segunda-feira, setembro 21, 2020
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O Flamengo é sala de recepção.

Foto: Reprodução

REPÚBLICA
PAZ E AMOR
: Coisa que mais adoro é escrever sobre a dor e a delícia de torcer
para o Flamengo. Durante uma vida minha definição de torcedor rubro-negro era:
aquele que abraça desconhecido na arquibancada do Maracanã. Lembro de ver
maravilhada meu pai abraçando pessoas como se fossem amigos de infância.
Conversando, discutindo durante o jogo e eu de modo inocente ainda perguntava:
“Conhece de onde, Pai?” E ele respondia: “Conheci agora, minha filha.” Me
emociono demais enquanto escrevo isso. O Flamengo traz lembranças de pai, de
arquibancada, de uma vida, que nunca mais voltarão. E essa dor só é possível
ser vivida porque esse mesmo Flamengo nos alimenta a alma e nos dá esperanças
de seguir apesar das ausências. Com a certeza que os abraços nunca vão nos
faltar na arquibancada. Mesmo que, apesar dos erros de gestão,  de políticas e de governos…a arquibancada do
Maraca nos falte.

Com
meus doze ou treze anos estava em mais um jogo com meu pai e meu irmão. Um
típico domingo de “praia e sol, maracanã, futebol” quando ao meu lado se
posiciona um torcedor de sunga, pochete e camisa do Flamengo. Vou repetir para
que a cena se materialize na frente de vocês. SÓ DE SUNGA, POCHETE e CAMISA DO
FLAMENGO. Tenho certeza que meus 11 leitores já viram coisas mais intensas na
Arquibancada ou na saudosa Geral. Acontece que durante o jogo todo o praiano
torcedor queria conversar e comemorar comigo – surpreso com minhas reações e
análises do  jogo –  e claro me abraçar a cada gol do Flamengo.
Não satisfeito, comprava tudo que passava na frente dele…para mim! Biscoito
Globo, sorvete Kibon, Mate, Amendoim. Com aquela idade e, pasmem vocês, tímida,
só lembro do meu pai e meu irmão gargalhando das minhas reações de pânico.
Voltei pra casa e me queixei com minha mãe. Era o meu primeiro “assédio” (até
isso o Maracanã me deu), e meu pai tranquilo argumentava: “Não era um estranho,
era um torcedor do Flamengo.” Isso explica muita coisa. Logo, dentro da torcida
do Mais Querido, vale o samba que Cartola fez para o Paulo (da minha Portela).
O Flamengo é sala de recepção. Aqui se abraça inimigo, como se fosse irmão.
Fazia
tempo que eu não tinha essa sensação legítima de arquibancada. Mesmo nessa saga
de ver o Flamengo “por aí”.  Os
“estranhos” que param do seu lado não largam o celular. A alegria é para fora,
além dos muros do estádio.  Não se olha
para o lado. Só para as redes. Do gol? Não, sociais. Nelas também criamos
laços, abraçamos, amamos, nos apaixonamos, brigamos, fazemos as pazes, ERRAMOS
e acertamos. Mas, sempre nos falta um abraço. Movida por essa ausência de
espírito de arquibancada, abri mão do almoço e segui para o Santos Dumont.
Apenas pra dizer e afirmar para o Diego que a felicidade mora aqui no Flamengo.
E as outras escolas até choram, invejando a nossa posição. E lá estava eu
conversando com “estranhos conhecidos”: “E aí, Diego chegou? Chega que horas?
Será que já desembarcou?” E falava com executivos, adolescentes, pais e mães
com seus filhos, funcionários do aeroporto. Eu estava em casa. E tudo isso
também com o celular ligado transmitindo aquela sensação AO VIVO (eu saio das
redes sociais, mas elas não saem de mim). 
Por um instante, como num sonho lindo, vi meu pai no rosto daqueles
torcedores. Vi o cara da pochete. Vi um torcedor de 1,90, desdentado e de manto
sagrado “furadinho” que me jogou diversas vezes para o alto certa vez depois de
um gol do Flamengo, me fazendo levitar no Maracanã. Aquela sensação de “voar”
no estádio eu não vou esquecer jamais. Nem do portão de desembarque abrindo
para o nosso “35” passar. Nos abraçamos todos. Ilustres desconhecidos. Começo a
chorar,  timidamente, e um “estranho” de
manto sagrado me acolhe com um poético e preciso: “O Flamengo é foda, né
AMIGA?” Eu nunca tinha estado com aquele “amigo” antes. Apenas respondi: “Sim,
o Flamengo é foda, amigo.”
Diego
não é ídolo. Ainda. É esperança. A chegada dele nos trouxe de volta a alma
encantadora das arquibancadas do Maracanã. Somos todos João do Rio. Diego
é  bola. É Flamengo. É sonho. É desejo. É
amor. É Proust! A verdade do rubro-negro é o somatório de seus ressurgimentos.
O Flamengo vive e eu vivo o Flamengo. VIVA O FLAMENGO. Essa grande sala de
recepção.
Pra
vocês,
Paz,
Amor e Abraços.
Por
Vivi Mariano

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