sexta-feira, setembro 18, 2020
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O elo mais frágil.

Alan Patrick sofrendo falta durante Fluminense x Flamengo – Foto: Buda Mendes/Getty Images

CARLOS
EDUARDO MANSUR
: Há cenas que são capazes de sintetizar uma crise que, embora se
manifeste mundo afora, aqui se apresenta com contornos bem brasileiros. No
Fla-Flu de Volta Redonda, juiz e assistentes cercados, acuados, eram a imagem
do pânico. Pareciam implorar por ajuda. Sandro Meira Ricci errara
terrivelmente, sim. Mas ele e seus auxiliares eram símbolos dos personagens
mais fragilizados do futebol atual.

Verdade
que a confusão desatou quando Ricci, colecionador de atuações comprometedoras,
rejeitou a marcação do bandeira, que acertara ao anular o gol tricolor. Mas
tudo o que aconteceu a seguir é muito mais significativo do que discutir se, ao
fim do tumulto, chegou-se a um desfecho justo ou injusto.
Não
há, hoje, figuras mais inseguras num campo do que os árbitros. Em especial num
futebol como o brasileiro, em que valores como respeito, compromisso com o
espetáculo e boa educação perdem de goleada para a busca do resultado a
qualquer preço, incluídos aí a pressão e os desaforos. Vinte e dois jogadores
elegem a arbitragem como adversária e tentam vencê-la pela intimidação ou pela
simulação. Cabe ao juiz fazer mais do que marcar o que vê. Precisa partir da
premissa de que, por vezes, o que vê são cenas de ficção produzidas por dublês
de atores, muitos deles canastrões. E, justiça se faça, nem sempre são só os
atletas. No Fla-Flu, até médicos e preparadores tomaram parte na disputa da
imposição pelo grito.
Com
tantas variáveis, o juiz precisa tomar decisões em meio a um jogo cuja
velocidade cresce exponencialmente. Mas o olho humano, este permanece sendo um
olho humano. Ainda que possa, e deva, ser melhor treinado, preparado.
O
árbitro, inacreditavelmente o único elemento do jogo que, ainda em 2016, não
tem no futebol seu único sustento, conduz o jogo rezando para que nenhuma das
dezenas de câmeras que cercam o campo desminta suas marcações. Tem a tecnologia
como adversária. Convenhamos, é desleal.
Proliferam
os árbitros à beira de um ataque de nervos, adeptos da ideia de que jogadores
são mesmo inimigos. Aplicam cartões como se desferissem um golpe com a arma que
lhes resta. Vingam-se através do amarelo e do vermelho. É verdade que não
faltam árbitros tecnicamente fracos. Mas sobram também os inseguros, frágeis
diante de cenário tão hostil. No Fla-Flu, a pressão os fez ir e vir na hora de
decidir.
Hora
do vídeo e do bom-senso
O
futebol tem uma dinâmica única, sem ciclos predefinidos como o vôlei, em que
uma gama bem maior de lances pode ser corrigida pelo vídeo sem alterar o fluxo
do jogo. É natural o estudo cuidadoso para implantar a tecnologia, mas a
verdade é que o futebol se atrasou, flerta com o anacronismo.
O
futebol precisa mudar, e os árbitros precisam de ajuda: da tecnologia, da
profissionalização, da preparação e da gestão da CBF. Ricci e os assistentes,
através de suas expressões de medo, imploravam por auxílio em meio à confusão
do Fla-Flu. E ele veio, ao que parece, da forma mais inaceitável. De tanto
rejeitar ingressar no século XXI, o futebol entrou na zona cinzenta da falta de
transparência, da ajuda disfarçada do vídeo que, se valer uma vez sim, outra
não, desequilibra campeonatos. É quase um vale-tudo na luta do árbitro pela
sobrevivência na selva que se tornou o campo. Um dano irreversível ao jogo,
porque pior do que uma arbitragem ruim é não saber quem é, de fato, o árbitro.
Mas
precisam mudar também os dirigentes, protagonistas de uma pressão que não
termina com o jogo. A sexta-feira foi marcada por uma guerra interestadual de
entrevistas coletivas e indignação seletiva, até de quem já viu seu clube se
beneficiar da aparente influência disfarçada do vídeo. A rigor, não há
propriamente indignação. Há, isto sim, a preparação do ambiente de pressão para
a próxima rodada, para que seu clube seja o favorecido.
Rodeados
por jogadores, técnicos, preparadores e médicos no Fla-Flu, Ricci e os
assistentes claramente já sabiam que o gol de Henrique fora em impedimento.
Restavam-lhes duas alternativas: ou morriam abraçados ao erro, ou reviam, outra
vez, a decisão, quase que confessando um auxílio de vídeo que, hoje, ainda é
ilegal. Àquela altura, não havia mais como o futebol sair ileso.

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