quinta-feira, outubro 1, 2020
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Marluci Martins reclama de perseguição da torcida do Flamengo.

Marluci Martins tem histórico de polêmicas envolvendo o Flamengo
Foto: Screenshot / Mundo Rubro-Negro / FlaResenha

EXTRA
GLOBO
: Marlúcifer, mal-amada, piranha, arrombada, “véia” ridícula,
candinha. Isso é o que sobra para se publicar na peneira dos xingamentos censurados
pela minha boa educação. Nesses 29 anos de jornalismo, frustrei centenas de
alunos em palestras das quais participei porque não tinha nenhuma história de
preconceito para contar. Já tenho uma desde sábado, sobrevivi, dormi bem, mas a
pulga ainda faz a orelha coçar.

Coça,
principalmente, porque a agressão virtual é fomentada hoje por quem a deveria
combater. Contra jornalistas esportivos, às vezes funciona assim: o
departamento de comunicação do clube, ou algum de seus integrantes, acende o
pavio e sai de cena com o cheiro de pólvora nas mãos. E as lava, diante do
incêndio.
Tudo
começou quando, no sábado, um zap cortou a paz do plantão do feriado
prolongado. Uma fonte me avisava que o ortopedista Guilherme Runco estava se
desligando do Flamengo porque seu superior, Márcio Tannure, havia excluído-o da
equipe que operou o joelho do craque Diego. Liguei, como se faz desde a
invenção do jornalismo, para os dois médicos envolvidos na polêmica. E, também,
para um terceiro, o pai do Guilherme, José Luiz Runco, 34 anos de Flamengo e 16
de seleção brasileira no currículo.
Foto: Screenshot / Extra Globo / Lance!

História
confirmada, matéria redonda. Mas o título que escolhi para o texto publicado no
Blog Extracampo, que assino, elevou à potência máxima a testosterona da macheza
virtual: ‘Cirurgia de Diego abre crise no departamento médico do Flamengo’.

Não é
isso? Cadê o erro? Não sei.
Logo
surgiram os primeiros xingamentos no Twitter. Por que, meu Deus? Já disse, não
sei. E o diretor de comunicação do Flamengo, Marcio Mac Culloch, ainda jogou lá
seu palito de fósforo aceso: “Incrível como a palavra ‘crise’ é usada de
forma banal no jornalismo esportivo. Tudo pelos cliques.”
Se
alguém me falasse em “clique”, em 1988, quando comecei em uma redação
de jornal, eu diria que era o barulho do teclado da Remington 100 usada por
mim. Ou, já forçando aqui uma barra, do telex. Mas a verdade é que a linha do
tempo que exclui a preponderância dos “cliques” da minha trajetória,
iniciada na era pré-internet, é a mesma que entrega a idade.
Tenho
49 anos. Para um rapaz no meu Facebook, sou uma idosa ainda em tempo de
recomeçar.
“Marlu
– que nome lindo, hein?! Já tentei sentir raiva de você, afinal são matérias
atrás de matérias atacando gratuitamente a paz do meu clube. Mas um ser humano
que visivelmente não desfruta da felicidade na vida só merece minha pena e
compaixão. Se você tivesse alguém que te amasse e preenchesse seu tempo, você
não o perderia fazendo o mal e exercendo sua profissão de forma tão suja. Uma
mulher já idosa como a senhora se submetendo a isso é sinal de que algo na sua
carreira não deu muito certo. Fico triste. E para de usar meu clube pra ter
seus recorrentes 5 minutos de fama. Já que você, por si só, nunca conseguiu
notoriedade, sugiro buscar outra profissão. Mesmo que já esteja idosa, nunca é tarde
pra recomeçar. Muito amor no seu coração. Tá faltando, né?'”
Já o
Ademílson sugeriu-me nas redes sociais um macho como solução:
“Escola
Sônia Abrão de jornalismo. Vai procurar um macho”.

Após críticas, Marluci Martins sugeriu que torcedor abandonasse seu sonho de ser jornalista
Foto: Reprodução
Por
fim, a crise médica do Flamengo, que contaminou minhas redes feito praga,
ameaçou contagiar o universo feminino:
“Os
jornalistas de hoje confundem matéria com fofoca. Por isso está cheio de
mulheres no meio esportivo, candinhas”, escreveu um outro valente de
sobrenome virtual CRF.
Poderia
citar algumas colegas, mas já são tantas no mundo, e essa discussão virtual não
vale o preço da injustiça por um ato falho da memória. O pontapé inicial no
sonho de ser jornalista esportiva foi dado pelo sucesso da Isabela Scalabrini
nos anos 80. Mudou o século. E também a ferramenta. A internet, democrática por
permitir a interatividade, virou fio condutor do que há de pior no mundo: o
preconceito, o ódio, a intolerância.
Que ao
menos sirva também para a busca de mais conhecimento. Quer saber o significado
da palavra crise? Dá um clique no Google.
(Marluci
Martins é jornalista esportiva há 29 anos e começaria tudo outra vez)

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