quinta-feira, outubro 1, 2020
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Nem andando e nem voando, só sambando.

Foto: Divulgação

REPÚBLICA
PAZ E AMOR
: Ninguém precisava ter pós-graduação em Campeonatos Brasileiros Vencidos
Pelo Flamengo com especialização em Perrengues Cotidianos para perceber que o
jogo contra o lanterna do campeonato ia ser um dos mais decisivos da campanha
de um suposto Heptacampeonato (segundo o rastreador de encomendas dos Correios,
o pacote já saiu da Agência Central e tem previsão de entrega ao destinatário
ainda esse ano).

Os
sinais eram muito claros, todo mundo que já tá perdendo cabelo percebeu na
hora. E até alguns novinhos ajuizados. Era jogo pro Flamengo perder e entrar de
corpo e alma naquela crise de raiz que só a gente sabe organizar com charme e
suingue. Com a torcida empolgadona, contratações de impacto global e piscina
olímpica pica das galáxias, o cenário era perfeito para mais um
filme-catástrofe, subgênero no qual o Flamengo não tem rival nem em Hollywood.
Felizmente
para a nova geração de rubro-negros, excessivamente expostos à prosa rabugenta
de homens brancos de meia-idade que não gostam de passas no arroz, a
experiência, a cautela e a prudência, tão exaltadas pela intelligentsia
futeboleira mostraram mais uma vez que não passam de velhas mocréias cortejada
pela incapacidade. Não rolou nenhuma tragédia… tudo bem, talvez Chiquinho. Mas
que mané perder pra América, tá maluco?
Bom,
confesso que eu tava. Pelo menos um pouquinho. Porque sou de meia-idade, tô
perdendo cabelo e me acostumei a ganhar campeonatos brasileiros com sofrência,
apagando incêndios, trocando pneus com o carro em movimento e jogando no lixo o
livro de regras do bem administrar. Não estou dizendo que tem que ser assim,
mas foi assim que eu, e uma enorme geração de abençoados, nos acostumamos a ver
o Flamengo vencer. É um masoquismo do cacete, que comprova aquela conversa de
que o ser humano é capaz de se adaptar a tudo. Mas é um jeito de ser Flamengo
tão racional quanto qualquer outro e o importante é que vencemos mais uma.
É
verdade que o jogo foi horrível. Jogamos muito mal. Precisamos todos tomar
muito cuidado. Se o Flamengo continuar a jogar mal desse jeito, com vitórias
magras, suadas e inconvincentes, vai acabar sendo campeão com algumas rodadas
de antecedência. O que seria um desastre completo para o produto Campeonato
Brasileiro. Tanto em seus aspectos econômicos quanto para a audiência na
televisão, que no fim das contas são quase a mesma coisa. Mas eu tenho fé na
Mão Invisível do Caboclo Adam Smith, que não é de perder demanda. Quando o
Maraca voltar esse campeonato vai bombar.
A
torcida tem muito a fazer, ir ao estádio ou assistir pela TV não basta. Nós
somos a ponta de lança da guerra psicológica. O que precisa ser controlado com
mão de ferro é a Arcoirislândia, que como todos sabem, é borracha-fraca e já tá
ficando doidinha pra entregar as paçoca tudo pra nós. Disciplina no bagulho,
não é hora de brotar no G4 nem de graça! Não acredite em ninguém com mais de 30
pontos.
Se
liguem nesse alô, amigos, pra não deixar as zinimiga avacalhar um campeonato
que, conforme profetizado, será decidido na ultima volta do ponteiro do ultimo
minuto do ultimo jogo do Flamengo. Acalmem os terra-fofa, eles tem que segurar
a marimba lá no G4 e não se afobar. E, pelo menos por enquanto, tem que parar
de ajudar o Flamengo. Deixa que a gente se ajuda sozinho.
Certos
princípios e crenças, principalmente aqueles valores incutidos na carne macia e
porosa da mente da criançada, não nos abandonam jamais. Por mais que
mergulhemos fundo na modernidade cosmopolita do futebol business todo
arrumadinho, planejadinho, que dá lucro e bônus parrudo pra quem alcança suas
metas, a certeza de que o Flamengo só vai ganhar se for se fudendo todo no
maior perrengue possível permanece conosco como se tivesse sido costurada no
forro daquele casaco que a mãe da gente insiste que levemos quando saímos à
noite. Eu só consigo entender o Flamengo assim.
Deve
até ser uma experiência interessante ganhar um campeonato de pontos corridos
liderando a porra toda de ponta a ponta. Mas no Flamengo? Não creio que algo
sequer parecido ocorra tão cedo. Simplesmente não está nos nossos genes. E, cá
pra nós, qual a graça disso? Campeonato do Flamengo tem que ser um pouco
zoneado e muito sofrido. Lá na Gávea é assim. Nem andando e nem voando, só
sambando.
Mengão
Sempre
ARTHUR
MUHLENBERG

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