domingo, setembro 27, 2020
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Minha professora de Flamengo.

Foto: Divulgação

REPÚBLICA
PAZ E AMOR
: Éramos doze. Mãe, pai, duas irmãs, dois irmãos, avô, avó, um tio,
duas tias, eu.

Morávamos
na rua Lauro Muller, Botafogo, em dois apartamentos contíguos, com a parede
central derrubada e formando uma espécie de trave para um divertido esporte
praticado por mim, meus irmãos e meu pai, um futebol caseiro em que a bolinha
era produzida por maços amassados de um mata-rato chamado Petit Londrinos, que
meu pai consumia à base de sessenta unidades por dia. (Morreu de enfisema,
claro.)
Dos
seis familiares que gostavam de futebol, cinco torciam para o Fluminense;
flamenguista, apenas minha tia Isa, que morreu ontem aos 96 anos.
De
algum tempo pra cá, sempre que eu estava no Rio sintonizávamos um dos canais do
PFC, que ela fazia questão de manter sob assinatura para assistir aos jogos do
Flamengo, e sofríamos juntos. Fisicamente fragilizada, leve tal uma pluma, Tia
Isa permanecia lúcida e mais rubro-negra do que nunca. Era crítica de Muricy.
Não acreditava nas supostas mudanças trazidas pelo rápido estágio em Barcelona
– “isso é conversa, Jorginho, potoca”. Sustentava sua opinião com o argumento de
que o Flamengo trouxera cinco jogadores de bom nível, pelo menos para os
padrões atuais do futebol brasileiro, e ainda assim apresentava um time mais
desorganizado que o do ano passado. Não tinha paciência com o recorrente
discurso da transparência administrativa e das contas em dia – para ela,
obrigação. Irritava-se quando escutava, pela tevê, a torcida gritar queremos
raça ou time sem-vergonha. Via as coisas com objetividade, e garantia: “O
problema do nosso time não é falta de raça, é ruindade mesmo.”
No
primeiro fim de semana em que a visitei, após os miseráveis sete a um, Tia Isa
reclamava de um filme publicitário do Itaú, aquele em que três ou quatro
crianças pediam à seleção que jogasse por elas, com a alegação de que ainda não
tinham visto o Brasil ser campeão do mundo. Presente à tragédia provocada por
Obdulio Varela, Schiaffino e Ghiggia em 1950, ela estrilava: a seleção tinha
que ter jogado por ela, que não teria outra chance de ver o Brasil ganhar mais
uma Copa. Simples e sábia.
No dia
14 de maio me recebeu com um bolo de maçã que eu adoro, e cuja produção ela
estoicamente supervisionara, e tomamos os habituais lugares na sala para o que
seria nosso último jogo lado a lado: Flamengo um, Sport zero, abrindo o
Campeonato Brasileiro. Já tinha programado assistir com ela à partida do
próximo domingo, contra o Palmeiras. Mesmo que a gente consiga uma convincente
vitória, esse jogo pra mim não vai ter graça.
João
Saldanha desconfiava de locutores, comentaristas e repórteres que escondiam o
clube para o qual torciam e, sempre que o assunto surgia, esbravejava: “Não sou
filho de chocadeira”.
Eu
também não.
Meu
pai me transmitiu o amor pelo futebol. Tia Isa me ensinou a ser apaixonado pelo
Flamengo.
PS:
Peço licença aos meus quatro queridos colegas republicanos, aos leitores e aos
comentaristas do blog, para completar essa pequena homenagem a uma grande
rubro-negra com um belo texto postado por minha filha, Nina, no facebook:
“Foram
96 anos. Teve sítio, picolé de ki-suco de uva na forminha de gelo, manga tirada
do pé. Teve maria-mole de presente de aniversário, quase todo aniversário,
porque ela sabia que eu amava. Teve cerveja gelada. Ah, teve chá-dançante na
Shell, toda sexta às 17h. Teve aquele cabelinho branco cor de nuvem. Duas
facetas (com e sem dentadura). Eu preferia a sem. Teve história de antigamente,
amor e carinho. Teve moda, seus olhos sempre atentos às roupas, sapatos e
acessórios. Teve All Star aos 90 anos. Teve muito amor pelo futebol, em
particular pelo nosso Flamengo. Teve chocolate escondido na gaveta e também
água com gás geladinha. Teve também a derrota da Copa de 50, sofrida, com a
volta do espumante fechado para casa. Teve a redescoberta da visão depois da
cirurgia da catarata. Sim, tia, eu sou toda pintadinha e você viu isso com clareza.
Teve muita lucidez até o fim. E que memória boa! Ela era doce. Leve.
Bem-humorada. Levantou de tanta queda, mas nessa ela decidiu que era hora de
descansar. Meu coração está em paz de saber que você viveu esse tanto de coisa
e pode estar sempre ao meu lado. Nem preciso dizer que vá em paz, porque sei
que você foi. O céu é o lugar dos anjos.”
JORGE
MURTINHO

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