segunda-feira, setembro 28, 2020
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Ingresso brasileiro é o mais inacessível do mundo.

ÉPOCA
ESPORTE CLUBE – O Profut, sancionado por Dilma Rousseff no início deste mês,
determina que clubes de futebol, aqueles que decidirem renegociar suas dívidas
fiscais com o governo, mantenham “oferta de ingressos a preços
populares”. Não especifica nem quantos bilhetes, nem a que preço. Mas
devia. O ingresso brasileiro é o mais inacessível do mundo para a camada
socioeconômica mais baixa da população.
Quantas
horas uma pessoa que receba um salário mínimo precisa trabalhar para comprar o
tíquete mais barato? A conta, aqui, foi feita por Oliver Seitz*, brasileiro que
leciona administração esportiva na University College of Football Business em
Londres: divide-se o salário mínimo pela carga horária de trabalho de cada
país, depois pelo preço do ingresso mais baixo disponível. Vamos nos restringir
aos campeões da última temporada, até porque o jogo do último colocado
naturalmente tem menos demanda do que o do primeiro.
Um
torcedor brasileiro precisa trabalhar dez horas e 18 minutos para comprar um
ingresso, o mais barato, do Cruzeiro. Se o sujeito quiser ir ao Mineirão todo
domingo, agora que o time não disputa mais a Copa do Brasil, precisa dedicar
quase um quarto da carga de trabalho semanal só para comprar a entrada. Sem
considerar transporte, talvez estacionamento, alimentação dentro ou fora do
estádio. Um alemão, no lado oposto, tem de ficar na labuta uma hora e 48
minutos para assistir a uma partida do Bayern de Munique.
Talvez
a Alemanha não seja a comparação mais justa, porque lá existe a filosofia de
perder alguma receita no fim da temporada em prol de uma arena plenamente
ocupada. Mas o Brasil é menos acessível do que todos os outros principais países
do futebol.
Um
francês, no país que tem uma das cargas de trabalho mais baixas da Europa,
trabalha duas horas e 36 minutos para ver o Paris Saint-Germain. Um inglês, no
território onde a camada mais pobre da população vê futebol pela TV a cabo e
ingressos são reconhecidamente caros, leva seis horas e 18 minutos por uma
partida do Chelsea. Até argentinos e portugueses, em economias bambas, têm de
trabalhar menos para assistir a Racing e Benfica.
Esta
análise não pode considerar só o valor do tíquete, mas o poder de compra da
população. E elitização se mede não com números médios de preço do ingresso e
renda do torcedor, mas mínimos.

O
Cruzeiro, por acaso, está bem perto da média da primeira divisão brasileira: 11
horas e oito minutos de trabalho por um ingresso. Alguns demandam um pouco
menos, outros muito mais. O mais legal é que, a partir da comparação do futebol
brasileiro com as principais ligas europeias, é possível determinar um valor
acessível para o cidadão menos endinheirado: R$ 20,63, ou quatro horas e 15
minutos de trabalho com um salário mínimo por mês.

O
ideal, para um estádio de futebol, é que o preço do ingresso seja alto
suficiente para que o mandante consiga dinheiro para investir em atletas, mas
baixo suficiente para que o estádio esteja totalmente ocupado. O futebol inglês
pode se dar ao luxo de cobrar mais caro pelo tíquete porque, afinal, lá os
campeões têm 100% dos lugares preenchidos. No Brasil, onde a média nacional
fica na casa dos 40%, a maior parte das arquibancadas que fica vazia todo jogo
poderia ser ocupada pela camada mais pobre da população. Aquela que, antes da
modernização dos estádios forçada pela Copa do Mundo, normalmente comparecia
toda quarta e domingo para apoiar o time. Maximizaria, inclusive, as receitas.
Um bom negócio para todos.
Não
quer dizer que todos ingressos devam custar 20 pratas. Nem que, se custassem,
estádios seriam preenchidos. Há mais variáveis que atraem ou afastam
torcedores: desempenho do time, ídolo(s), acesso à arena, segurança, conforto,
dia, horário, clima, fase do campeonato, se são pontos corridos, se é
mata-mata. Mas é fato que o preço é um fator determinante. Tanto que o São
Paulo, em 2013, quando baixou preços de ingressos de R$ 26 para R$ 11, em
média, aumentou a média de público do Morumbi de 8.500 para 29.800 por jogo. O
erro são-paulino, o mesmo cometido pela Federação de Futebol do Estado do Rio
de Janeiro (FFERJ) no Campeonato Carioca de 2015, foi fixar a quantia em um
teto (o valor do bilhete mais caro), e não trabalhar a precificação a partir de
um piso (o do mais barato).
Arena
lota de baixo para cima. Quando começam as vendas, primeiro esgota o setor que
tem entradas mais baratas. Depois, o seguinte. Depois, o seguinte. Se a
primeira faixa de preço é cara demais para o torcedor que ganha um salário
mínimo, ela é ocupada por outro, e este deixa de pagar pelo setor seguinte. O
resultado é que, na hora do jogo, as arquibancadas mais salgadas, geralmente as
que ficam visíveis durante a transmissão da partida pela TV, ficam às moscas. O
Corinthians passa por isso em Itaquera. Atlético-MG e Cruzeiro, no Mineirão. O
Palmeiras, no Allianz Parque. Em resumo: estádio precisa ser setorizado, e as
faixas de preço dos ingressos precisam atender a todo tipo de público, do
popular à elite, até encher a casa.
O
cartola vai argumentar, como já faz, que o preço mínimo precisa ser alto para
privilegiar o sócio-torcedor e incentivar a adesão ao programa. Só que para o
fulano que ganha R$ 788 por mês gastar R$ 30 só para ter preferência na compra
de ingressos, ou desembolsar para lá dos R$ 100 mensais para conseguir 25%, 50%
ou 75% de desconto e ainda ter que pagar pelos bilhetes, tampouco é acessível.
Também tem a meia-entrada, outro complicador, um problema de toda casa de
entretenimento, do cinema e ao concerto musical. Mas nem assim se pode ignorar:
futebol está caro demais.
Depois
de longas discussões entre CBF, clubes e Bom Senso FC, deputados federais e
senadores, esses responsáveis por representar a população brasileira,
concordaram com um Profut que agrada a todos, menos ao torcedor. A CPI do
Futebol do senador Romário (PSB-RJ) foi para cima dos sigilos bancário e fiscal
de Marco Polo Del Nero, presidente da CBF, mas tampouco deu atenção a um dos
poucos legados da Copa, a reconstrução dos estádios brasileiros e a consequente
exclusão dos cidadãos mais pobres. A considerar que o salário mínimo deveria
ser de R$ 2.088,20 para igualar o poder de compra do brasileiro ao do
estrangeiro, e que isso nocautearia de vez a economia, tampouco pode-se esperar
por uma “ajuda” de Dilma. É isso, torcedor. Conforme-se em ver teu
time pela televisão aberta.
*Oliver
Seitz é PhD em indústria do futebol e professor de administração esportiva da
UCFB em Londres ([email protected]).

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