sábado, setembro 19, 2020
Início Notícias Maratona brasileira.

Maratona brasileira.

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

O
GLOBO
: Por CARLOS EDUARDO MANSUR

Os
debates prévios às semifinais da Taça Rio tratam discretamente de eventuais
duelos técnicos e táticos. Porque os jogos valem pouco, mas também porque uma
dúvida domina o cenário: os titulares das equipes comparecerão às partidas? É
justo duvidar. Afinal, dos 41 jogos que envolveram times grandes até aqui, 13
os viram cheios de reservas. Pouco mais de 30%. É alarmante.

exageros no uso de times reservas no Brasil? Em casos isolados, sim. Mas um
número como este não se produz por uma só razão. A receita que inclui
regulamentos como o do Carioca, a duração dos Estaduais e até uma gestão de
elencos característica do país: quase sempre, ou joga todo mundo, ou não joga
ninguém. Não há meio termo. Mas o ingrediente principal ainda foge ao controle
de treinadores. O número insano de jogos que um time grande pode ser obrigado a
fazer.
Ver
europeus jogando nos meios de semana com frequência cada vez maior pode causar
a impressão errada; ainda se joga absurdamente mais por aqui. Tomemos como
exemplo os oito times que seguem vivos na Liga dos Campeões, atuando em frentes
nacionais e continentais até o fim da temporada. O número máximo de jogos que
podem realizar varia entre 54 e 65. No Rio, Botafogo, Flamengo e Fluminense
podem jogar entre 82 e 88. A diferença pode superar 30 jogos, em casos
extremos. E 30 jogos são quase quatro meses atuando às quartas e domingos. Só o
Vasco pode ter um ano “europeu”, já que caiu na Copa do Brasil, não aderiu à
Primeira Liga e não joga torneios sul-americanos.
Para
este abismo, os Estaduais contribuem com 18 datas. A Primeira Liga despejou
mais seis jogos no calendário e se revelou um estorvo, uma insensatez: não
cumpriu o objetivo de ser bandeira de luta e sobrecarregou ainda mais a agenda.
Impossível exigir os mesmos onze a cada partida.
Está
ao alcance de um atleta jogar uma partida importante numa quarta e outra no
domingo, sim. O impraticável é fazê-lo ininterruptamente, de fevereiro a
dezembro, saber que o preço de progredir nas competições é a inevitável falência
física no fim da maratona. Ao gerir o elenco de um time grande, é obrigatório
levar em conta a possibilidade de se qualificar para disputar os títulos. O
que, no Brasil, implica em jogar um número surreal de partidas. O calendário
brasileiro pune os bem-sucedidos.
A
reação em cadeia
É
comum na Europa ver times praticarem a chamada “rotação do elenco”. Consiste em
poupar a cada partida uma parte do time, sem desfigurá-lo. Assim,
administram-se os minutos disputados por cada atleta no ano. Exige um grau de
sofisticação que o futebol brasileiro não atingiu.
É
verdade que, aqui, ainda se opta pela solução mais cômoda de sacar os onze
titulares. O que desvaloriza jogos e o produto, desrespeita até o equilíbrio
das competições. Mas há o outro lado. A lógica da rotação se baseia, entre
outras coisas, na eficiência do treinamento. O dia a dia implanta um modelo de
jogo que, em tese, todo o elenco pode executar. O entrosamento não vem apenas
dos jogos.
No
Brasil, joga-se tanto que não se treina. E como os elencos mudam demais ano
após ano, é necessário permitir que os jogadores se conheçam, joguem juntos.
Daí os times titulares e reservas.
A
desordem do calendário, com a companhia do insano imediatismo com que o país
trata técnicos e equipes, goleia o bom senso. Já se viu o emprego de times
reservas como mecanismo de autodefesa de alguns treinadores. Uma tentativa de
esvaziar o jogo e seus efeitos. Porque a cada quarta e domingo, empregos estão
em risco e uma crise bate à porta. O país que produz uma saturação de jogos é o
mesmo que se encarrega de esvaziar partidas. E faz proliferarem os estádios
vazios, outro dano irreparável de uma nada saudável reação em cadeia.

MAIS LIDOS

Entrevista de Marcos Braz não responde muita coisa

Marcos Braz deu sua entrevista coletiva neste sábado para falar sobre a derrota do Flamengo na quinta-feira e quais seriam as consequências dela. Mas...

Em coletiva, Braz banca permanência de Domenec

A tão aguardada coletiva de imprensa online de Marcos Braz na tarde deste sábado ocorreu a pouco, o tema principal, Domenec. Braz aproveitou a...

Tite explica convocados rubro negros e ausência de Gabigol

Tite convocou para a seleção brasileira dois jogadores do Flamengo, Rodrigo Caio e Everton Ribeiro. Em entrevista online concedida na manhã de sexta, Tite...

Zico detona postura do Flamengo em campo

A derrota vexatória do Flamengo pela Libertadores ainda ecoa entre a torcida. O maior ídolo da história do Flamengo, Zico, não deixou de comentar...