domingo, setembro 20, 2020
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Não dá pra levar gol e virar monstro.

República
Paz e Amor – Pego de surpresa e irritado com a demissão, Vanderlei Luxemburgo
saiu atirando e garantiu que a diretoria rubro-negra não entende nada de
futebol.

Sou
cético em relação aos caras que se autoproclamam grandes entendedores dessa
matéria tão cabeluda e pergunto a vocês, persistentes leitores do RP&A:
quem entende mais de futebol, o treinador Cuca ou o ex-presidente do Flamengo
Delair Dumbrosck? A resposta me parece óbvia. Entretanto, em 2009 Delair levou
Petkovic de volta à Gávea contra a vontade de Cuca, e o nosso grande nome na
conquista do Campeonato Brasileiro só entrou no time depois que Cuca foi
demitido. (Os motivos de Delair eram muito mais financeiros do que técnicos,
mas Cuca não queria ver Pet nem pintado.)
De
futebol gosta-se menos ou mais, acompanha-se mais ou menos, mas entender é
relativo. E, no fim das contas, de que adianta entender um esporte em que você
pode ter jogadores muito melhores que os do adversário, você pode massacrar o
adversário durante os noventa minutos e, ainda assim, você pode perder o jogo
no último lance da partida?
Um dos
problemas dos nossos treinadores é a necessidade que têm de – talvez para
justificar a indecência de seus salários, talvez por uma discutível e efêmera
sensação de poder – deixar claro que há coisas dentro de um jogo que só eles
percebem e só eles são capazes de compreender. Coisas que eles entendem muito
mais do que todo mundo.
Ontem,
apesar de ter diminuído o ritmo em relação ao primeiro tempo – como de resto o
time inteiro, o que é compreensível devido ao que todos haviam corrido –, Alan
Patrick permanecia sendo nosso ponto de equilíbrio, mas Cristóvão enxergou o
que ninguém mais via, teve outro de seus lampejos inalcançáveis para nós, meros
mortais, e achou por bem tirá-lo de campo.
Estou
longe de achar que os garotos que vêm da nossa base merecem, automaticamente,
uma vaga no time. Porém, como não entendo patavinas de futebol, recorro ao
advogado vivido por Denzel Washington em Filadélfia e peço que alguém me
explique como se eu tivesse seis anos: o que é que Jajá faz eternamente sentado
no banco de reservas? Aprimora a relação com os companheiros? Estreita os
laços? Organiza churrascos para as segundas-feiras de folga?
O
Flamengo fez um primeiro tempo de Dr. Jekyll, superior até às suas melhores
partidas do segundo semestre do ano passado. Ao contrário do que ocorrera
contra o Goiás, só corremos perigo em uma jogada individual de Ricardo Oliveira
em cima do Wallace, marcamos bem, acertamos mais os passes, sobramos no
meio-campo, fizemos dois belos gols. Ninguém consegue correr daquele jeito o
tempo todo e não há time de futebol que não cometa falhas. Ou seja: nosso
desempenho cair e o Santos nos ameaçar era mais do que previsível, mas nessas
horas precisam entrar em campo a tranquilidade e a consistência – e não o
elétrico e inconstante Gabriel.
Varandão
da saudade. Lembro de uma mesa-redonda no final dos anos setenta com a presença
de Paulo César Carpegiani, que comandava o nosso meio-campo com lucidez e
categoria. O Flamengo vencera um clássico naquele domingo, e um dos integrantes
da mesa perguntou a Carpegiani o porquê de sua discussão com Tita nos minutos
finais da partida. Resposta: “O jogo estava dois a um pra gente, aos 43 do
segundo tempo. Ora, dois a um pra gente aos 43 do segundo tempo, não é pra ter
mais jogo.” Tita perdera uma bola que não podia perder, tentando uma jogada que
não deveria tentar. Não temos mais Carpegiani e Tita, mas com dois a zero a
nosso favor e em casa, contra um time de campanha capenga, era para o jogo ter
acabado.
É
impressionante como viramos Mr. Hyde sempre que tomamos um gol, o que aconteceu
nesse campeonato inclusive nas duas partidas em que abrimos dois a zero – na de
ontem contra o Santos e na vitória sobre o Inter, quando só não entregamos a
rapadura por falta de tempo. Aumentar a confiança e segurar o emocional do time
são duas das tarefas mais importantes de qualquer técnico.
Aqui,
cabe um esclarecimento. Reclamei no post passado da teimosia de Cristóvão e
sofro com as invencionices do técnico na hora de substituir, mas não defendo
sua demissão. Criticar é uma coisa, achar que o cara tem que sair é outra.
Quando um time está disputando o título ou brigando para fugir do rebaixamento,
é melhor ganhar jogando mal do que perder jogando bem. Como não nos encontramos
em nenhum dos dois casos – a não ser para os alucinadamente otimistas ou para
aqueles de alma botafoguense –, creio que coisas boas puderam ser observadas
ontem. A começar pela impressão que tivemos, no primeiro tempo, de que
Cristóvão conseguira se libertar da herança maldita deixada por Luxemburgo e
finalmente fazia sua estreia como técnico do Flamengo. Não apenas porque, pela
primeira vez nesse Brasileirão, fomos para o intervalo com dois gols de
vantagem, mas pela compactação, a marcação firme, a recomposição eficiente, a
rapidez na transição, a vontade.
Quem
foi ao estádio saiu decepcionado, quem viu de casa desligou a tevê aborrecido.
Sim, os muitos passos à frente que demos no primeiro tempo acabaram anulados
pelo andar para trás no segundo, mas fiquei com a percepção de que é possível
evoluir e estamos evoluindo.
Desculpem:
será que estou sendo alucinadamente otimista?
Jorge Murtinho

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