terça-feira, setembro 29, 2020
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O Comércio e o Jogo.

Foto: Rafael Moraes

CARLOS
EDUARDO MANSUR
: A comoção rubro-negra em torno de Diego é natural. No mercado
nacional, é jogador capaz de causar impacto. E, a rigor, poucas coisas têm
tamanho dom de renovar esperanças e mobilizar o torcedor brasileiro quanto
contratações. Investir em Diego é correto, em qualquer contexto. O errado é a
forma como o futebol brasileiro lida com o fluxo de jogadores. O comércio
vitima o jogo.

Comprar
e vender entrou de tal forma na rotina dos clubes que tornou íntimo dos
torcedores um documento cartorial: o Boletim Informativo Diário, o famoso BID,
uma publicação dos atletas registrados pelos times. Ele mostra que, nos últimos
30 dias, período permitido para registrar reforços vindos do exterior, os
clubes da Série A do Campeonato Brasileiro inscreveram cerca de 70 jogadores,
entre negociações domésticas e internacionais. E ainda há mais de uma dezena de
já contratados à espera do registro. Mudanças demais para um torneio que já vai
quase pela metade.
Temos
um dos campeonatos mais impessoais do mundo. A cada semana, um time. Não há
vínculos com o torcedor. Só as camisas são reconhecíveis. Realidade que não
ajuda a cativar público, tampouco a melhorar a qualidade do jogo. É um drama em
mão dupla. O torcedor, quase vítima de um estelionato, se prepara para ver um
time. De repente, saem nomes como Ganso, Calleri, Giuliano… E a reposição tem
mais quantidade do que qualidade.
“O fim
do período de contratações pode dar uma dimensão melhor do campeonato. No
último quarto do torneio, com os times mais formatados, o futebol melhora”,
avaliou Tite, técnico da seleção. O sentimento geral é de que nunca há times
prontos.
Justo
dizer que, em parte, contrata-se porque perde-se muita gente para mercados mais
fortes. A realidade global não indica que o Brasil deixará de ser exportador
tão cedo. Mas valorizar o produto, criar uma liga, vendê-la melhor e encher
estádios, se não vai reter estrelas e grandes promessas, pode fazer o
Brasileirão ser mais atraente para um exército de jogadores intermediários. E
bons.

escolhas difíceis a fazer, embora seja útil discuti-las. Em tese, adequar-se ao
calendário europeu evitaria que o período mais frenético do mercado coincidisse
com um campeonato em andamento. Reduziria o luto pelas perdas. Mas fazer o
campeonato de um ano a outro, além do choque cultural, imporia atravessar o
verão jogando. É possível pôr futebol na agenda nacional em janeiro ou
fevereiro? Difícil responder, parece um tiro no escuro.

missões mais simples para tentar fazer com o time que começa seja mais parecido
com o que termina a temporada. Planejamento, por exemplo. Dos clubes, ao
projetar elencos; das entidades que administram o jogo, ao evitar o
contrassenso de que a janela de transferências internacionais do país termine
mais de um mês antes da europeia. Não se pode mais comprar no exterior, mas
pode-se perder para lá. Então, contrata-se até como medida preventiva. E tome
comércio.
E não
vai parar. Mesmo fechada a janela internacional, é permitido, até setembro,
inscrever jogadores locais no campeonato. O resultado? Em outubro, na tal reta
final do Brasileirão a que se referiu Tite, haverá estreias. Na verdade, nossa
janela nunca fecha. Vivemos uma eterna pré-temporada.
Não
ajuda, ainda, ter quatro meses dedicados a Estaduais. De tão desinteressante, a
abertura do ano vira um convite à economia. Monta-se time para o segundo
semestre. Na verdade, contrata-se para o segundo semestre. Porque montar time,
estabelecer um projeto esportivo, é algo bem mais raro.
A arquibancada
Há,
também, uma compulsão, uma sanha consumista que se sobrepõe à cartilha básica
da formação de um time. Contratar acalma a arquibancada ou, por vezes, alivia a
ansiedade típica do futebol brasileiro. Antes mesmo que se possa diagnosticar a
eficácia de quem fora trazido para iniciar o ano.
O
Fluminense contratou mais de meio time no início de 2016. Acaba de trazer mais
meio time. Quanto tempo cada reforço precisa para se ambientar? Quanto tempo é
preciso para saber se o novo elenco deu certo ou errado? E os que chegaram, o
que indica que são tão superiores aos que já estavam no clube, ou que são tão
capazes de marcar diferenças? As respostas jamais virão. Antes delas, virão
outras compras e vendas. Sem falar nas trocas de técnicos. Não é uma questão do
Fluminense, é do modus operandi do país. Contratar demais nem sempre é o
problema: a questão é fazê-lo duas, três vezes ao ano, em meio aos campeonatos.
E o calendário tem culpa.
No
Flamengo, que já contratou 15 jogadores em 2016, e desta vez com boa dose de
acerto, Diego pode funcionar de imediato. Mas pode precisar de tempo, também.
Seria natural. Quando este tempo passar, terá os mesmos companheiros?
Impossível assegurar. No futebol brasileiro, tudo é transitório.

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