quinta-feira, outubro 1, 2020
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Mauro destaca ‘tolice’ da diretoria do Flamengo na estreia de Diego.

Jogadores do Flamengo na estreia de Diego, no Mané Garrincha – Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

MAURO
CEZAR PEREIRA
: Dirigentes e torcedores de Corinthians e Palmeiras se orgulham
das médias de público que vêm registrando em seus novos estádios, e das
arrecadações repletas de zeros, ou seja, usualmente na casa dos milhões. Justo,
afinal, são os melhores números apresentados no ainda pífio futebol brasileiro
em matéria de presença nos estádios, com taxa média de ocupação sofrível: 40%
ao final do primeiro turno da Série A 2016, como registra o blog Balanço da
Bola — clique aqui e confira.

No
mesmo link você pode observar que as taxas de ocupação de palmeirenses e
corintianos, excelentes para nossos risíveis números, não passam de 75%, ou
tres quartos dos lugares disponíveis em seus estádios. Seria a pior marca na
última edição da Premier League, quando o rebaixadíssimo Aston Villa, que fez
míseros 16 pontos em 114 possíveis, atraiu em média 33.690, ou 78,77% dos
lugares existentes no centenário e modernizado Villa Park, na cidade de
Birmingham.
O fato
é que ainda sobram muitos lugares nos estádios brasileiros, especialmente pela
dificuldade dos dirigentes em alterar os preços dos ingressos em função do
apelo de cada partida. E do desprezo pela maioria da torcida. Isso mesmo, a
massa mais numerosa é solenemente ignorada pela cartolagem, exceto quando dela
precisam e, em desespero na luta contra o rebaixamento, reduzem o preço e os
convocam. Eles sabem que esses formam a maior parte dos quais se podem contar
sempre.
Na
última rodada do Campeonato Brasileiro, o Palmeiras, em primeiro lugar desde o
turno passado, atraiu 29.138 torcedores num domingo à tarde ao Allianz Park.
Isso significa que sobraram 14.462 assentos, com 66,83% deles ocupados. Já o
Corinthians, na segunda-feira às 20 horas, bateu o Vitória, voltou à terceira
posição, a três pontos do líder, diante de 20.207 pagantes. Sobraram 28.793
lugares em Itaquera, que teve 41,23% de seus espaços ocupados, pior marca da
história do estádio.
Os
números dos dois rivais paulistas ainda são os melhores do país e bem
superiores à maioria. Nem vale a pena citar outros exemplos, alguns sofríveis,
com médias superadas facilmente pelo Portsmouth. Na quarta divisão, o time do
Sul da Inglaterra atraiu 16.391 por partida na temporada passada, 77,68% da
capacidade do seu Fratton Park. Nos dois jogos que lá fez no atual campeonato,
16.769, ou seja, seguem assíduos, mesmo sem sair da League Two só oito anos
após ganharem a Copa da Inglaterra, quando eram da primeira divisão, a Premier
League.
Os
públicos de Corinthians e Palmeiras na rodada passada somaram 49.345, que
praticamente caberiam apenas em Itaquera, ou 53,28% dos 92.600 lugares que as
duas “arenas” oferecem. Isso com os dois times muito bem colocados no
campeonato e sendo apontados como exemplares por jornalistas e outros cartolas.
Mas ainda são índices que satisfazem apenas aos elitistas e sem visão, aqueles
que com pouco se contentam e não querem ver o público mais “povão”
nas arquibancadas.
Em
2013, a Via Varejo, dona das populares redes de lojas Casas Bahia e Ponto Frio,
registrou lucro líquido de R$ 1,175 bilhão, alta de 240,2% em relação aos R$
319 milhões obtidos em 2012. Mas o mercado piorou e o grupo fechou 2015 com 23
lojas a menos do que no ano anterior e um lucro líquido de R$ 3 milhões, valor
99,7% inferior ao apurado em 2014. Nem por isso o grupo muda seu foco e deixa
de ter uma história de sucesso sem mirar os mais ricos, pelo contrário.
Décadas
antes dessa crise mais recente e do aumento de poder aquisitivo da chamada
Classe C, as Casas Bahia já faturavam muito atendendo tal público. “A
riqueza do pobre é o nome”, dizia Samuel Klein, fundador da empresa e que
morreu em 20 de novembro de 2014, aos 91 anos. O criador do maior império do
varejo brasileiro deu crédito para os de salários mais baixos, deixando os
concorrentes se engalfinharem na busca pelo mercado dos ricos ou classe média,
os mais abastados.
Fato é
que as classes C, D e E reúnem 68% dos brasileiros, enquanto A e B não somam
mais de 32%, menos de um terço. Evidentemente essa proporção se distribui, com
pequenas variações, entre as torcidas brasileiras. Mas os dirigentes desprezam
essa massacrante maioria. Mesmo quando sabem que o estádio não lotará, preferem
deixar vazias as cadeiras do que ajustar os preços dos ingressos para estimular
a presença de mais torcedores e viabilizar a ida desses quase 70% aos seus
jogos.
Quantos
corintianos passam diariamente de trem, ônibus, carro, a pé, em frente à
“Arena” do clube sem que jamais tenham pisado lá e sonhando com esse
dia? Ela fica em Itaquera, região 76ª colocada no ranking do Índice de
Desenvolvimento Humano de São Paulo, que reúne 96 distritos. O mesmo vale para
o Palmeiras, cujo Allianz Parque fica em Perdizes, terceiro nessa mesma lista,
mas por onde passam tantos e tantos alviverdes, indo e vindo do trabalho, e que
não conhecem a nova casa do clube.
É
evidente que no futebol profissional e caro, jogos de maior demanda terão
ingressos absorvidos prioritariamente por sócios torcedores e pelos que podem
pagar mais. Entram aí a lei da oferta e da procura e a necessidade de faturar mais
de cada clube. Mas em tantos e tantos cotejos, mesmos nos considerados
exemplares Corinthians e Palmeiras, sobram cadeiras e mais cadeiras vazias. Não
seria melhor ter um torcedor ali sentado, mesmo que ele só possa comprar um
ingresso por ano?
Hoje esses
e outros clubes com milhões de torcedores trabalham, na prática, com um
universo restrito inferior a 100 mil que são associados. E pressionam a maioria
a aderir aos seus programas com os ingressos caros, uma lógica perversa e burra
que já recebeu a resposta popular há tempos: nesses termos os 68% não vão se
associar. E não o farão porque têm outras prioridades e o orçamento mais
apertado. Isso não faz deles menos apaixonados pelas cores dessa ou daquela
agremiação.
Nos
programas de sócios torcedores há pacotes de aproximadamente R$ 10 que não
direito a nada, nem a um ingresso por R$ 30 num jogo de menor apelo reservado
dias antes pelo site. O sujeito apenas paga, como um dízimo. As opções mais
interessantes, que têm contrapartidas, são mais caras e economicamente
favorecem apenas aos que podem frequentar a maioria das pelejas. É tudo pensado
apenas nos 32%, ou menos, ou seja, mais ricos e a tal classe média tão badalada
nesse país.
Se os
quase 70% mais pobres pudessem se revezar indo aos jogos de menor demanda e
tendo a chance de conhecer e eventualmente visitar as casas de seus clubes, as
cadeiras vazias ficariam mais raras, ou seriam 100% ocupadas de vez. Os 43.255
lugares não vendidos na rodada mais recente em jogos dos clubes com as melhores
médias, comercializados a R$ 20, por exemplo, significariam mais R$ 865 mil. A
renda de Corinthians x Vitória foi de R$ 930.524 com gente pagando até R$ 180.
Ninguém se propôs a pagar R$ 450 por uma cadeira no setor Oeste Vip, mostra o
borderô.
No
caso específico dos dois clubes — insisto, nem vale a pena citar os demais, com
números muito piores — se abre mão, por exemplo, do público neutro, gente que
gostaria de conhecer as “arenas”, ou quem está de passagem por São
Paulo e teria interesse em ir a um jogo. Mas com esses preços? Um turista que
pagaria, digamos, R$ 50, dificilmente desembolsará o dobro ou triplo disso. E é
claro que não se tornará sócio torcedor. Preferem as cadeiras vazias do que
vender por um valor mais justo.
Sem
falar nos visitantes, sempre explorados. Um ingresso domingo na torcida da
Ponte Preta custou R$ 110 e segunda-feira o pessoal que apoiou o Vitória pagou
R$ 100. No jogo entre Corinthians x Flamengo, só 67% do estádio foi ocupado e
milhares de rubro-negros não puderam ir a Itaquera porque apenas 2,2 mil
ingressos foram colocados à venda para eles. Se disponibilizassem os 10%
estipulados pelo regulamento, seriam 4,9 mil e pelo menos mais R$ 200 mil nas
bilheterias.
Mas
nada supera a tolice dos dirigentes do próprio Flamengo. Domingo, em Brasília,
na estreia de Diego, jogaram os ingressos nas alturas, com preço médio de R$
63. Resultado, apenas 30,98% dos 72.788 lugares foram ocupados. O público de
22.522 pagantes lotaria o estádio de Cariacica, onde o time tem atuado. Mas na
capital federal, num estádio imenso, era obviamente necessário oferecer preços
mais populares.
Se o
custo médio fosse de R$ 40, bastariam 40 mil rubro-negros para renda R$ 200 mil
maior. Sem falar em algo não menos importante: casa cheia, atmosfera, mais
gente apoiando o time. A pergunta é: quem decide isso conhece algo de futebol?
Frequentou estádio? Já sentou numa arquibancada? Sabe qual é a realidade de um
assalariado?
Enquanto
isso, aqueles caraminguás que o povão ainda pode reservar para um pequeno
“luxo” são direcionados a algo mais justo, como a prestação de uma
televisão, um fogão novo, uma máquina de lavar roupas! Com parcelas que se
encaixam no orçamento do cidadão e dão em troca algo real, palpável. A paixão
não é concreta, mas é muito maior do que o desejo por um aparelho eletrônico ou
um eletrodoméstico. Contudo, ela soa como exploração quando se vê os preços dos
ingressos.
Falta
aos dirigentes perceber o óbvio: estamos no Brasil, país cuja população tem
renda média de apenas R$ 1.113. Falta quem note que entre os 68% das Classes C,
D e E não há quem possa pagar R$ 450 por um ingresso numa decisão. Mas são
milhões que desembolsariam R$ 20, R$ 30 em partidas menos concorridas e que,
juntos, proporcionariam muito mais do que esse meio salário-mínimo por um jogo de
futebol. Falta aos clubes alguém com a visão do criador da Casas Bahia.

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