terça-feira, setembro 29, 2020
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“Jogar no Flamengo é estar no céu e inferno”, diz Jailton.

Foto: O Globo

GLOBO
ESPORTE
: A camisa 14, com autógrafos de todos ex-companheiros, é uma das muitas
lembranças que Jailton tem dos tempos de Flamengo. Vestindo vermelho e preto,
Jaiton da Cruz Alves, hoje com 33 anos, fez 88 partidas e pode contar aos dois
filhos, aos amigos e à família com orgulho dos tempos que vestia a 14 ou até a
5. Marcou dois gols, foi bicampeão carioca – em 2007 e 2008 – e, apesar de
conviver por um tempo com as críticas de torcedores, recorda com carinho dos
amigos que ficaram dos tempos de Gávea.

Sergipano,
nascido em Aracaju, Jailton hoje está afastado do futebol. Desde maio do ano
passado, não joga mais profissionalmente. Depois de fazer parte da campanha do
acesso da Série D para a C do Confiança, ele foi dispensado pelo clube, com
quem tinha contrato até dezembro de 2015. Na Justiça, conseguiu a rescisão e o
direito de receber os salários. Parece desiludido em voltar a jogar e já mira
outro futuro: professor de educação física. No futebol, no máximo, auxiliar.
Treinador não passa pela sua cabeça.

Preciso correr atrás. Fiquei muito tempo sem estudar. Agora estou estudando à
noite – conta Jailton, que, por este motivo, deve perder a partida do Flamengo
contra o Confiança.
Da
época do Flamengo, ele lembra com carinho de “Papai” Joel Santana –
“Ele é fora de série. Tinha grupo de 20 e poucos jogadores na mão sem ser
regime militar” -, dos amigos que vieram do Ipatinga com ele – trazido
pelo técnico Ney Franco após chegarem na semifinal da Copa do Brasil de 2006
(sendo eliminados justamente pelo Fla) – e do capitão Fábio Luciano. Ele relata
a lealdade do jogador quando chegou a ser praticamente colocado para fora do
clube por pressão da torcida rubro-negra.

Jogar no Flamengo é estar no céu e inferno constante. Lembro de um episódio
quando estávamos perdendo de 1 a 0 para o Internacional, o Caio Júnior era o
treinador. E a torcida começou a me vaiar. No intervalo, ele me tirou, colocou
Jonatas. Empatamos e viramos o jogo. Nessa mesma semana a organizada foi no
clube para questionar a minha permanência. A diretoria me chamou para começar,
disse que não tinha ambiente para ficar no Flamengo. Eu falei: “quem tem
que dizer isso sou eu. Não é assim”. Quando saí, liguei para o Fabio
Luciano, que tinha participado da reunião, e ele disse: “Fica tranquilo
que não vai acontecer nada. Se mandarem você embora, eu também vou.” Sou
grato a ele pelo resto da vida – lembra Jailton, que após esse episódio virou
tema de preleção de Caio Júnior, com reportagens lembrando a importância tática
dele em campo e dos companheiros o elogiando.
Confira
alguns trechos da conversa com o sergipano Jailton:
Início em Aracaju
Sou de
família mais humilde, mas graças a Deus não cheguei ao ponto de passar por
necessidade. Mesmo na época de escolinha, que se chamava Zebra, perto do meu
bairro em Aracaju, sempre trabalhei. Seja como vendedor ambulante, como
carregador na feira. Mas depois, quando me profissionalizei, consegui ter meu
dinheiro sem precisar trabalhar.
Aventura em Portugal
Fui
com salário que era, se não me engano,de 3 mil euros. Foi uma experiência de
vida. Um euro era quase R$ 4, então fui fazendo planos de comprar casa, essas
coisas. Eram quatro meses de empréstimo. Mas dos quatro meses, não recebi três
e logo nos três primeiros. Sorte que conheci um brasileiro que, coincidentemente,
era de Aracaju. O Guga. Ele me viu abrir a boca no vestiário, percebeu pelo
sotaque que era da terrinha e me abraçou. Se não passei fome por lá foi por
causa dele. Até gás foi cortado no meu apartamento.
Arrancada de 2007
A
gente ia para os jogos sabendo que a gente ia ganhar. Principalmente naquela
nossa arrancada de 2007. Não sabia de quanto, mas sabia que ia ganhar. Olhava
para o outro, sabia o que fazia, onde a bola ia, naquele ano que Joel chegou a
primeira coisa que fez foi organizar nossa defesa.
Orgulho de jogar no Flamengo
Sou
torcedor do Flamengo, sempre que posso acompanho os jogos, até pelos amigos que
deixei lá. Com todos treinadores fui titular. Tanto com Ney Franco, Joel
Santana, Caio Junior. Então tinha algo né. Poderia não ser aquele jogador que
aparecia para a torcida, que fazia gol, mas sabia da minha importância. Por
isso costumo dizer que não passei pelo Flamengo, eu joguei no Flamengo. E isso
me dá muito orgulho.
Noite de Cabañas
Acho
que isso só ocorreu pelo resultado do jogo anterior. Havíamos vencido por 4 a
2, poderíamos perder por 2 a 0 que ainda estaríamos classificados. Acho que
houve um “ah, já está classificado, não tem como a gente perder”. Se
fosse um jogo que nós precisássemos ganhar, alguma coisa desse tipo, acho que o
Fabio Luciano, que foi vetado, por exemplo, teria ido para o jogo. Mas não foi
ele (Fabio) quem decidiu isso (de não jogar). Mas parece que tinha que
acontecer. Todos os três gols foram bolas desviadas. Bolas que se fosse direto
no gol nunca que o Bruno tomaria aqueles gols. Eu lembro daquele jogo, quando
estava 2 a 0 e teve a falta, que foi o terceiro gol. Quando mostra o lance,
mostra que estou na barreira, quando a bola desvia no Obina, se não me engano,
mostra a minha reação, que é de colocar a mão na cabeça, de desespero mesmo.
Papai Joel
Um dos
melhores de se trabalhar. Até hoje temos contatos, no aniversário de 25 de
dezembro. Não só ele como Ronaldo Torres, que era preparador físico na época.
Ajudou com conselho, apadrinhou mesmo, tinha a gente como filho. Tinha grupo de
20 e poucos jogadores na mão sem ser regime militar, durão, aquela coisa de
caixinha, como tem na maioria dos clubes. Todos respeitavam, seguiam o que
determinava. Ambiente era bom demais.
República do pão de queijo
Para mim
esse rótulo não foi prejudicial. De todos que foram o único que acabou jogando
mesmo fui eu. Na época, antes chegaram Léo Medeiros, Diego Silva e Walter
Minhoca (do Ipatinga). Quando saímos da Copa do Brasil para o Flamengo, foram
para o Flamengo, Ney Franco e Paulinho, volante. No fim do ano, acertamos eu e
Luizinho. Só que também chegou Irineu, zagueiro, que não saiu do Ipatinga para
o Flamengo, mas já tinha jogado no Ipatinga, tinha o Moisés, Leandro Salino e
Gerson Magrão, que também tinham jogado no Ipatinga. Aí criaram aquela coisa.
Queriam colocar como se fosse uma panelinha. Mas você sai de time pequeno chega
no Flamengo, outro mundo, e tem Léo Moura, Renato Abreu, Bruno, Juan… Uns
caras que você só via pela TV. Você fica sem saber se comportar direito. Fica
meio na sua, calado, procura observar para se adaptar. Mas no meu caso não tive
problema com ninguém. Me relacionava bem com todos, do porteiro ao presidente.

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