O campeonato da vida real.

Willian Arão e Fernando Prass durante Flamengo x Palmeiras – Foto: Gilvan de Souza

O
GLOBO
: Por Carlos Eduardo Mansur

Um
estudo do Itaú BBA mostrou que, em 2016, Flamengo e Palmeiras concentraram 20%
das receitas e 38% da geração de caixa de todos os 27 clubes analisados.
Separando os clubes em grupos, a arrecadação dos cinco mais ricos supera em R$
762 milhões a do segundo grupo, e a diferença cresceu R$ 252 milhões em relação
ao ano anterior. A conclusão é que a concentração aumentou.
Não é
razoável decretar que, neste cenário, o Campeonato Brasileiro dos 20 clubes da
Série A é o mesmo e que é justo exigir que todos joguem pelo mesmo objetivo.
Esta é a teoria. Ocorre que é produto tipicamente brasileiro a existência de 12
ou 15 clubes grandes. Não é problema, é patrimônio cultural. Desde que se
combata o efeito colateral: a fantasia de que, ano após ano, todos devem
disputar o título a qualquer preço. O erro ao dimensionar objetivos, ao ceder a
pressões, é o caminho para o descontrole.
O
Fluminense, que faz um digno Campeonato Brasileiro com seu jovem time, é um
emblema. Há dez dias, a derrota para o Grêmio, no Maracanã, veio acompanhada
dos tradicionais “time sem vergonha”, “queremos time” e do recorrente pedido
por uma equipe “à altura das tradições do clube”. É um direito da arquibancada.
O erro seria o comando do clube ceder a tal pressão. Trata-se do velho desafio
de assumir uma identidade. Hoje, o Fluminense parece convencido da sua. É um
bom passo.
O
mesmo estudo radiografou nas Laranjeiras um clube que, em 2016, teve queda de
35% em arrecadação de publicidade, 22% no Sócio Torcedor e, a pior parte,
aumento de 30% nos seus custos e de 20% na dívida. No meio da temporada
passada, sob a pressão de resultados, cedeu. O clube formador foi ao mercado
atrás de um lote de reforços medianos. Não obteve retorno técnico, ampliou
gastos e bloqueou o caminho dos jovens. Os mesmos que hoje ajudam a construir
uma temporada esportivamente aceitável.
O
Fluminense de 2017, terceiro time que mais minutos deu a jogadores da base, é
mais coerente do que o de 2016. Foi ao mercado com moderação e acertou com
Orejuela e Sornoza. No mais, exibe sua melhor face: revelar jovens que precisam
de estabilidade, algo raro no futebol do clube nos últimos anos. É um encontro
com uma identidade de clube.
Não
seria natural se, na conjuntura atual, disputasse o título. Mas não é pecado um
clube em transição traçar suas metas. Houve tempo para planejar a vida sem o
antigo e generoso patrocinador, mas o dever de casa foi feito apenas em parte:
incremento na base, erros de gestão. Caso resista à pressão da arquibancada e
ao desenfreado comércio do futebol brasileiro, consolide sua posição de mercado
como referência na formação de jovens, e alcance uma travessia tranquila, o
Fluminense terá vencido o seu Brasileiro particular.
Para
ajudá-lo, conquistou um parceiro sob medida: no lugar do plano de saúde, Abel
Braga. Não se acha em cada esquina um técnico com tantos títulos disposto a se
alinhar de forma tão clara a um projeto alicerçado num time tão jovem, sem
jamais se escorar na cobrança por reforços.
Menos é mais
A boa
notícia é que jogar o campeonato em bases realistas tem rendido frutos,
permitido campanhas acima da encomenda. No futebol do Rio, o Botafogo é, desde
o ano passado, o exemplo pronto e acabado de que, no Brasil, quem rivaliza com
o dinheiro é a estabilidade. O ritmo frenético do calendário nacional cria um
início de competição em que menos é mais.
Permanentemente
aberta, a janela de transferências do Brasil exerce irresistível atração sobre
alguns dos maiores arrecadadores do país — e, com efeito mais cruel, também
sobre clubes que, pressionados, vão às compras mesmo sem dinheiro. O Palmeiras
quebra recordes de rotatividade em seu elenco, enquanto o Flamengo, que teve
apetite moderado no mercado de início de ano, deverá completar no domingo a
estreia de quatro reforços em duas semanas. A instabilidade não ajuda a formar
times e alguns dos grandes favoritos completam um semestre de irregularidade. O
que não os tira da disputa do título, desde que transformem o poderio
individual de seus elencos, como exibido por Diego e Guerrero na goleada do
Flamengo sobre a Chapecoense, em crescimento do jogo coletivo.
Não é
coincidência que o primeiro embate direto pela liderança do campeonato reúna
amanhã dois times com poucas intervenções nos elencos. Um pouco por
planejamento, mas fundamentalmente pela falta de dinheiro, o único freio contra
a voracidade consumista no futebol brasileiro. Corinthians e Grêmio devem ter, cada
um, oito titulares que estavam eu seus times na última temporada. Ao menos na
fase inicial, no principal campeonato do país, dinheiro ainda não traz
felicidade.
Por: FlaHoje

MAIS LIDOS

SBT divulga chamada para jogo do Flamengo na Liberta; Assista

O Flamengo terá pela frente um grande jogo de futebol marcado para essa terça-feira, com transmissão do SBT. Um dia após completar um ano...

Com medo do Fla, Globo toma medida desesperada para concorrer com o SBT

A Globo traçou sua estratégia para competir com o jogo do Flamengo diante do Racing pela Libertadores. A partida será transmitida pelo SBT e...

Problema recorrente: Flamengo lidera estatísticas de chances perdidas

Na partida do último sábado diante do Coritiba, uma das maiores reclamações da torcida do Flamengo se deu ao número de chances reais de...

Com bom retrospecto contra argentinos, Flamengo chega confiante na Libertadores

O Flamengo começa sua caminhada na fase de mata mata da Libertadores amanhã, diante do Racing da Argentina. Se o futebol apresentado pela equipe...