quinta-feira, outubro 1, 2020
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O cão de guarda Jonas e a vocação para roubar a bola.

Globo
Esporte – O meio-campo do Flamengo ganhou em 2015 um cão de guarda daqueles.
Com muita garra e muita disposição, o volante Jonas tem se destacado na
marcação e na proteção à zaga. A vontade é tanta que o bote, normalmente
certeiro, às vezes vem exagerado na força, o que ele está aprendendo a
controlar com a ajuda de Vanderlei Luxemburgo. O piauiense ainda é diferenciado
por ter bom nível no passe e no chute. Não à toa ganhou a titularidade com
pouquíssimo tempo de casa, deixando nomes como Cáceres e Márcio Araújo no
banco. O mais incrível em Jonas é a forma de pensar: chega a ser obcecado por
roubar a bola do adversário.


Quando o time perde a bola, gosto de roubar, dar para os meus companheiros. Eu
jogava dessa maneira no Sampaio Corrêa. Gosto de roubar a bola e entregá-la
para meus companheiros. Não consigo ver meu time sem a bola. Perdi, já quero
tomar. O excesso de vontade é tão grande que o cara quer tomar a bola direto e
acaba fazendo falta. Gosto mesmo de jogar nessa posição.
Outro
fator que faz Jonas se destacar é a simplicidade. Mesmo após ter virado jogador
do Flamengo, ele preferiu se manter “escondido” e não comprou um
daqueles carrões, que no Ninho do Urubu existem aos montes. Desde a escolinha
do falecido treinador José Nunes em Teresina, passando por Fluminense-PI,
Piauí, Comercial-PI e Sampaio Corrêa-MA até chegar ao Rubro-Negro, nada mudou
na personalidade do volante de 23 anos. Ostentar? Nem pensar!
– Ser
jogador de time grande não vai mudar minha humildade. Depende de cada um, né?
Tem cara que deixa o sucesso subir à cabeça. Eu não, porque sei que bens
materiais acabam. Não vou mudar nunca. Sempre vou ser essa pessoa simples.
Para
um cidadão pacato como Jonas, viver no Rio de Janeiro assusta. Morando com a
esposa no Recreio dos Bandeirantes, ele é bastante caseiro e só sai de casa
para treinar, ir à igreja evangélica, a um restaurante ou no máximo ao cinema.
A timidez, no entanto, foi embora nesta entrevista ao GloboEsporte.com, onde
relembrou a polêmica entrada em Gilberto, do Vasco, o quase acerto com o
Corinthians antes de fechar com o Flamengo, falou sobre a expectativa de
disputar a Série A do Brasileirão pela primeira vez, entre outros assuntos. A
seguir, leia na íntegra o bate-papo realizado em Atibaia-SP durante
intertemporada do clube da Gávea.
GloboEsporte.com: Explica para o
rubro-negro que não acompanha todos os jogos do time e ainda não te conhece
direito. Quem é Jonas?
Jonas:
É um cara que sempre quis vencer na vida, aguerrido, que quer dar o melhor
quando entra em campo. Às vezes acaba até, pela vontade… Como aquele lance
com o Gilberto. Nem olhei para ele e, pela vontade, acabou acontecendo aquilo.
Até liguei para ele depois para pedir desculpas. Mas no jogo seguinte já
demonstrei que não sou aquele cara que as pessoas estavam falando, colocando
faixa de UFC e tudo. Fui lá e nem tomei amarelo. O Jonas é um cara que se
dedica todos os dias, com muito empenho e força vontade para vencer.
Por que você resolveu tentar a vida no
futebol?
Todos
falavam para mim que eu tinha potencial, para não desistir, para ir em frente
que iria conseguir. O meu bairro tinha muita droga, muita criminalidade, mas eu
insisti e graças a Deus consegui. Deus me presenteou com essas belas atuações
que venho tendo, assim como tive no Sampaio. Por isso a galera até colocou o
apelido de Schweinsteiger, e não vejo maldade nisso, é folclore do futebol, faz
parte. Claro que não vou me comparar ao Schweinsteiger, estou só começando, e
se Deus quiser um dia vou chegar no nível dele. A gente está no caminho certo.
Em meio aos carrões dos jogadores no
estacionamento do Ninho do Urubu, o seu é talvez o mais simples, apesar de não
ser um carro considerado popular. Isso passa um pouco da sua humildade e da sua
simplicidade. O mundo do futebol, nesse ponto, não vai te pegar?
Não
vai. Ser jogador de time grande não vai mudar minha humildade. Depende de cada
um, né? Tem cara que deixa o sucesso subir à cabeça. Eu não, porque sei que
bens materiais acabam. Não vou mudar nunca. Sempre vou ser essa pessoa simples.
Muitos jogadores hoje gostam de ostentar.
É uma coisa que você jamais vai fazer?
Eu
não. Até porque sou evangélico, sirvo a Deus. Mas também não sou contra quem
faz isso. Cada um vive sua vida à sua maneira. Eu conheço Deus, então vivo de
forma totalmente diferente. No dia em que eles conhecerem, tenho certeza de que
vão pensar assim também. Se a gente não tiver cabeça, vai para o caminho da
perdição. Sai, chega cansado, e nosso trabalho exige muito do corpo. Se passar
uma noite virado na rua bebendo, dançando, vai ficar cansado, não vai aguentar
treinar no dia seguinte, vai chegar mal, e isso vai te prejudicar.
Como é sua rotina no Rio de Janeiro?
Sou um
cara mais caseiro. De casa para o treino, para a igreja. No máximo vou para uma
churrascaria. Ainda não tive tempo de visitar os pontos turísticos. Até tive
quatro dias de folga (após a classificação na Copa do Brasil), mas fui passar
com a família, fui almoçar lá com mamãe e papai. Sabe como é, o tempero é
diferente (risos).
Para um cara pacato como você, o Rio
assusta um pouco?
Assusta
porque oferece muitas coisas. É como São Paulo, as coisas vão muito fácil. Isso
assusta um pouco. Mas como sou um cara tranquilo e equilibrado, acho que isso
não vai me afetar em nada.
Você quase fechou com o Corinthians antes
de vir para o Flamengo. Por que o negócio desandou?
Estava
tudo aprovado, tudo ok, estavam esperando o presidente ganhar a eleição. O
Mário Gobbi disse que não me queria e também não queria o Dudu (que foi para o
Palmeiras). Só que a minha contratação não foi aprovada por ele, e sim pelo
presidente que está agora (Roberto de Andrade). Ele (Roberto) me pediu para
esperar até ele ganhar a eleição, que aí seria certeza. Mas a gente, como
jogador de futebol, não pode esperar. A gente tem família e quer trabalhar.
Quando o jogador fica muito tempo parado, acaba ficando gordo, perdendo
preparo. Apareceu a oportunidade do Flamengo e não pensei duas vezes, até
porque é meu time de coração. Sempre assistia aos jogos lá em casa, chorava, e
graças a Deus hoje estou aqui.
Com quem tem mais afinidade no elenco do
Flamengo?
Os
caras são todos gente boa, mas o cara com quem tenho mais afinidade é o Márcio
Araújo. Às vezes vou na casa dele. Ele é do Maranhão, e conversei com ele antes
de vir. Eu não conhecia os outros jogadores, e o único que poderia me dar uma
assistência era o Márcio. Um colega meu do Sampaio é colega do Márcio, e pedi
para esse colega ligar e pedir para o Márcio me dar uma força na chegada. Nós
conversamos por telefone, depois eu o conheci pessoalmente quando cheguei. Ele
me dava carona. O Márcio é o mais próximo de mim, mas o grupo do Flamengo é
maravilhoso. Não tem vaidade. Todo mundo briga por posição, mas é aquela briga
sadia. Todos se apoiam.
O que aquele gol – bonito, por sinal –
contra o Fluminense representou na sua carreira?
Rapaz,
no momento a ficha nem tinha caído. Não sabia nem como comemorar. Primeiro
agradeci a Deus, depois corri e agradeci de novo. É o sonho de todo jogador
fazer gol em clássico, principalmente num Fla-Flu. E se prestar atenção, vai
ver que foi a mão de Deus. A bola estava indo para a mão do goleiro (Diego
Cavalieri), mas de repente ela fez um desvio. Pensei em chutar só para acertar
o gol, e a bola acabou entrando. Até chorei, porque estava voltando de lesão no
tornozelo. Fiquei feliz demais. No outro dia ainda estava meio bobo pelo gol.
Foi bom demais poder ajudar minha equipe a sair com a vitória.
No primeiro jogo da semifinal do Carioca
contra o Vasco, você fez falta duríssima no Gilberto, tomou o cartão amarelo e
foi substituído pelo Luxemburgo com apenas 18 minutos. O que ele te falou na
saída?
Ele
falou: “Fica tranquilo. Se eu não te tirar, você vai ser expulso, porque o
juiz está mal intencionado”. Achei tranquilo. Até parece que vou ficar com
raiva do Luxemburgo, um cara que venceu por onde passou. Quem me dá um conselho
desse quer meu bem.
Saindo de campo, o que passou pela sua
cabeça? Reconheceu o erro na hora?
Fiquei
chateado comigo mesmo, porque era um jogo importante, que todo jogador quer
jogar. Fui muito exagerado na vontade. Não foi imprudência, foi vontade demais.
Olhei a bola, ele também, e cheguei com o pé alto. Graças a Deus pegou só a
ponta da chuteira. Se pega no meio seria pior.
Você sente que pega pesado às vezes ou
aquele foi um caso à parte?
Foi à
parte, não sou um jogador maldoso. Falaram muito mal de mim, então o cara tem que
ter o psicológico muito equilibrado.
A repercussão negativa te abalou?
Fiquei
meio tenso, com medo de ser expulso nos jogos seguintes se chegasse duro, não
vou mentir. O cara fica chateado. Mas graças a Deus o professor conversou muito
comigo. A gente aprende errando. Serviu de lição. O professor falou para mim:
“Você é forte, tem recuperação boa, então não precisa chegar muito forte.
Você consegue roubar a bola sem fazer falta. Vai mais devagar. Se você melhorar
isso, vai crescer cada dia mais”. Peguei isso para mim. Tem que ser um
cara tranquilo porque vai viver sempre uma nova experiência.
Temeu ficar marcado como um jogador
violento?
Fiquei
com medo de ficar marcado. O professor disse que, se não fosse mais devagar,
ficaria marcado como jogador violento e os árbitros começariam a pegar no meu
pé. Então, estou me aprimorando nos treinamentos. Claro que não vou deixar de
ter minha característica, que é a pegada, chegar forte, roubar a bola, mas vou
melhorar no decorrer do tempo. Sempre quero vencer. Dou a vida ali porque quero
vencer. Às vezes essa vontade acaba atrapalhando um pouco, e acabo tomando
amarelo. A gente vai aprendendo.
E esse apelido que o Luxa te deu,
“Sarará”, aprovou? Você nem tem cabelo crespo, na verdade.
Tranquilo,
tranquilo (risos). A gente sabe que futebol é isso, é resenha. Não tenho
problema, pode me chamar do que quiser, de Sarará, de Schwensteiger. Não fico
chateado. Os caras brincam comigo direto, o coração é sempre bom.
O que acha de, apesar do pouco tempo de
Flamengo, ser reconhecido como um cão de guarda do time?
Muito
legal. É muito bom ter esse carinho do torcedor. Isso não vai subir na minha
cabeça, vai só me incentivar a melhor cada dia mais. Quando a gente entra em
campo, só quer dar a vitória ao Flamengo, sabendo da grandeza que o clube tem.
Para falar a verdade, a ficha ainda não tinha caído mesmo depois de chegar
aqui. Eu passaria a ver os caras de quem sou fã, como Everton e Alecsandro. E
hoje posso conviver com eles. Graças a Deus tenho a oportunidade de jogar de
titular.
Seleção brasileira já passa pela sua
cabeça ou só pensa no Flamengo?

penso no Flamengo. As coisas vão acontecendo naturalmente. Não adianta estar
com aquele pensamento de ir para a seleção brasileira e acabar fazendo as
coisas erradas. O pensamento tem que estar aqui. Fazendo as coisas corretas no
Flamengo, jogando um grande futebol aqui e dando o meu melhor, as coisas vão
acontecer naturalmente.
Você está prestes a disputar sua primeira
Série A do Brasileirão. Dá frio na barriga, por ser uma vitrine tão grande?
Creio
que sim. Nesses dias ainda não, até porque a gente já teve a experiência de
jogar contra Fluminense, contra Vasco, contra Botafogo. Isso diminui mais, por
ter enfrentado time grande. Mas pode dar um frio ali nos primeiros 10 ou 15
minutos de jogo. Nada que vá atrapalhar o bom desempenho e a dedicação.
Você acha que rende mais como primeiro
volante mesmo? Ou de repente como segundo volante?
Eu me
encaixo mais de primeiro volante. Quando o time perde a bola, gosto de roubar,
dar para os meus companheiros. Eu jogava dessa maneira no Sampaio Corrêa. Gosto
de roubar a bola e entregá-la para meus companheiros. Não consigo ver meu time
sem a bola. Perdi, já quero tomar. O excesso de vontade é tão grande que o cara
quer tomar a bola direto e acaba fazendo falta. Gosto mesmo de jogar nessa
posição.
De onde vem essa sede por roubar a bola?
Normalmente o jogador gosta mais de marcar gol, dar uma assistência, um drible.
Acho
que é da vontade. Gosto de estar ali, à frente da zaga, marcando. Gosto de
marcar e roubar a bola. Às vezes, quando tem oportunidade de escapar e chutar
para o gol… Mas fico do meio para trás, só ajudando e dando o primeiro bote,
que é para a bola chegar um pouco espirrada nos zagueiros. O professor pede, e
obedeço.
Se tiver que escolher entre roubar 10
bolas ou então marcar um gol, mas sem ir tão bem na marcação, qual você
preferiria?
Roubar
10 bolas no jogo, melhor. Gol é consequência. A princípio prefiro roubar a
bola.
Até aonde o Flamengo pode chegar no
Campeonato Brasileiro? O time está preparado para brigar lá em cima?
Com
certeza. Se Deus quiser, a gente vai ser campeão do Brasileirão. Jogador não
pode pensar que vai ficar embaixo. Tem que pensar em títulos. Tenho certeza que
nosso time está no caminho certo. Nós vamos conseguir uma vaga na Libertadores
e ser campeões desse Brasileiro, em nome de Jesus.
O
Flamengo estreia no Brasileirão neste domingo, às 16h, contra o São Paulo, no
Morumbi.

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