quinta-feira, setembro 24, 2020
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Motivos da melhora do Flamengo sob o comando de Zé Ricardo.

LINHA
ALTA
: O mês era maio de 2014 e o time Sub-20 do Flamengo passava por um vexame
de proporções catastróficas diante do rival Fluminense em Xerém. Em partida
válida pela Taça Rio do Campeonato Estadual, o rubro-negro foi massacrado por
7×0 pelo tricolor. Sem querer tomar uma medida drástica a diretoria do clube
preferiu esperar e manteve o trabalho da comissão técnica por mais seis meses.
O rendimento abaixo da média e a queda de alguns jogadores que eram tidos como
promessas em outras categorias levaram o departamento de futebol amador a
efetivar um novo treinador: José Ricardo Mannarino. A missão era recuperar
jogadores e montar uma equipe em plena Taça OPG, importante competição do
futebol de base carioca.
29 de
maio de 2016, cerca de um ano e meio depois o mesmo José Ricardo Mannarino,
agora já chamado apenas de Zé Ricardo debutava como treinador profissional no
Flamengo. A vitória por 2×1 diante da Ponte Preta foi a segunda da equipe no
Campeonato Brasileiro e serviu para dar tranquilidade no prosseguimento do bom
trabalho que se revelaria a seguir. Tal qual na equipe Sub-20, um ponto fora da
curva se revelou como peça-chave para que o profissional chegasse ao cargo como
interino, situação que a diretoria do clube equivocadamente insiste em manter.
Neste caso, um problema de saúde do então técnico Muricy Ramalho.
O
resultado com o time Sub-20 muita gente já sabe. Sob o comando de Zé Ricardo os
‘’Juniores’’ rubro-negros venceram com sobras um Campeonato Estadual e foram
campeões da última edição da Copa São Paulo. Além disso, aquela mesma Taça OPG,
quando o técnico assumiu na metade da segunda fase, foi vencida pelo clube da
Gávea. Isto sem contar boas participações em Campeonatos Brasileiros, Copa do
Brasil e na Copinha de 2015.
A
sonhada combinação ”desempenho + resultado” foi realidade nos 18 meses em que
Zé Ricardo esteve no comando técnico do Sub-20. E no profissional? Como será?
Impossível prever! Mas podemos afirmar que o jovem treinador, em pouco mais de
um mês, faz o melhor trabalho técnico no rubro-negro desde o primeiro semestre
de 2011.
No
início do ano o Flamengo fechou a contratação do medalhão Muricy Ramalho. Com
um currículo vitorioso na bagagem e alguns dias de convívio no Barcelona, o
técnico parecia ser unanimidade para comandar o bom elenco que o clube dispõe.
Os meses se passaram e a equipe não conseguia ter um rendimento satisfatório.
Oscilava demais dentro de um mesmo jogo e o discurso de um futebol baseado na
construção curta de jogadas e da transição defensiva agressiva para retomar
logo a posse de bola ficou apenas nas entrevistas coletivas.
Neste
ponto reside talvez a maior diferença entre o trabalho de Zé Ricardo e Muricy
Ramalho. O experiente treinador sabia o que queria, mas não parecia dispor da
metodologia correta de treinamentos para a execução do modelo de jogo proposto.
Não basta simplesmente falar e mostrar no vídeo. É preciso condicionar
cognitivamente os jogadores para que tomem as decisões corretas nos diferentes
momentos do jogo. Rachões, longos coletivos e exercícios distantes das
situações de uma partida foram uma constante no Ninho do Urubu.
Desde
que assumiu a equipe, Zé Ricardo vem fechando muitos treinamentos, algo natural
em todo o mundo, mas um precedente que irrita a viciada imprensa esportiva
brasileira. Do que foi possível perceber através de bons jornalistas com fontes
confiáveis, e dos vídeos postados pela Fla TV no Youtube, a rotina de treinos
mudou bastante e isso fica muito claro no desempenho da equipe dentro de campo.
Em um
dos vídeos é possível perceber a participação ativa de Zé Ricardo orientando os
atletas durante uma ‘’roda de bobinho’’. O que parece ser brincadeira de
boleiro ou apenas um aquecimento lúdico para muitos treinadores é, na verdade,
um importante exercício de tomada rápida de decisões para quem tem a bola e
trabalho de diminuição de espaços e postura corporal para quem tenta recuperar
a posse.
Nos
principais clubes europeus, os ”Rondos”, como são chamados esse tipo de
exercício, fazem parte da rotina diária de treinamentos e levados muito a sério
pelos jogadores, que veem a cada partida o que as particularidades do exercício
podem trazer de positivo para o seu jogo. Este é apenas um pequeno exemplo das
mudanças entre a metodologias de Muricy e Zé Ricardo.
Sistema Defensivo
Obviamente
que a equipe rubro-negra ganhou dois reforços que elevaram bastante o nível do
sistema defensivo. Rever e Rafael Vaz chegaram e se transformaram na dupla de
zaga titular. Vale lembrar, porém, que ambos eram reservas em suas últimas
equipes (Internacional e Vasco) e não tinham ritmo de jogo ao chegarem ao
clube. O que influenciou de verdade na melhora foi um conjunto mais bem
treinado e seguro do que precisa ser feito em campo.
Assim
como com Muricy, o rubro-negro busca marcar por encaixes individuais de
perseguição curta: quando o jogador marca e acompanha até determinado ponto o
adversário que circula em seu setor. O modelo precisa ser muito bem assimilado
e treinado para que os atletas não se afastem demais de suas áreas de
influência e espaços apareçam. O funcionamento ainda não é perfeito no time de
Zé Ricardo, mas a evolução é nítida na maioria dos jogos. Há mais aproximação
entre os setores.

Neste momento do jogo contra o Corinthians vemos como a equipe se compacta, apesar dos encaixes por setor. Sete jogadores em espaço de menos de 20m de comprimento. Na sequência da jogada, o time retomaria a bola facilmente.
Foto: Reprodução
Dentro
desse contexto, o treinador escala Marcio Araújo como volante e cria a primeira
grande discórdia com a torcida rubro-negra. O clube conta com o colombiano
Cuellar para o setor. O jogador é mais qualificado para iniciar as ações
ofensivas e possui bom poder de marcação, mas Marcio tem executado muito bem a
cobertura dos espaços que aparecem em virtude do estágio de evolução da equipe.
No balanço defensivo tem sido muito importante também. Falta mais qualidade e
inteligência com a bola nos pés, mas vem sendo um ponto de equilíbrio que a
equipe precisa neste momento.
Sistema Ofensivo
O time
se posiciona de duas formas diferentes. Alterna entre o 4-1-4-1, com Arão na
segunda linha de meio, e o 4-2-3-1, com o camisa 5 ao lado de Marcio Araújo. A
opção vai de acordo com o momento do jogo e também com o adversário. Seja qual
for a estrutura, os conceitos são bem claros. A prioridade é a saída curta pelo
meio, com os laterais bem abertos e projetados.

Time no 4-1-4-1, com Arão mais adiantado.
Time no 4-2-3-1, com Arão e Marcio Araújo lado a lado. Geralmente o posicionamento é adotado após vantagem no placar.


também a opção de uma saída mais longa, um passe rasteiro e forte buscando
sempre Marcelo Cirino ou Guerrero, jogadores que sabem proteger a bola e atuar
de costas para os adversários. Interessante notar que neste caso a equipe busca
a aproximação para que as linhas de passe sejam geradas. Conceito claro e
execução correta da proposta de jogo!

Outro exemplo do jogo contra o Corinthians, quando o Flamengo foi superior nos primeiros 55 minutos, mas acabou goleado. Percebemos nas extremidades(em amarelo), Jorge e Rodinei bem abertos, eles dão amplitude e tentam abrir defesa adversária. Marcio Aráujo, Arão e Alan Patrick se movimentam e buscam progredir com passes curtos. Na sequência da jogada, o camisa 5 quase fez um lindo gol – Foto: Reprodução
Outra
evolução da equipe é o preenchimento da referência quando Guerrero sai da
região central do ataque. Pelas características do peruano, que continua
devendo tecnicamente, isso é uma constante. Com Muricy, em diversos momentos, o
time perdia a referência para uma bola mais direta e consequentemente
profundidade. Rodava a bola sem conseguir penetrar. Com Zé Ricardo, Marcelo
Cirino e Alan Patrick têm desempenhado de forma satisfatória essa função.

No jogo contra o Internacional, um exemplo claro: Guerrero sai da referência e Marcelo Cirino entra em diagonal. Mesmo irregular, camisa 7 é importante para a equipe atualmente – Foto: Reprodução
‘Ponta-Construtor’ ou ‘Ponta-Tradicional’
Mais
uma alternância na forma em que Zé Ricardo monta o time. Muricy também
utilizava esse precedente e isto foi uma boa herança. Éderson, Éverton e Fernandinho
se revezam na função à esquerda da linha de meias do Flamengo. Três jogadores
com características diferentes e que podem oferecer situações distintas.
Éderson
é o clássico ”ponta-construtor”, assim como Mancuello também pode ser. Sai da
esquerda buscando o espaço entre as linhas de marcação do adversário, o espaço
ás costas dos volantes, e abre o corredor para a passagem de Jorge. Entra
bastante na área para finalizar e se apresenta como opção de passe aos volantes
e ao talentoso lateral. Ao contrário do que muitos imaginavam, o atleta não é o
clássico armador cerebral. Sempre rendeu bem na carreira (Lyon e Lazio)
desempenhado a função descrita acima.

Voltamos ao jogo contra o Corinthians para flagarmos o exato momento em que Éderson busca o centro campo e abre o corredor para a passagem de Jorge. Camisa 10 tem percepção tática para esse tipo de movimentação na hora exata. Na sequência da jogada o Mais Querido quase marcou – Foto: Reprodução
Éverton
não tem a mesma técnica que o camisa 10, mas compensa com muita movimentação e
capacidade física. Até por isso é capaz de oferecer-se como opção de passe até
mesmo no lado oposto do campo e ainda aparecer na definição da jogada no lado
esquerdo. Aproveita também as extremidades e pode desempenhar as duas funções.
Fernandinho
é o que podemos chamar de ”ponta-clássico”. Mesmo que tecnicamente seja uma
contratação extremamente questionável, sabe desempenhar a função e foi
importante, por exemplo, na vitória contra o Atlético/MG no último final de
semana. Joga bem aberto e suas jogadas são baseadas no enfrentamento
individual. Precisa de espaço para atuar. Não deverá firmar-se como titular,
mas em algumas partidas será útil.

Aqui Fernandinho com espaço para driblar e aproveitar mais uma característica do Flamengo de Zé Ricardo: a diversidade de opções de passe no último terço do campo, algo que já foi citado por três treinadores (Edgardo Bauza, Milton Mendes e Marcelo Oliveira) adversários neste Brasileirão. Resultado: gol contra o Galo. Equipe ainda precisa trabalhar melhor as finalizações – Foto: Reprodução
Prever
até onde o Flamengo pode chegar neste Brasileirão é uma incógnita. O elenco é
bom e cheio de peças que oferecem variáveis interessantes de jogo,
principalmente nas mãos de quem vem provando saber muito bem o que faz e o que
quer com a equipe. Zé Ricardo, assim como o time rubro-negro, ainda vai
evoluir. Que a diretoria do clube tenha o discernimento de detectar o enorme potencial
de crescimento que o seu profissional tem, dê continuidade ao trabalho, e
ofereça ferramentas para que esse processo seja cumprido.
Rodrigo
Coutinho – @RodrigoCout

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