terça-feira, setembro 29, 2020
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Mattheus lamenta saída precoce do Flamengo.

Foto: Rodrigo Antunes/Facebook Estoril SAD

GLOBO
ESPORTE
: Poucas horas depois de marcar seus primeiros gols com a camisa do
Estoril, na vitória por 3 a 1 sobre o Rio Ave, na última segunda-feira,
Mattheus recebeu uma ligação:

– Parabéns,
mas não é só isso. Você tem que querer mais, não pode se acomodar. Poderia ter
feito o terceiro.
Era
Bebeto, atacante campeão do mundo em 1994, pai do meia de 21 anos, que, mesmo
do Brasil, atua como conselheiro, elogia e dá broncas quando é preciso. Porque
em termos de adaptação, Mattheus está muito bem sem a família por perto. Em
Portugal, além mudar o visual, encontrou amigos, boa comida e seu bom futebol.
Aquele o qual sonhou desempenhar defendendo o time profissional do Flamengo,
mas que durou pouco: foram apenas 20 jogos, sendo que nenhuma vez atuou por 90
minutos.
Mattheus
chegou ao Flamengo aos 10 anos e viveu infância e adolescência esperando o
momento de brilhar nos profissionais de seu clube de coração. Ele rejeita o
termo frustração, mas admite que passou longe de ficar satisfeito com o que
viveu de 2012 a 2014 no Rubro-Negro. Assim, encontrou tranquilidade, sequência
e confiança com a camisa do Estoril, atual oitavo colocado do Campeonato
Português, no qual chegou há pouco mais de um ano. Por isso, em entrevista ao
GloboEsporte.com, deixou claro que não pretende deixar a Europa tão cedo.
GloboEsporte.com – Em seu 15º jogo pelo
Estoril neste Campeonato Português – o 10º como titular – você marcou seus
primeiros gols. Realizado?
Mattheus
– Os gols são fruto dos bons jogos que já vinha fazendo. Mesmo não saindo os
gols, dei assistências e tive boas atuações. Era o que faltava, tinha certeza
de que mais cedo ou mais tarde o gol sairia. Consegui ter uma sequência de
partidas e estou muito feliz com esse momento.
Como foi deixar o Flamengo, onde chegou
aos 10 anos, e defender outro clube pela primeira vez, sendo ainda fora do
Brasil?
A
mudança foi até melhor do que eu esperava, pois a língua é igual e a cultura é
muito parecida. Além disso, me facilitou o fato de ter morado na Espanha quando
meu pai jogou no Sevilla. Cheguei em janeiro do ano passado, e o início foi bom
para pegar experiência. Esta temporada foi de afirmação. Tive uma lesão no
início do campeonato, e isso me prejudicou. Mas depois, na virada do ano, as
coisas começaram a acontecer.
Se no dia a dia a adaptação foi tranquila,
como foi a mudança dentro de campo?
Aqui o
futebol é mais jogado, como se diz na gíria. É mais tático, mais inteligente.
Logo aprendi que todo mundo tem que marcar, tem que contribuir. No Brasil é
costume os homens de frente jogarem só com a bola no pé. Primeiro atuei mais
recuado, quase como volante, o que me ajudou a ter noção de marcação. Também
passei a ter mais a leitura do jogo, e hoje sou mais completo. Procurei ver os
meus defeitos e trabalhar em cima deles, com a ajuda dos companheiros e do
treinador (o brasileiro Fabiano Soares).
E quais eram os seus defeitos?
Eu não
tinha isso de tentar recuperar quando perder a bola. Era um jogador que
marcava, cobria espaço mas não era de ajudar. Vi que taticamente é importante
preencher os espaços. Essa foi a principal necessidade que senti quando
cheguei. Era o meu defeito. Hoje sei que não é só roubar a bola, mas
principalmente ajudar. Consegui entender isso.
Desde que foi promovido aos profissionais
ao Flamengo, em 2012, até deixar o clube, em 2014, você disputou apenas 20
partidas e em nenhuma atuou os 90 minutos. Sequência era o que você precisava?
Aqui
eu entro nos jogos sabendo o que vou fazer, adaptado. Aqui eu tenho o que eu
precisava: sequência e confiança. No Flamengo eu jogava uma partida e outra uns
três meses depois. Assim não tem como adquirir ritmo. A principal vontade de um
jogador é ter confiança, e por isso estou vivendo esse momento. Entro em campo
com a confiança lá em cima, sabendo o que fazer e com ritmo. Confiança é tudo.
Por isso dá para dizer que sua passagem
pelo Flamengo foi frustrante? Isso porque você chegou ao clube criança, sempre
sonhou atuar pelo time profissional e teve uma passagem apagada.
Frustrante,
não. Mas foi chato o que aconteceu. Foi ruim ser criado no Flamengo e ter saído
tão cedo. Queria ter jogado mais, ter ajudado muito mais, jogado mais tempo.
Mas acredito que nada é por acaso, então não acho frustrante. Ainda sou muito
novo para isso.
Os jogadores recentemente promovidos pelo
Flamengo têm sido lançados aos poucos, mesmo aqueles que já despontam bem, como
Felipe Vizeu. Lucas Paquetá, que também foi campeão da Copinha como você,
começa a ter sua chance. Foi isso que faltou a você e à sua geração para que
sua trajetória como profissional do Flamengo fosse melhor?
Quando
o garoto sobe da base ele quer jogar de qualquer jeito. Acho que faltou um
pouco mais de calma, de dar mais aquela confiança para a gente. Faltou colocar
para jogar e colocar na hora certa. A base do Flamengo é fortíssima, todo jovem
quem jogar nesse clube. Eu fico feliz de ver esses meninos irem bem,
principalmente o Paquetá, que vi chegar no Flamengo. Ele era baixo, magro,
ninguém dava nada por ele, mas sempre teve qualidade. Agora desencantou. É um
jogador que me agrada muito.
Tem estilo de jogo parecido com seu?
(Risos)
Lembra, sim. É canhoto como eu… Tem quase as mesmas características.
Seu contrato com o Estoril termina em
junho, quando também encerra seu vínculo com o Flamengo. Qual será o seu
futuro?
Para
ser sincero, a ideia agora é fechar bem a temporada, terminar assim e colocar o
Estoril na melhor colocação possível. Porque sei que depois vêm coisas boas.
Depois ainda não sei o que vai acontecer. Estou feliz aqui, me adaptei à
cultura local. Mas quando acabar o campeonato, resolvo com tranquilidade.
Pelo jeito, deixar a Europa não está no
seus planos.
Como
falei, estou feliz aqui, e você tem que ficar onde está feliz. Mas não se sabe
o dia de amanhã.
Ainda dá tempo de disputar as Olimpíadas?
Claro
que sim. Dá tempo, ainda mais pelo momento que vivo em Portugal, jogando num
mundo importante do futebol, como a Europa. Aqui é difícil ver jogadores muito
jovens já jogando no time titular e fazendo gols. Tenho passagem pela seleção
brasileira sub-13 até sub-20, tenho idade olímpica… O sonho ainda está
aberto.

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