Ilha do Urubu: nova aposta de estádio para o Flamengo.

Arena Ilha do Urubu, Estádio do Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

MEMÓRIA
EC
: Texto: Cláudio Nogueira*

Com a
recente inauguração, no último dia 14, nos 2 a 0 sobre a Ponte Preta, do novo
Estádio Luso-Brasileiro, popularmente chamado de Ilha do Urubu, o Flamengo
espera resolver, ao menos por três anos, um problema recorrente em sua
história: a falta de uma praça de esportes, de um campo para chamar de seu.
Quando
um grupo de ex-jogadores do Fluminense, então campeão de 1911, deixou as
Laranjeiras no fim daquele ano e se transferiu para o Clube de Regatas do
Flamengo – à época dedicado apenas ao remo -, convencer os remadores
rubro-negros de que futebol era “esporte para homem” não foi o único
dos problemas de Borgeth e amigos. Obrigados a usar um uniforme preto e
vermelho quadriculado (o Papagaio de Vintém) para diferenciar do listrado dos
remadores, os atletas do futebol acabaram indo treinar na praia, pela falta de
um campo. Isso acabou aproximando o novo time dos torcedores, que os viam com
facilidade, ao contrário do elenco tricolor, que treinava em seu estádio.
Para
jogar, porém, os rubro-negros precisavam de um estádio. A solução não estava lá
muito longe. Foi o campo da Rua Paissandu, entre os bairros de Flamengo e
Laranjeiras, onde o Paysandu, campeão de 1912, mandou seus jogos até 1914,
quando abandonou o futebol. Assim, a família de Arnaldo Guinle – patrono e
presidente do Fluminense, além de importante dirigente do futebol carioca nas
primeiras décadas do século 20 – alugou o espaço ao Rubro-Negro, que ali
construiu sua praça esportiva e jogou entre 1915 e 1932. Ao redor do campo da
Rua Paissandu, as centenárias palmeiras, existentes até hoje, serviam de
moldura. Os maiores públicos do estádio foram Flamengo 0 x 3 Fluminense, em
23  de junho de 1918, e Flamengo 1 x 3
Fluminense, em 24 de agosto de 1919; ambas as partidas registrando cerca de 15
mil pagantes.
Entretanto,
é curioso pensar que Guinle, um dirigente do Fluminense, tenha cedido o terreno
ao Flamengo. Quando do começo da história das duas associações, estes eram
clubes-irmãos. O Flamengo, fundado em 1895, se dedicava prioritariamente ao
remo, e o Fluminense havia sido criado em 1902 para a prática do futebol. Como
cada um cuidava do “seu” esporte, não eram rivais porque não se enfrentavam.
Por isso, não eram incomuns casos como os de Virgílio Leite, presidente do
Flamengo em três mandatos (entre 1901 e 1903; de 1906 a 1911 e de 1912 a 1913),
mas que havia sido um dos fundadores e diretores do Fluminense. Ou, de acordo
com o que o escritor Edilberto Coutinho ressaltava em seu livro “Nação
Rubro-Negra”: “Fluminense e Flamengo eram como irmãos. A vida de um,
muitas vezes, se confundiu com a do outro”.
Os
destinos do Flamengo começariam a mudar a 14 de novembro de 1931, quando
recebeu do então governo federal, por meio do decreto 3.686, o direito de
cessão e aforamento do terreno onde hoje se situa sua sede à beira da Lagoa
Rodrigo de Freitas. Ali, o Rubro-Negro iria construir um estádio, com cercas de
madeira. No ano seguinte, a 25 de setembro de 1932, fez sua última partida na
Paissandu: 5 a 0 sobre o extinto Brasil, tendo de se despedir do local, por não
possuir mais o dinheiro para o aluguel. A partir dali, o clube voltou seus
olhos para a Gávea. Tanto que a 28 de setembro de 1933, o então presidente José
Bastos Padilha pagou a taxa de 497 contos de réis para que o clube começasse a
erguer seu estádio, para 6 mil espectadores.
Empresário
do ramo de litografia, bem relacionado no meio da imprensa e do empresariado,
Padilha era cunhado do jornalista Mário Filho, dono do “Jornal dos
Sports”, que dá nome ao Estádio do Maracanã. Padilha assumiu o clube num
momento em que o profissionalismo começava a prevalecer no país e que seria
implantado por decreto em 1933, por Getúlio Vargas. Houve um período de
divisões no futebol do Rio e de vários outros estados, com ligas profissionais
e amadoras. Com o claro objetivo de mudar o perfil do clube, até então elitizado
e fechado aos negros, Bastos Padilha contratou, em 1936, os atletas negros mais
admirados no país: Domingos da Guia, Fausto e Leônidas da Silva, que se
tornaria a maior estrela do futebol brasileiro nos anos 30 e 40 (aí já pelo São
Paulo).
À
época, o Flamengo vivia um jejum de títulos cariocas após ter sido campeão em
1927. A conquista seguinte só se daria em 1939, com Domingos e Leônidas na
equipe. Eram tempos tão ruins que no Campeonato Carioca de 1933, da Liga
Carioca de Futebol (a liga pró-amadora era a Amea, em que o Botafogo foi
campeão), o Rubro-Negro acabou em último lugar. O Bangu foi o campeão. Em 1934,
também pela LCF, foi o penúltimo da competição, ganha pelo Vasco.
O
projeto do estádio seguia adiante. Graças a uma campanha de venda de títulos de
sócios, o clube, que já era uma grande força popular, construiu a Gávea,
inaugurada em 1938, quando Padilha já havia renunciado por doença. Antes, o
então presidente havia começado um projeto cujos frutos são colhidos até hoje,
o de popularização nacional do Fla. Em parceria com Mario Filho,  lançou no “Jornal dos Sports”, em
1937, as campanhas “Futura Geração Flamenga” e “Pelo Brasil e pelo Flamengo”,
destinadas a crianças e jovens. Na mesma época, como parte do projeto de
popularização, foi lançado o filme “A alma e o corpo de uma raça”, no qual uma
atleta branca do clube se apaixonava por um centroavante mulato da equipe de
futebol. 
Já sem
Bastos Padilha na presidência, a equipe da Gávea inaugurou seu estádio a 4 de
setembro de 1938, pelo Campeonato Carioca, no clássico com o Vasco, que venceu
por 2 a 0, gols de Niginho. O sonho era tornar aquela praça de esportes, muito
elogiada pela imprensa, um espaço capaz de futuramente sediar até eventos
olimpicos.
Na
decisão do Campeonato Carioca de 1941, no Fla-Flu do dia 23 de novembro, o
Tricolor jogava pelo empate para ser bicampeão. No final da partida com o
placar em 2 a 2, jogadores do time das Laranjeiras chutavam a bola em direção
às águas da Lagoa (na época a distância do estádio para a Lagoa era pequena),
para esfriar o rival. Enquanto isso, remadores rubro-negros atuavam, recolhendo
a bola para devolvê-la ao gramado. Tais histórias foram narradas na página 5 de
O Globo Esportivo, edição 171 de 1941.
Cerca
de uma década mais tarde, com a construção do Maracanã para a Copa do Mundo de
1950, as equipes passaram a preferir se apresentar no então Estádio Municipal.
Nos anos 90, porém, o então presidente rubro-negro Luiz Augusto Veloso,
mediante parceria com patrocinadores, conseguiu erguer módulos tubulares de
arquibancadas para elevar a capacidade da Gávea para 25 mil pessoas e assim
poder enfrentar equipes pequenas, fugindo das altas taxas do Maracanã. O
estádio passou a servir de palco para shows, e desde 27 de abril de 1997, no
jogo Flamengo 3 x 0 Americano, a Gávea não é mais utilizada em partidas
profissionais.
Em
2005, quando o Maracanã estava em reformas para os Jogos Pan-Americanos  Rio-2007, Flamengo e Botafogo firmaram um
contrato com a Petrobras, para reformar o Luso-Brasileiro, da Portuguesa, na
Ilha do Governador, transformando-o na Arena Petrobras. Originalmente com 5 mil
lugares, a arena passou a receber 30 mil torcedores. O projeto durou cerca de
um ano.
Agora,
passada a Olimpíada de 2016, e devido à polêmica sobre qual consórcio irá
administrar o Maracanã, o Rubro-Negro anunciou, a 21 de novembro do ano
passado, o contrato de três anos com a Portuguesa, para ampliar a capacidade
para 22 mil pessoas, com arquibancadas tubulares. Por meio de pesquisa junto à
torcida, o local foi denominado Ilha do Urubu.

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