissor, barato ou de
graça e tiver valor de mercado, vira alvo preferencial, mesmo que mal chute uma
bola). Isso de gerente que conheça de campo e de bola não está alinhado à
filosofia do clube, que quer alguém que saiba correlacionar o teor de nitratos
no suor do atleta com a tendência estatística indicada pela umidade relativa do
ar. Atuar no Rio está fora de questão, porque o aporte será insuficiente para
equilibrar o budget.
Enquanto
isso, o Flamengo abre as portas, estende tapete, arreganha cadeiras e mais
cadeiras para os visitantes, toca hino, tira foto, enfim, cria um lindo,
edificante e romântico ambiente destinado a fazer dos jogos em SUA CASA uma
experiência inesquecível para o torcedor e o jogador paulista. Naturalmente, o
time apanha, o torcedor apanha, a instituição apanha. Apanha dentro de campo,
fora dele e no tribunal. Mas o que importa é que a meta de arrecadação foi
alcançada e o clube foi elogiado na tevê, olha que legal. Somos pioneiros.
Talvez
seja o caso de, doravante, propor mandar o jogo contra o Corinthians no
Itaquerão. Lá lota e dá dinheiro. A torcida deles enche o estádio e a gente
fica com a renda. Vanguarda.
O
time? Não interessa. Estão sendo pagos em dia e há um Executivo tomando conta.
Trocar dá trabalho, deixa ele lá. E vai ficando, ficando. Resultado?
Irrelevante, nas palavras do próprio. E, daqui a uns dez jogos, quando pipocar
alguma derrota mais forte, troca-se de novo o treinador. E vamos seguindo a
nossa marcha rumo a mais um honroso oitavo, nono lugar enquanto batemos palmas
para que os de sempre sigam erguendo taças, enquanto a nós resta apenas
praguejar e troar contra os favorecimentos e os invariáveis “erros” de
arbitragem de praxe. Oras, ganhar assim é feio.
É
feio. O Flamengo “não pode ter práticas ruins só porque outros praticam”.
Talvez
ganhar jogos e campeonatos, então, seja uma prática ruim.
Encerra-se
aqui somente com uma ponderação: houve uma eleição. Dois grupos, de mesma
origem e pensamento semelhante, digladiaram-se com uma mensagem, no fundo, bem
parecida. Falou-se ostensivamente em “recuperar o futebol”, “dar atenção ao
futebol”, “futebol vai ser prioridade”.
Futebol,
senhores, não deve ser concessão de “prioridade” do Flamengo. Futebol é sua
ALMA.
Entendam
isso, ou perecerão.
Boa
semana a todos,
Adriano
Melo

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